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Paranaense

A magia do Atletiba transformada em arte de rua

A convite da Gazeta do Povo, dupla de grafiteiros estampa o clássico em um muro da capital

Felipe Kees e Michael Davis levaram quatro horas para fazer o grafite sobre o clássico: desenho misturou videogame, rivalidade e os campinhos de terra da periferia. | Aniele Nascimento/Gazeta do Povo
Felipe Kees e Michael Davis levaram quatro horas para fazer o grafite sobre o clássico: desenho misturou videogame, rivalidade e os campinhos de terra da periferia. (Foto: Aniele Nascimento/Gazeta do Povo)

Um novo retrato do Atletiba. As cores, os traços marcantes como os lances do clássico traduzidos pela arte das ruas. A convite da Gazeta do Povo, dois grafiteiros, ou oficialmente escritores de grafite, deram forma ao tradicional duelo paranaense.

Tema praticamente desprezado pelos sprays, a possibilidade inédita de mostrar o futebol instigou os artistas Michael Davis e Felipe Kees. O primeiro, por ser torcedor do Coritiba, o outro, pela possibilidade de imprimir no muro a emoção e o movimento do esporte.

"Nunca teríamos escolhido fazer um desenho como esse", confessa Kees, tatuador e com 8 anos de experiência no grafite, do italiano graffiti, marca ou inscrição feita em um muro ainda no Império Romano.

Já classificado como pichação, o grafite duela com rótulos. "Comum passarem xingando a gente, chamando de vagabundo, sermos abordados pela polícia", conta Devis, que compara o preconceito ao sofrido por torcidas organizadas: "Nem todos são ruins, baderneiros".

Há 11 anos com as latas de tinta na mão e recém-chegado do Japão, ele grafitou em vários países, atendeu empresas como Nike, Toyota e Panasonic e chegou a ser contratado pela Organização das Nações Unidas (ONU) para pintar um viaduto sobre biodiversidade no Largo da Ordem. Em janeiro, a dupla, ao lado de Wagner Now, fez um painel na Travessa da Lapa.

Entre os moradores da periferia, onde o grafite surge em várias esquinas, a técnica é bem vista. Enquanto imprimiam no cimento detalhes de Atlético e Coritiba, Devis e Kees foram convidados para três trabalhos e ainda tiveram um espaço oferecido para um novo desenho por uma moradora vizinha.

"Acho muito bonito. Já pintaram uma vez e agora fizeram um belo desenho, é uma arte", definiu o motorista de ônibus Aparecido Carlos Nogueira Filho, de 58 anos, que emprestou o muro da sua casa na Avenida dos Pioneiros, Alto Boqueirão, para os escritores.

"Essa é a minha área, aqui somos reconhecidos e temos respeito. Muitos começam a pintar por causa disso, para não serem mais um nas estatísticas, para mostrar que são alguém", explica Kees.

Fazer um rolê, como eles denominam a confecção de um desenho, os aproxima da realidade de regiões carentes da cidade. "Trabalhar na rua tem o lado bom e ruim. Temos a inspiração, mas também vemos coisas tristes, como crianças nas ruas, drogas, problemas sociais", comenta Devis. "Mas é a melhor faculdade de todas, a faculdade da rua", completa Kees.

Na representação do Atletiba, eles misturaram um pouco da imagem de videogame para retratar a arquibancada, mostraram detalhes de um estádio e ainda um pouco dos campinhos de terra da periferia onde os torcedores boleiros sempre revivem a rivalidade de seus times.

Ao som de muito rap no mp3 player, mas com direito até a Édith Piaf, eles levaram quatro horas para finalizar o grafite. Vinte cores, vinte dois tubos de tinta (contando o total do material) e sete técnicas diferentes (pincel, cuspida, recorte, plastiquinho, fat cap, sombreamento e rabisco) depois, o Atletiba ganhou novo cenário e expressão.

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