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O partido Novo chega às eleições de 2026 com uma configuração bem diferente das primeiras eleições nacionais que disputou, ainda em 2018. Na ocasião, a legenda recém-oficializada era pouco conhecida e se baseava em uma filosofia de liberalismo econômico puro e disciplina rígida.
De lá para cá, o partido de direita amadureceu e passou por muitas mudanças, incluindo maior abertura a pautas conservadoras e flexibilização de questões como uso do fundo partidário e permissão a coligações.
Lideranças do Novo veem o partido mais amadurecido e apostam em uma eleição histórica para a legenda. A expectativa é de lançar pelo menos 1.250 candidatos para todos os cargos em disputa, que vão de deputados estaduais a presidente da República, passando por governadores, deputados federais e senadores.
“O partido Novo chega nas eleições de 2026 muito mais forte do que estava em 2018 e 2022”, diz Eduardo Ribeiro, presidente do partido, que estima a eleição de cerca de 25 deputados federais e até quatro senadores.
Entre os principais nomes do partido para 2026 estão figuras populares na direita, como o ex-procurador da Lava Jato Deltan Dallagnol (PR), o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles (SP) e o deputado federal Marcel Van Hattem (RS), que devem concorrer ao Senado; o governador de Minas Gerais Romeu Zema, que anunciou pré-candidatura à Presidência da República; e o senador Eduardo Girão, que disputará o governo do Ceará.
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De estreia meteórica a revés, partido Novo passou por crise e “amadurecimento”
O resultado das urnas em 2018 foi positivo para o partido Novo – o empresário João Amoêdo, um dos seus fundadores, ficou em quinto lugar na disputa presidencial com 2,6 milhões de votos. Naquele ano, o partido elegeu um governador e oito deputados federais em sua estreia em uma disputa nacional.
No entanto, a eleição nacional seguinte, em 2022, deixou a desejar. O candidato à Presidência, Felipe D’Avila, ficou em sexto lugar com menos de 600 mil votos, e o partido encolheu no Congresso, ficando com apenas cinco deputados federais. A única grande vitória foi a reeleição de Romeu Zema em Minas Gerais, ainda no primeiro turno.
O desempenho frágil fez com que o partido Novo não atingisse a cláusula de barreira – número mínimo de votos que partidos devem ter para conseguirem verbas do fundo partidário e tempo de TV.
Além do resultado, o ano de 2022 detonou uma crise na legenda, com a desfiliação de Amoêdo. O empresário teve sua filiação suspensa após declarar apoio ao presidente eleito Lula (PT) nas eleições daquele ano.
Em meio à turbulência e com os números negativos em mãos, a liderança do partido precisou rever a rota e fazer adequações. O Novo, então, flexibilizou as regras para o uso de recursos públicos para financiar campanhas e passou a permitir coligações, deixando de formar apenas chapas “puro-sangue”. O objetivo das mudanças foi aumentar a competitividade dos candidatos e ganhar tempo de TV.
O partido Novo também flexibilizou a centralização no liberalismo purista e passou a ampliar o leque de pautas ligadas à direita, sobretudo de interesse de conservadores, como o combate ao aborto e às drogas e a tolerância zero contra o crime. Outro marco da mudança foi a subida de tom contra o Partido dos Trabalhadores (PT) – o Novo forma, junto com o Partido Liberal (PL), a base da oposição ao governo Lula em Brasília.
“Certamente houve muitos aprendizados ao longo do caminho. Nós fomos entendendo aquilo que de fato era importante e o que não era, o que funcionava e o que não funcionava, mas sempre mantendo a lógica de que o principal a ser preservado são os princípios e valores”, diz Eduardo Ribeiro.
“E isso a gente tem conseguido fazer com bastante dignidade e coragem. Inclusive enfrentamos muitas votações importantes, mesmo quando os votos são impopulares, mantendo um pragmatismo que tenha um certo limite. O pragmatismo vai até onde os nossos valores não se corrompem”, prossegue.

Fantasma da cláusula de barreira não preocupa, diz presidente
Se as eleições de 2022 trouxeram dificuldades, a expectativa das lideranças do partido é de ultrapassar com relativa tranquilidade a cláusula de barreira neste ano, mesmo com o aumento das exigências de desempenho, que passaram a ser a eleição de ao menos 13 deputados federais ou 2,5% dos votos válidos para a Câmara.
Isso porque alguns dos nomes populares da direita que o partido lançará são apostas como “puxadores de votos”, isto é, candidatos que recebem uma votação muito superior ao necessário para se elegerem, "transferindo" o excedente para o partido através do sistema proporcional.
A expectativa das lideranças do partido Novo é de um resultado bastante superior às eleições de 2018. “Com os nomes que temos hoje já temos condições de bater a cláusula de barreira com uma certa folga. E muitos nomes ainda vão vir, incluindo candidatos que têm um bom histórico eleitoral”, diz Ribeiro.
Partido Novo terá desafios pela frente, avalia cientista político
Apesar da expectativa positiva, o Novo deve encontrar desafios ao longo de 2026. Além de consolidar a nova formatação nacionalmente, a legenda terá que disputar votos entre a direita com candidatos do Partido Liberal, de Jair Bolsonaro.
Para Rafael Favetti, mestre em Ciência Política e sócio da Fatto Inteligência Política, essa é uma dificuldade comum para qualquer outro partido de direita no país. “O bloco da direita tem como principal referência o Bolsonaro. Qualquer outro nome depende do aval dele. Zema, por exemplo, não é exceção e só será uma opção real da direita se Bolsonaro o avalizar”, afirma.
O bom desempenho nas urnas, segundo Favetti, dependerá da capacidade de os principais nomes do partido influenciarem na conquista de votos para candidatos à Câmara dos Deputados. “O partido tem como maior ativo o governador de Minas Gerais, Romeu Zema. Ele é um dos que têm a ‘responsabilidade’ de ajudar a aumentar a bancada na Câmara. Se essa influência não acontecer, o Novo tende a perder representatividade ao invés de aumentar”, aponta.








