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Disputa em SP

Como a esquerda tenta desgastar Tarcísio antes das eleições

Esquerda afunila críticas a Tarcísio de Freitas mirando 2026; Fernando Haddad (PT) está na disputa).
Campo progressista começa a consolidar narrativas que pretende usar para enfrentar o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) no estado que é o maior colégio eleitoral do país. (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

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Com a confirmação da pré-candidatura de Fernando Haddad (PT) ao governo de São Paulo, o partido do presidente Lula (PT) começa a estruturar uma disputa que, até então, existia mais como expectativa do que como projeto político declarado.

Além do nome, a menos de seis meses do primeiro turno da eleição 2026, marcado para 4 de outubro, o campo progressista começa a consolidar as narrativas que pretende usar para enfrentar o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) no estado que é o maior colégio eleitoral do país.

O movimento é eleitoral e discursivo. Nas últimas semanas, lideranças do PT, movimentos sociais e perfis alinhados à esquerda têm reforçado um conjunto de críticas à gestão paulista em eixos bem definidos: segurança pública, violência de gênero e impacto das privatizações no custo de vida.

Não há, necessariamente, coordenação formal por trás desse movimento, mas uma agenda compartilhada que começa a funcionar como estratégia de desgaste da oposição.

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O anúncio do PT para a eleição em São Paulo transforma Fernando Haddad em uma tentativa de dificultar o projeto de Tarcísio de buscar mais quatro anos à frente do cargo. Ex-prefeito de São Paulo entre 2013 e 2016 e derrotado na eleição presidencial de 2018 por Jair Bolsonaro (PL), Haddad acumula a experiência de ministro da Fazenda em um governo federal que busca consolidar resultados econômicos baseados em gastos públicos.

A atuação nas redes sociais nos últimos meses antecipava a movimentação. Pautas de igualdade de gênero, críticas a privatizações e menções ao impacto de decisões estaduais no cotidiano do eleitor passaram a aparecer com frequência crescente. O desafio, contudo, é grande.

Tarcísio governa o estado mais populoso do país com índices de aprovação estáveis, conta com o apoio de prefeitos e vereadores de diferentes matizes e tem um eleitorado majoritariamente conservador no interior do estado, historicamente resistente ao PT. Um dos retratos de momento mais recentes junto ao eleitorado de São Paulo, feito pelo instituto Atlasintel e divulgado no fim de março, mostra que a distância entre Tarcísio e Haddad está relativamente curta: o governador alcança 49,1% das intenções de voto e o ex-ministro petista, 42,6%.

Na simulação de segundo turno, Tarcísio tem uma vantagem de 10 pontos percentuais até o momento para Haddad: 53,5% contra 43,2% — indicação de voto em branco, nulo ou indecisos soma 3,3% dos entrevistados. "A questão é saber se o Haddad consegue levar a disputa para o segundo turno e, com isso, tirar o Tarcísio da campanha de Flávio Bolsonaro (PL)", analisa o professor e cientista político da FGV Eduardo Grin.

  • Metodologia da pesquisa citada: a AtlasIntel ouviu 2.200 pessoas entre os dias 24 e 29 de março. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos. O levantamento foi contratado pelo próprio instituto. O nível de confiança é de 95%. Registro no TSE nº SP-00899/2026.

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Os cinco eixos que estruturam a estratégia da oposição em São Paulo

Uma rápida compilação das publicações recentes de lideranças e perfis ligados à esquerda revela convergência em torno de cinco eixos principais, que formam o arcabouço narrativo da oposição para desgastar a imagem do governador de São Paulo até a votação nas urnas:

  • segurança pública e violência policial
  • políticas para mulheres
  • custo de vida, tarifas e privatizações
  • pedágios, free flow (pedágio sem cancela) e infraestrutura
  • educação e gestão dos serviços públicos.

O tema das mulheres aparece como um dos mais estratégicos. O foco no eleitorado feminino não é por acaso, já que esse grupo apresenta maior resistência à família Bolsonaro — e, eventualmente a políticos de seu grupo. Publicações de Haddad e aliados reforçam pautas de combate à violência contra a mulher, posicionando o PT como alternativa para esse segmento do eleitorado.

Para Eduardo Grin, a estratégia segue um padrão da política brasileira. “O movimento feminista da esquerda defende a igualdade de gênero, enquanto o movimento liderado por Bolsonaro tem mais dificuldade de dialogar com esse público. Por isso, esse tema ganha força, especialmente mirando o eleitorado feminino”, afirma.

Na segurança pública, a oposição atua em duas frentes: o crescimento dos casos de feminicídio e a letalidade policial. Publicações associam o governo de São Paulo ao aumento dos índices, enquanto mobilizações como caminhadas, atos e vigílias são incorporadas ao discurso como evidência de falhas na gestão.

Dados da Secretaria da Segurança Pública paulista apontam para uma tendência de alta nos crimes de feminicídio no início de 2026, na comparação com o ano anterior. No acumulado do primeiro bimestre, o estado passou de 42 para 56 ocorrências, um aumento de 14 casos, equivalente a cerca de 33%.

Em relação às mortes decorrentes de intervenção policial, desde o início da gestão de Tarcísio de Freitas, o total passou de 421 casos em 2022 para 504 em 2023 (+20%) e saltou para 813 em 2024 (+61%), mantendo-se elevado em 2025, com 805 ocorrências. Em contrapartida, a gestão Tarcísio baseou o embate com criminosos encampando a defesa de um combate mais incisivo ao crime organizado.

No campo econômico, a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) tornou-se o principal símbolo das críticas da esquerda às privatizações. Os reajustes tarifários, decorrentes do processo de desestatização concluído em 2024, são traduzidos pela oposição como uma decisão técnica que chega ao bolso do eleitor.

De forma semelhante, o modelo de pedágio free flow mobiliza insatisfação especialmente no interior, onde o uso diário das rodovias é mais intenso. Mesmo com as críticas enfatizadas pelo PT, Grin avalia que o favoritismo do governador permanece consistente em São Paulo.

“O Tarcísio é favorito por algumas razões: o governo não é mal avaliado, ele tem a máquina do estado e conta com apoio de prefeitos e vereadores, além de um eleitorado majoritariamente conservador e resistente ao PT”, diz.

O especialista também pondera sobre os limites da comunicação política. “O marketing é forte, mas não resolve tudo. Em algum momento, a população confronta o discurso com a realidade.”

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Disputa estadual tende a refletir polarização nacional

Outro elemento que ganha força é a tendência de nacionalização do debate. Postagens que contrapõem o governo Lula ao governo paulista, ou que enquadram a eleição como disputa entre projetos políticos opostos, indicam que a corrida estadual deve ser influenciada pelo cenário federal.

Esse movimento pode ampliar a visibilidade da disputa em São Paulo, mas também aumenta a dependência em relação ao desempenho do governo federal nos meses que antecedem a eleição. Para Grin, a intensificação das críticas segue uma lógica previsível. “Isso é do jogo político. À medida que as eleições se aproximam, os grupos tendem a intensificar as críticas para se diferenciar.”

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