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Familiares, financiadores e aliados sem trajetória política expressiva podem acabar ocupando um dos cargos mais influentes da República após as eleições deste ano. A duas semanas da votação, candidaturas competitivas ao Senado levam para as urnas suplentes com pouca ou nenhuma experiência política relevante. Caso os titulares deixem o mandato, esses nomes poderão assumir uma das 81 cadeiras da Casa e passar a exercer atribuições como a aprovação de ministros do STF e a análise de pedidos de impeachment de autoridades.
Os exemplos de suplentes incluem perfis bastante distintos. No Distrito Federal, Diego Torres, primeiro suplente de Michelle Bolsonaro (PL-DF), é irmão da ex-primeira-dama e não possui experiência política conhecida. Situação semelhante ocorre com Samuel Kicis, filho da deputada federal Bia Kicis (PL-DF) e escolhido como primeiro suplente da chapa. Já Giulia Tadini, primeira suplente de Erika Kokay (PT-DF), presidiu apenas o PSOL-DF, mas nunca exerceu mandato eletivo.
Esse contexto não se restringe ao Distrito Federal. A Gazeta do Povo mostrou quem são os suplentes de Marina Silva (Rede-SP) e Simone Tebet (PSB-SP). No caso de Tebet, o primeiro suplente é Laio Correia Morais (PT-SP), ex-chefe de gabinete do ministro Fernando Haddad. Sua aproximação com o ex-ministro ocorreu por meio da militância estudantil e da relação com Frederico Haddad, filho mais velho do titular da Fazenda. Já a primeira suplência de Marina Silva ficou com Djalma Nery (PSOL-SP), cuja experiência eleitoral se resume a dois mandatos como vereador em São Carlos, no interior paulista.
Embora raramente recebam atenção durante a campanha, os suplentes têm papel fundamental na composição do Senado. Cada candidato é eleito em chapa com dois substitutos, que podem assumir a vaga em caso de licença, renúncia, morte ou nomeação do titular para outro cargo. A questão ganha importância em um momento em que o Senado é visto como peça-chave para decisões que vão da aprovação de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) à análise de pedidos de impeachment de autoridades.
O espaço reservado aos suplentes também costuma servir para acomodar aliados políticos, empresários e nomes sem trajetória eleitoral. Alexandre Curi (Republicanos-PR), nome competitivo do Paraná, tem como primeiro suplente Dudu Potencial (Republicanos-PR). Potencial é empresário e participa pela primeira vez de uma disputa eleitoral. Cientistas políticos apontam que as vagas de suplência são frequentemente destinadas a financiadores de campanha, aliados políticos ou nomes contemplados em acordos partidários.
No Norte do país, Randolfe Rodrigues (PT-AP) disputa a reeleição ao Senado tendo como primeiro suplente Gabriel Andrade, cuja trajetória política está restrita à Câmara Municipal de Macapá. A segunda suplente da chapa é Jessyca Mais Saúde, que disputa pela primeira vez um cargo eletivo.
Para o cientista político e mestre em Poder Legislativo Felipe Rodrigues, casos como esse ajudam a dimensionar a importância da suplência. “O momento atual torna isso mais relevante ainda. Quando o Senado é disputado como árbitro institucional, porque é a Casa que pode barrar indicações ao STF, instaurar processos contra ministros da Corte e dar quórum a uma PEC, a diferença entre um titular e um suplente pode mudar as perspectivas de uma votação”, afirma.
Na avaliação do especialista, o debate costuma ser negligenciado durante as campanhas eleitorais, apesar de envolver um dos cargos mais influentes da República. “Mas o cargo de senador não pode ser uma espécie de prêmio de consolação para quem se empenhou na campanha ou para alguém próximo. É como se o eleitor assinasse um contrato de oito anos com três pessoas, que precisa de uma consideração atenta”, diz.
Dino ficou 20 dias no Senado e suplente permanecerá até 2031
Casos recentes mostram que esse cenário ocorre com mais frequência do que parece. Em 2021, pouco mais de dois anos após tomar posse, o senador Major Olímpio (PSL-SP) morreu em decorrência da Covid-19. A cadeira foi assumida pelo primeiro suplente, Alexandre Luiz Giordano, empresário paulista que nunca havia exercido um mandato eletivo.
Na prática, a vaga de um senador pode ser aberta por razões muito mais comuns do que a morte do titular. Segundo registros do Senado Federal, Flávio Dino (MA), eleito para um mandato de oito anos, permaneceu por apenas 20 dias na cadeira antes de assumir o Ministério da Justiça e Segurança Pública no início do governo Lula. Posteriormente, renunciou em definitivo ao mandato para tomar posse como ministro do STF.
No lugar de Dino, assumiu a suplente Ana Paula Lobato, que deverá permanecer no cargo até 2031. Antes de chegar ao Senado, sua principal experiência política havia sido a vice-prefeitura de Pinheiro (MA), município com menos de 90 mil habitantes, segundo estimativa do IBGE.
Para o doutor em Ciência Política Ricardo João de Braga, a escolha dos suplentes nem sempre é orientada pela experiência política ou pela capacidade técnica. “Alguns partidos constroem candidaturas juntando forças entre partidos diferentes ou movimentos intrapartidários diferentes. Contudo, outros partidos, e são maioria, funcionam sob lógica diversa, patrimonial: a ideia de que o cargo é uma propriedade do eleito e, assim, o melhor a fazer é mantê-lo dentro da família”, afirma.
Para Braga, a preocupação é proporcional ao poder do cargo. Um suplente pode sair do anonimato político para ocupar uma cadeira no Senado e participar de decisões que afetam todo o país. “Pessoas sem experiência ou com experiência limitada serão certamente caudatárias de ordens e movimentos sobre os quais pouco terão independência e, provavelmente, pouca compreensão também”, conclui.






