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Ao serem perguntados em quem votariam para governador de São Paulo, apenas 0,1% dos eleitores paulistas lembraram de Paulo Serra, o ex-prefeito de Santo André, presidente da executiva estadual do PSDB e pré-candidato ao governo pelo partido.
O dado é do instituto Paraná Pesquisas divulgado em abril, em cenário espontâneo, que é quando os entrevistados respondem a uma pergunta aberta sobre a intenção de voto, sem nomes de pré-candidatos previamente fornecidos. O partido que governou o estado de São Paulo por 28 anos consecutivos praticamente desapareceu do imaginário do eleitor.
No último final de semana, Serra — que, apesar do sobrenome em comum, não tem parentesco com o ex-governador José Serra — reuniu 500 pessoas no Clube Juventus, na Mooca, levou Ciro Gomes para o palanque e declarou estar "à disposição para um projeto maior" em São Paulo. O PSDB não morreu — mas ainda não sabe exatamente o que é.
- Metodologia da pesquisa citada: O Paraná Pesquisas entrevistou 1,6 mil pessoas entre os dias 11 e 14 de abril. A margem de erro é de 2,5 pontos percentuais, para mais ou para menos. A pesquisa foi contratada pelo próprio instituto. O nível de confiança é de 95%. Registro no TSE nº SP-00378/2026.
Paulo Serra tenta confirmar candidatura em São Paulo
O evento do último sábado (25) tinha tudo de um lançamento, menos o anúncio. Serra discursou, recebeu aplausos, apresentou a esposa — deputada estadual Ana Carolina Serra (PSDB) — e prometeu definir seu caminho "até a primeira quinzena de maio".
Ciro Gomes, ex-governador do Ceará e ex-ministro da Fazenda recém-filiado ao PSDB, foi além e cravou o nome: "O Paulo deve ser o nosso candidato a governador, se assim ele puder, porque é um quadro pronto para qualquer tarefa." E prometeu fazer campanha por ele no estado.
A cautela de Serra tem lógica eleitoral. No cenário estimulado do Paraná Pesquisas — quando os nomes são apresentados para escolha do eleitor —, ele aparece com 4,6% das intenções de voto, enquanto o governador de São Paulo na busca pela reeleição, Tarcísio de Freitas (Republicanos), soma 47,8% e o ex-ministro da Fazenda de Lula (PT) e ex-prefeito da capital Fernando Haddad (PT) alcança 33,1%.
A rejeição de Serra, porém, é de 17,3% — quase 4 vezes maior que sua intenção de voto, uma das piores relações entre os candidatos testados no estado. Confirmar a pré-candidatura antes de construir mais nome pode significar entrar na corrida já queimado.
A aposta tucana é que o tempo até as eleições será suficiente para mudar esse quadro. É uma aposta alta para um partido que, na pesquisa espontânea, praticamente não existe na percepção de momento.
PSDB nega PT, articula com todos e não fecha com ninguém
Em março, após reportagem do Estadão sugerir conversas entre tucanos e petistas, a executiva estadual do PSDB divulgou posicionamento categórico de que não há "qualquer possibilidade de aproximação com o PT para as eleições de 2026". O texto citou o posicionamento de "centro, portanto, fora da polarização" e a candidatura própria de Serra como caminho definido.
Nos bastidores, a movimentação é mais ampla do que a nota pública sugere. Serra visitou Tarcísio de Freitas, conversou com Aécio Neves (PSDB), presidente nacional do partido, e também com o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab — ex-prefeito de São Paulo e articulador histórico com trânsito nos dois lados da polarização.
A ideia, de acordo com interlocutores do PSDB, é "manter a linha de centro" sem se comprometer com nenhum polo antes de a candidatura estar fechada. O problema é que essa estratégia funciona melhor como barganha do que como plataforma. Sem votos expressivos para oferecer, o PSDB negocia mais com o argumento do que pode custar — e não do que pode entregar.
Votos tucanos podem valer mais na conta alheia do que na própria
É aí que a candidatura de Serra ganha dimensão nacional. Os dados do Paraná Pesquisas revelam um detalhe que o próprio partido prefere não discutir abertamente: no cenário de segundo turno direto entre Tarcísio e Haddad, sem Serra nem o deputado federal e pré-candidato Kim Kataguiri (Missão), Tarcísio vai de 47,8% para 53,4% e Haddad de 33,1% para 37,3%.
Os votos que hoje estão com Serra migram proporcionalmente mais para o campo de Tarcísio do que para o PT — o que significa que uma candidatura tucana no primeiro turno pode apertar mais a vantagem do governador do que beneficiar Haddad.
São Paulo elege 70 deputados federais, dois senadores e é o maior colégio eleitoral do país na disputa presidencial. Um partido com 4% a 5% do eleitorado paulista — concentrado no centro e com rejeição distribuída — pode não eleger governador, mas pode condicionar quem perde.
Ciro presidenciável muda o tabuleiro nacional
A decisão de Ciro sobre a disputa à Presidência, prometida para maio, é o que transforma o PSDB de equação paulista para uma questão nacional. Levantamento da Quaest divulgado em abril mostra que 40% dos eleitores que declaram voto no pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL) e 35% dos que declaram voto no presidente Lula (PT) admitem mudar de opção até o dia da eleição.
Para dirigentes tucanos, Ciro Gomes — que tem histórico ligado à esquerda e aproximação recente com a direita — seria o nome capaz de capturar esse eleitorado ainda não fidelizado aos dois polos dominantes.
A hipótese, porém, ainda carece de pesquisas que confirmem o potencial de crescimento. É essa a tese que o PSDB vende internamente para justificar sua sobrevivência e é essa a tese que Ciro Gomes foi endossar em São Paulo nos últimos dias.
- Metodologia da pesquisa citada: A Quaest entrevistou 2.004 pessoas entre os dias 9 e 13 de abril. A pesquisa foi contratada pelo Banco Genial S.A. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos. O nível de confiança é de 95%. Registro no TSE nº BR-09285/2026.













