Publicidade
Conflito no STF

Quebra de sigilo no caso Master revela guerra silenciosa entre Mendonça e PGR

Levantamento do sigilo sobre as investigações do Caso Master expôs um atrito direto entre Paulo Gonet e André Mendonça.
Levantamento do sigilo sobre as investigações do Caso Master expôs um atrito direto entre Paulo Gonet e André Mendonça. (Foto: Gustavo Moreno/STF)

Ouça este conteúdo

O levantamento do sigilo sobre as investigações ligadas ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, revelou que a crise no Supremo Tribunal Federal (STF) extrapolou a disputa interna entre magistrados e expôs um atrito direto entre o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o então relator da Operação Compliance Zero, ministro André Mendonça - a relatoria do caso foi assumida pelo presidente da Corte, Edson Fachin, na semana passada. Os documentos que mostram a tensão entre os dois tiveram o sigilo levantado na segunda-feira (14), embora a rixa entre Mendonça e Gonet já fosse conhecida por informações vazadas e por meio da guerra de petições.

Documentos judiciais e relatórios de inteligência mostram que Gonet questionou formalmente e atuou para conter medidas cautelares solicitadas pela Polícia Federal, alegando ausência de perigo iminente na prisão de alvos centrais do esquema financeiro. Além disso, adotou postura de contenção em relação aos desdobramentos que atingem o gabinete e o círculo pessoal do ministro Alexandre de Moraes.

A resistência do chefe do Ministério Público Federal (MPF) foi rejeitada por Mendonça, que negou os pedidos da Procuradoria-Geral da República (PGR) para adiar as medidas e apontou riscos graves à ordem pública e à integridade física de cidadãos e jornalistas.

O que começou como divergência sobre os limites da investigação passou a envolver a cadeia de custódia das provas, o acesso a documentos e questionamentos mútuos sobre as competências institucionais em despachos e requerimentos formais.

Segundo fontes ligadas às apurações e especialistas ouvidos pela reportagem, a relação entre os dois passou a ser pautada por desconfiança institucional após a menção a integrantes da cúpula da PGR no material coligido pela PF.

A partir desse momento, o procurador-geral passou a contestar os procedimentos adotados pelo relator, como explica a doutora em Direito Público Clarisse Andrade:

“A guerra entre Gonet e Mendonça é silenciosa porque não se apresenta como um confronto pessoal aberto entre os dois. Ela aparece em petições, decisões, pedidos de acesso, questionamentos sobre sigilo e disputas sobre quem tem competência para determinar os próximos passos da investigação”.

A recusa de Gonet em autorizar prisões preventivas

Os documentos mostram que, em março de 2026, a Polícia Federal representou pela prisão preventiva de quatro investigados na Operação Compliance Zero. Entre eles, o controlador do banco Daniel Vorcaro e o operador financeiro Fabiano Zettel, além de medidas cautelares contra servidores do Banco Central.

Solicitada a se manifestar em 72 horas, a PGR protocolou petição afirmando que o prazo era de “impossível atendimento”. Gonet declarou expressamente que “não se entrevê no pedido a indicação de perigo iminente, imediato” e assinalou que o órgão “não pode ser favorável aos pedidos cautelares, não podendo aboná-los”.

Ao analisar a manifestação, Mendonça indeferiu o pedido de dilação temporal e registrou que o prazo transcorreu in albis [sem manifestação]. O ministro censurou a posição da PGR ao afirmar que “lamenta-se” a alegação de ausência de urgência frente a indícios da atuação violenta de uma milícia privada armada, denominada “A Turma”, de ordens de agressão contra profissionais de imprensa e de acessos clandestinos a bancos de dados da PF e de organismos internacionais, como a Interpol.

Mendonça concluiu com a advertência em latim de que “tempus fugit” [o tempo passa rapidamente] e que a inércia representava perigo extremo à sociedade. Na sequência, expediu os mandados de prisão preventiva diretamente às autoridades policiais, determinando que a ciência à PGR ocorresse apenas após o cumprimento das ordens em campo.

O diretor-jurídico da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra em São Paulo (Adesg-SP), Willian Pimentel, advogado especialista em Processo Penal, avalia que o episódio reflete o atrito de natureza técnica e não pessoal por parte de Gonet.

“A censura de Mendonça deve ser compreendida como divergência institucional quanto à intensidade do risco e à urgência da resposta cautelar. A motivação juridicamente demonstrável da posição de Gonet é a necessidade, por ele invocada, de exame mais amplo do material. Atribuir-lhe outra razão exige prova autônoma”, disse.

O travamento de dados do Coaf e a blindagem a Moraes

Paralelamente, na Petição 15.645, documentos comprovaram que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) reteve comunicações financeiras sob a justificativa de que os relatórios envolviam autoridades com foro por prerrogativa de função no STF e no Superior Tribunal de Justiça (STJ), com base na Reclamação 88.121.

Enquanto a PF pleiteava acesso irrestrito aos dados para assegurar o rastreamento financeiro (follow the money), a PGR atuou para delimitar o escopo de investigações autônomas sobre contratos de consultoria jurídica celebrados com bancas ligadas a membros do tribunal, incluindo o contrato do escritório Barci de Moraes, da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do STF.

O surgimento de menções a autoridades de Brasília ampliou a crise. Em manifestação ao Supremo, a PGR arguiu a nulidade de atos investigatórios relacionados a tratativas de Vorcaro com ministros da Corte, sustentando que o relator extrapolou suas atribuições ao ordenar diligências sobre autoridades com prerrogativa de foro sem provocação do Ministério Público ou deliberação do Plenário.

Segundo Willian Pimentel, a linha adotada pela chefia do Ministério Público reflete uma defesa de rito processual e não pode ser interpretada em benefício de Moraes, mesmo que seja.

“É possível afirmar que determinadas teses sustentadas pela PGR podem produzir efeito processual favorável a Moraes, especialmente se limitarem ou invalidarem atos investigatórios que o alcancem. Esse efeito objetivo, contudo, não demonstra finalidade subjetiva de favorecimento”, esclareceu.

Gonet entra na briga pelo controle das provas de Mendonça contra membros do STF

A divergência entre Gonet e Mendonça passou a ser sobre quem tem o comando dos rumos de uma investigação envolvendo integrantes do próprio Supremo e quais são os limites da atuação do relator antes de uma eventual decisão do plenário da Corte.

O conflito ganhou nova dimensão com os dados extraídos do celular de Vorcaro. Mendonça recebeu uma cópia de segurança do material, mas sustentou que o arquivo permaneceu lacrado e sem acesso, enquanto o conteúdo original continua sob custódia da PF.

O ministro resistiu inicialmente aos pedidos de outros integrantes do STF para compartilhar integralmente os dados, mas o PGR se manifestou favorável à apresentação do conteúdo a outros ministros.

Diante disso, a Polícia Federal entregou nesta segunda-feira (14) a íntegra dos dados extraídos do celular de Daniel Vorcaro aos gabinetes dos ministros Cristiano Zanin e Gilmar Mendes. A informação foi confirmada pela PF e pelo STF à Gazeta do Povo.

A doutora Clarisse Andrade lembra que a situação levou o presidente do STF, ministro Edson Fachin, a intervir e acabou por colocar a PGR no meio da crise institucional.

“O presidente do Supremo determinou que a PF esclarecesse a situação do material e, posteriormente, deu prazo para que Mendonça retirasse o sigilo de documentos relacionados à Operação Compliance Zero, atendendo a uma demanda da PGR. Isso é um sinal claro de divergência”, lembrou.

Visando preservar autoridade, procurador-geral decide participar do julgamento de Moraes

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, decidiu permanecer no julgamento de Alexandre de Moraes, nesta terça-feira (15), apesar das pressões para que ele se afastasse da análise.

A estratégia indicaria que Gonet pretende preservar sua autoridade institucional e contestar procedimentos de André Mendonça que colocaram as mensagens de Vorcaro no centro da crise.  

A situação foi analisada como delicada porque Gonet não estaria apenas na posição de chefe do MPF, mas também como citado no contexto das mensagens e, ao mesmo tempo, pode continuar representando a PGR na sessão do STF que analisará o caso envolvendo Moraes.

As mensagens reveladas pela Polícia Federal mostram que Gonet estava entre as autoridades que participaram da degustação de uísque Macallan, em um evento paralelo em um clube de Londres, em abril de 2024. A viagem foi bancada por Vorcaro e teve como razão oficial a participação em um fórum jurídico. Um dos filhos do PGR também participou da excursão.

Nos últimos dias, Paulo Gonet teria adotado uma estratégia que pode ser interpretada como recuo operacional, e não afastamento da disputa. Ele deixou de assinar algumas das manifestações mais recentes relacionadas ao caso Master, enquanto integrantes da estrutura da PGR passaram a assumir formalmente parte da condução dos processos.

Para Clarisse Andrade, a estratégia não significa um recuo de Gonet. “A mudança reduz a exposição pessoal do procurador-geral, mas não significa que a instituição tenha abandonado suas posições. Ao contrário, a PGR continua questionando aspectos da investigação conduzida por Mendonça e defendendo que o material seja disponibilizado de maneira ampla antes das decisões do Supremo”, reforçou Andrade.

Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.