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Jogo do poder

STF x PF: o embate que vai pesar nesta eleição

STF PF
O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e o ministro André Mendonça: investigações contra Lulinha e Flávio colocam STF e PF no centro da disputa eleitoral. (Foto: EFE/Andre Borges / Gustavo Moreno/STF)

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O Supremo Tribunal Federal (STF) e a Polícia Federal podem se tornar personagens decisivos da eleição presidencial de 2026. Decisões judiciais, investigações e operações deflagradas têm potencial para produzir fatos capazes de alterar o equilíbrio na acirrada disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Em relação a Lula, o clima é de tensão institucional entre o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), e a Polícia Federal em torno das investigações que atingem Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Mendonça é o relator da Operação Sem Desconto, que apura fraudes bilionárias provocadas por descontos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS.

O ministro manifestou desconfiança em relação às diligências conduzidas pela Polícia Federal. A inquietação teve início em maio, com a troca do delegado responsável pelas operações. Ele foi substituído por um coordenador escolhido pelo diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, indicado para o cargo pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Veja os detalhes mais adiante.

As investigações chegaram a Lulinha, que passou a ser investigado por suspeita de tráfico de influência, a partir de elementos relacionados a pessoas e empresas que estão no foco da PF. Entre elas está a empresária Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha que é investigada no caso.

O episódio também atingiu Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-assessor e secretário pessoal de Lula, que deixou o cargo depois de admitir ter recebido um empréstimo de R$ 249 mil de Luchsinger.

Dark Horse e novas decisões sobre Jair Bolsonaro podem afetar Flávio

Já em relação a Flávio Bolsonaro (PL-RJ), um dos riscos apontados está no que mais pode vir a público sobre o filme Dark Horse, produzido para apresentar a trajetória de Jair Bolsonaro e sua candidatura à Presidência. Flávio, porém, afirma que não há mais nada relevante a ser revelado sobre o caso, classificado como um "financiamento privado". 

Outros fatores podem, contudo, produzir efeitos indiretos sobre a candidatura do senador. Flávio é investigado em inquéritos no STF, relatados pelo ministro Alexandre de Moraes. Um deles foi aberto em abril para apurar suspeita de calúnia e encaminhado à Polícia Federal para diligências. Em outro, também sob relatoria de Moraes, a PF conduz investigação criminal na qual Flávio figura como investigado.

Decisões envolvendo Jair Bolsonaro, principal cabo eleitoral do filho, também podem impactar a campanha. Em julho, Moraes proibiu Flávio de visitar o pai por 90 dias, período que abrange praticamente toda a campanha eleitoral. A restrição veio depois que o senador publicou nas redes sociais uma carta de Jair em apoio à sua candidatura. 

A decisão ainda restringiu a participação do ex-presidente em manifestações políticas e eleitorais. Nesse sentido, Moraes determinou que Bolsonaro explicasse se havia autorizado um vídeo produzido com inteligência artificial e exibido no lançamento da candidatura do filho, no final de julho. 

O ministro apontou a possibilidade de enquadrar o episódio por abuso de poder político e econômico, cujas sanções na Justiça Eleitoral podem chegar à cassação do registro ou diploma e à inelegibilidade de Flávio. Novas tentativas de inserir Bolsonaro na campanha podem ser interpretadas pela Justiça como violação das medidas impostas ao ex-presidente.

"Operação da PF pode decidir eleição", diz analista

Creomar de Souza, CEO da Dharma Political Risk and Strategy, afirma que, nesse cenário, a politização dos entendimentos sobre as investigações da PF e os questionamentos ao Supremo provocam uma “degradação geral nos marcadores de confiança no jogo institucional”.

"O ambiente polarizado joga pressão sobre o diretor da Polícia Federal, de um lado, que vai ter o tempo todo que se explicar", disse. "E também sobre o ministro Alexandre de Moraes, em um momento em que o STF também é muitíssimo questionado”, avalia. 

O potencial de impacto não pode ser subestimado, segundo ele. “Uma operação da Polícia Federal na véspera da eleição pode decidir o pleito”, pontua. “Agora a gente não sabe qual vai ser a operação e para que lado a eleição vai ser puxada.”

A constitucionalista Vera Chemim afirma que o ambiente institucional que envolve STF e Polícia Federal ganhou contornos de uma disputa de “tudo ou nada” pelo poder, que deverá se prolongar até o período eleitoral.

A advogada também avalia que parte da Corte estaria reagindo ao temor de uma mudança na correlação de forças com o Legislativo. Segundo ela, a reação estaria relacionada à formação de uma possível maioria de direita no Senado — única instituição com poder para votar o impeachment de ministros da Suprema Corte. 

Caso Lulinha aumenta a pressão sobre o Planalto

Como mostrou a Gazeta do Povo, Fábio Luís Lula da Silva é alvo de três inquéritos simultâneos no STF. A abertura do terceiro, autorizada pelo ministro Flávio Dino no início de agosto, foi apontada por integrantes do governo como um dos fatores para o avanço de Flávio Bolsonaro na pesquisa Genial/Quaest realizada logo após o anúncio.

Lula aparece com 39% das intenções de voto no primeiro turno, contra 30% de Flávio — a vantagem caiu de 12 para 9 pontos em relação à rodada anterior. No segundo turno, Lula passou de 45% para 44%, enquanto Flávio avançou de 37% para 39%, reduzindo a diferença de oito para cinco pontos. 

O levantamento ouviu 2.004 eleitores presencialmente, entre 31 de julho e 3 de agosto, em todo o país, com margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%. A pesquisa está registrada no TSE sob o número BR-06591/2026.

Diante disso, o monitoramento do tema se intensificou no Planalto. O desgaste provocado pelo caso também contribuiu para que o ministro da Secom, Sidônio Palmeira, fosse afastado recentemente da campanha eleitoral de Lula.

Do lado da oposição, as críticas à condução das investigações aumentaram. A ofensiva já havia ganhado corpo desde o encerramento da CPMI do INSS, em março, quando o relatório do deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) foi rejeitado por 19 votos a 12. Candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro, Gaspar foi o relator da CPMI e havia pedido o indiciamento de Lulinha.

Troca de delegado acirrou o conflito

Mendonça, por sua vez, tem manifestado desconforto desde maio. Naquele momento, sob o comando de Andrei Rodrigues, a cúpula da PF retirou da coordenação do caso o delegado Guilherme Figueiredo Silva. Ele havia feito a representação pela quebra dos sigilos de Lulinha.

A investigação foi transferida da área de Crimes Previdenciários para a Coordenação de Inquéritos nos Tribunais Superiores (Cinq), sob a justificativa de que a nova estrutura teria mais recursos para lidar com casos que tramitam no STF.

Mendonça soube da alteração por meio de um advogado ligado ao caso e cobrou explicações de Andrei Rodrigues. Em ofício, a direção da PF classificou a mudança como uma questão “burocrática” e negou qualquer interferência na investigação. O ministro determinou então que a corporação esclarecesse a alteração e apresentasse informações sobre o andamento das diligências.

O deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) também apresentou um requerimento à Câmara, no qual questionou se a substituição havia provocado interrupção ou prejuízo ao cronograma de diligências e se a nova equipe havia mantido integralmente o planejamento investigativo anterior.

A PF sustentou que a transferência representava um reforço da estrutura investigativa. Em julho, porém, Mendonça determinou que a corporação lhe comunicasse previamente qualquer mudança na equipe responsável pelos inquéritos e informasse diretamente ao seu gabinete o andamento das apurações.

O conflito levou a corporação a recorrer à Advocacia-Geral da União para questionar os limites da atuação de Mendonça na condução de uma investigação de competência técnica da PF. Em 6 de agosto, os 27 superintendentes regionais da corporação divulgaram uma manifestação conjunta em defesa da independência técnica das investigações, da autonomia administrativa da PF e da direção de Andrei Rodrigues.

Sem citar Mendonça, a nota afirmou que a Polícia Federal é uma “instituição de Estado” e que sua atividade investigativa não se submete a interesses políticos, ideológicos ou pessoais.

Na mais recente movimentação, Mendonça estabeleceu um prazo para que a Polícia Federal esclarecesse a condução dos inquéritos e apresentasse informações sobre o andamento das diligências.

STF e PF devem ter "ponderação", diz jurista

O constitucionalista Leandro Gabiatti, diretor da Dominium Consultoria, vê o conflito entre Mendonça e a Polícia Federal como mais um “atrito institucional” na fronteira entre as competências dos Poderes. Para ele, questões políticas e eleitorais têm convergido cada vez mais para o Supremo, aumentando a exposição da Corte e o peso potencial de suas decisões.

“Todos os conflitos políticos acabam convergindo para o lado do Supremo”, afirma. Embora não acredite que o STF pretenda determinar o resultado da eleição, admite que decisões tomadas durante o processo eleitoral podem produzir esse efeito. “Algumas decisões que o Supremo pode tomar eventualmente podem ter impacto nas urnas e não tem como evitar isso”, disse.

Para o advogado, o Supremo deve agir com ponderação: “o STF não pode parar, mas também não deve tomar decisões drásticas em plena campanha eleitoral", disse. Sobre Mendonça, faz uma ressalva: “não acredito que o ministro André Mendonça queira entrar para a história como alguém que interferiu no processo eleitoral”.

Chemim, por sua vez, interpreta as cobranças de Mendonça como uma reação às pressões que ele vem sofrendo. Segundo ela, o ministro está cumprindo seu papel e “resistindo bravamente” às pressões. Além de tentar garantir o andamento das investigações, ainda cobra informações sobre os resultados da Polícia Federal.

Desconfiança institucional é generalizada, aponta analista

Para Creomar de Souza, da Dharma, a desconfiança se tornou generalizada na população. De um lado, o diretor da Polícia Federal, que investiga Lulinha, foi indicado pelo presidente. Por outro, Mendonça foi indicado pelo principal adversário político de Lula e é relator do caso no Supremo. Essa combinação, segundo ele, produz “uma degradação geral nos marcadores de confiança no jogo institucional, que deveria estar blindado”.

Embora considere o caso Lulinha especialmente sensível para o Planalto, Creomar afirma que a polarização leva os eleitores a relativizar as ações dos candidatos de sua preferência, o que chama de “degradação da razoabilidade” no debate público. “Tudo aquilo que o candidato que eu gosto faz é correto... E tudo aquilo que o candidato que eu não gosto faz tem que ser passível de punição e cadeia”, explica.

Assim, o efeito político do embate, segundo Creomar, dependerá não apenas do conteúdo das investigações, mas também da percepção do eleitor sobre a ação das instituições. Segundo ele, ao reduzir a confiança das pessoas no STF, na PF, no governo e no Congresso, “a sociedade perde como um todo". 

Gabiatti, por sua vez, relativiza a ameaça institucional. Em relação à PF, reconhece que há mecanismos de influência pontual, mas que são limitados pela estrutura da corporação. "A PF tem agentes que zelam pela autonomia e quadros técnicos que impediriam influência ou direcionamento de investigações", avalia. “O governo - e não somente esse governo - não tem poder para controlar os rumos de uma investigação da Polícia Federal”, pontua.

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