O presidente dos EUA, Donald Trump, revogou a ordem executiva de seu antecessor, Joe Biden, sobre políticas de carros elétricos – que incluem subsídios, regulamentações de emissões e imposição de tarifas sobre importações. A meta do governo passado estipulava que até 2030 metade dos carros vendidos nos Estados Unidos fossem elétricos.
A revogação faz parte de um esforço de Trump para incentivar automóveis movidos a gasolina e tirar os benefícios voltados para a eletrificação automobilística. O governo Biden concedeu incentivos tanto para a indústria quanto para motoristas.
Ainda não estão claras quais serão as mudanças que Trump vai implementar, mas acredita-se que uma delas é tentar acabar com o subsídio de US$ 7,5 mil para quem compra novos carros.
O republicano deixou claro seu interesse em fomentar o setor petrolífero no país e desacelerar projetos de energias renováveis. Tanto que, além da revogação da política de carros elétricos, Trump suspendeu temporariamente a emissão de licenças para projetos de energia eólica e tirou os EUA do Acordo de Paris, um tratado com mais de 200 países para reduzir os efeitos das mudanças climáticas.
Para o presidente norte-americano, os carros elétricos não devem ter incentivos e todos os automóveis devem concorrer igualmente, cabendo a escolha ao consumidor. Em seu discurso de posse na semana passada, Trump prometeu aumentar a produção de carros nos EUA para “uma taxa que ninguém poderia ter sonhado ser possível há apenas alguns anos”.
A decisão deve afetar toda a indústria. A estimativa é uma redução de venda de mais de 300 mil veículos com o fim dos subsídios, de acordo com um estudo de várias universidades norte-americanas, segundo o New York Times.
Segundo disse Rico Luman, economista do banco de investimento ING, ao jornal britânico The Guardian, montadoras já mudaram seu cronograma e estão adiando programas de escalonamento para eletrificação de seus veículos.
Por outro lado, analistas acreditam que o próprio progresso tecnológico acabará impulsionando a transição para veículos elétricos no longo prazo, ainda mais com a evolução das baterias, que se tornam cada vez mais leves e baratas.
Para Musk, Tesla é mais forte que concorrentes e pode suportar fim de incentivo ao carro elétrico
Sócio da Tesla – uma das maiores fabricantes de carros elétricos do mundo – e agora também chefe do Departamento de Eficiência Governamental (Doge) do governo Trump, Elon Musk não se opôs à decisão presidencial de retirar o apoio aos elétricos. Isso porque algumas das decisões de Trump podem indiretamente beneficiar a Tesla ao prejudicarem concorrentes dela.
Mudanças na regulação e tarifas de importação podem desincentivar as compras de carros elétricos fabricados em outros países por concorrentes da Tesla – embora ela também possa ser afetada, pois, além de produzir nos EUA, ela também tem fábricas em Berlim (Alemanha) e Xangai (China).
“Ao mesmo tempo, os concorrentes dos EUA provavelmente desacelerarão sua mudança para o elétrico, deixando o mercado de veículos elétricos da América livre para a Tesla”, apontou texto do The Guardian.
O bilionário também passou essa mensagem aos acionistas que estavam preocupados com a decisão do novo presidente. Disse que a medida não vai parar o crescimento dos carros elétricos porque o “sucesso dessa tecnologia é inevitável”.
Segundo o jornal The Telegraph, Musk informou aos acionistas que o fim dos subsídios ajudará a Tesla por dois motivos. O primeiro é que considera a empresa mais forte que as concorrentes, podendo suportar a falta de apoio oficial; e seu foco está na tecnologia de direção autônoma.
Cenário pode ajudar Brasil a receber mais investimento chinês
Ricardo Bastos, presidente da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), diz que as medidas anunciadas por Trump já eram esperadas e que terão impacto porque o mercado americano é muito relevante. Mas avalia que ainda é cedo para saber a magnitude desse impacto, uma vez que ainda não está claro quais mudanças os EUA farão exatamente.
A suspensão de incentivos nos EUA pode até reverberar negativamente no Brasil, diz. Contudo, sua avaliação é de que o país tem mais a ganhar nesse contexto, uma vez que o mercado brasileiro é um grande polo de atração de investimentos chineses.
“Esse cenário também oferece uma oportunidade muito grande para o Brasil, de receber ainda mais investimentos vindos da China, que é o grande oponente da gestão Trump”, avalia Bastos.
“Nossa expectativa é de que esses investimentos possam até aumentar, se olharmos o horizonte de longo prazo, pois a tendência é a eletrificação continuar crescendo e se expandindo no mundo todo. E mais ainda no Brasil, com a velocidade que vimos em 2024”, acrescenta.
No Brasil, os veículos elétricos bateram recorde de venda no ano passado, com 177.538 emplacamentos. O montante é 89% maior do que o registrado em 2023, segundo a ABVE.
Entre os motivos que impulsionaram o crescimento estão a aceitação do consumidor ao modelo e a amplificação da rede de infraestrutura de recarga em 2024. A estimativa o país encerrou o ano com mais de 12 mil pontos de recarga públicos e semipúblicos, com destaque para expansão no interior.
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