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Mais do que a disputa pelo Palácio do Planalto, a eleição de 2026 pode ter no Senado o verdadeiro campo de decisão política no país. A avaliação é do cientista político Felipe Nunes, CEO consultoria Quaest, que faz pesquisas eleitorais. Ele que vê o Senado como destino de um possível voto de protesto contra o Supremo Tribunal Federal. Em entrevista ao podcast Market Makers, ele afirma que o fortalecimento do Congresso e a polarização do eleitorado tendem a deslocar o eixo do poder em Brasília.
"As eleições que importam, eu diria, são as eleições para o Congresso, porque o poder está se mudando para lá. A gente está vivendo um deslocamento de poder do Executivo para o Legislativo que é histórico", explicou Nunes.
Nesse cenário, o Senado ganha centralidade como espaço de influência direta no equilíbrio entre os Poderes, o que tende a ampliar o interesse eleitoral e atrair candidaturas mais competitivas.
"O voto para senador neste ano vai ser muito importante. Sabe quantos por cento não votaram em senador em 2018? 57% não votaram em nenhum senador. (...) O Senado que está aí foi eleito por 43% dos brasileiros", completou Nunes.
A relevância da disputa aumenta ainda mais pelo desenho da eleição deste ano: estarão em jogo dois terços do Senado Federal, com cada estado elegendo dois senadores — o que amplia significativamente o potencial de renovação da Casa. No campo da direita, a estratégia tem sido priorizar candidaturas competitivas com discurso crítico ao STF, com o objetivo de formar uma maioria capaz de influenciar pautas institucionais sensíveis.
A possibilidade de mudança no equilíbrio interno do Senado também mobiliza o governo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem intensificado articulações regionais e buscado alianças em diferentes estados para ampliar a bancada de senadores alinhados ao Planalto, em uma tentativa de conter avanços de adversários e preservar margem de governabilidade na Casa.
Essa movimentação reflete o que Nunes descreve como o "instinto de sobrevivência" de um eleitorado dividido. "Nós nos baseamos numa dinâmica que é: 'eu voto porque gosto do cara ou porque não quero que o outro ganhe'. A gente se comporta com medo de o outro time ganhar e aí a gente se polariza", explica o pesquisador, apontando que o Senado virou a trincheira dessa disputa de identidades.
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Disputa pelo Senado ganha protagonismo em 2026
O protagonismo da disputa pelo Senado neste ano se dá em meio aos escândalos envolvendo ministros do Supremo, como mais recentemente no caso do Banco Master. Segundo Felipe Nunes, ao identificar na eleição dos senadores o único espaço com prerrogativas formais para processar e julgar ministros da Corte, parte do eleitorado passa a orientar o voto com base nesse objetivo — mais do que em agendas tradicionais como economia ou políticas públicas.
Em março, levantamento da Quaest analisado pela Gazeta do Povo indicou que 66% dos brasileiros consideram importante eleger senadores comprometidos com a análise de pedidos de afastamento de ministros da Corte. O apoio ao tema aparece de forma significativa em diferentes grupos do eleitorado.
Entre os entrevistados que se identificam com a direita, a adesão ultrapassa 80%, mas também há respaldo relevante entre eleitores independentes e até mesmo entre parcelas da esquerda. De acordo com o levantamento, 54% dos eleitores que se declaram lulistas e 52% que se dizem da esquerda não lulista consideram importante votar em senadores favoráveis ao impeachment de ministros do STF.
A pesquisa apontou ainda que 72% dos brasileiros avaliam que o STF tem “poder demais”, enquanto 59% consideram que a Corte atua como aliada do governo federal.
A pesquisa ouviu 2.004 eleitores entre os dias 6 e 9 de março, com margem de erro de cerca de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%. O levantamento está registrado no TSE sob o código: BR-05809/2026.
Eleição atrai candidaturas com agenda de enfrentamento ao STF
A tendência de centralidade do Senado nas eleições já se reflete no perfil das candidaturas que começam a se desenhar para 2026. Segundo o cientista político Elias Tavares, a disputa deve ser marcada pela presença de nomes que se apresentam como contraponto direto ao Supremo Tribunal Federal, com propostas de investigação, imposição de limites institucionais e até abertura de processos contra ministros.
“Em 2026, a tendência é de uma disputa muito forte por vagas no Senado com candidatos que vão se apresentar como contraponto direto ao STF, defendendo investigações, limites institucionais e até processos contra ministros”, afirmou Tavares à Gazeta do Povo.
De acordo com o cientista político, esse tipo de discurso já encontra respaldo em um eleitorado consolidado, especialmente ligado ao campo do ex-presidente Jair Bolsonaro, mas ganha agora uma nova função eleitoral. “Mais do que disputar o Planalto, há uma corrida para ocupar cadeiras estratégicas que permitam confronto institucional direto”, diz.
Tavares avalia, no entanto, que a estratégia tem alcance limitado fora da base mais engajada. “Esse discurso é muito eficiente para consolidar base. Mobiliza, engaja e dá identidade política, mas tem baixa capacidade de expansão, especialmente entre eleitores moderados”, afirma.
Ainda assim, no caso do Senado, esse limite pode ser relativizado pelo próprio modelo de disputa. Como se trata de uma eleição majoritária e altamente polarizada, o cientista político aponta que a força de mobilização pode ser suficiente para garantir competitividade, mesmo sem ampliar significativamente o eleitorado.








