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Curitiba Silverhawks e a quebra de barreira no esporte | Marcelo Andrade/Gazeta do Povo
Curitiba Silverhawks e a quebra de barreira no esporte| Foto: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo

“Mochila não senta”, alertou uma voz suave, em tom intimidador, enquanto cerca de 40 mulheres equipadas com capacetes prateados e ombreiras de R$ 450 entravam no apertado vestiário do campo anexo ao Estádio Pinheirão, no bairro Tarumã.

“Senta no chão, a calça é cinza. Não vai parecer suja”, acrescentou imediatamente uma segunda voz de comando.

Em questão de segundos, todos os bancos estavam ocupados, assim como o piso de cimento. O burburinho, então, deu lugar ao silêncio. Dali a 15 minutos, o Curitiba Silverhawks entraria em campo para sua primeira partida oficial.

Criada no início de 2017, a primeira equipe feminina de futebol americano do Sul do país contrastava apreensão com genuína felicidade na tarde ensolarada de 22 de julho. O jogo contra o Brasília Pilots, na estreia do Campeonato Brasileiro, extrapolava os limites do esporte. Era um sonho que se materializava. Mero clichê para qualquer observador desavisado, mas uma conquista sem preço para quem vivenciou a caminhada jarda por jarda.

R$ 2 mil

É o valor que o Silverhawks recebeu de seu único patrocinador até aqui, a loja Cesar Leite Automóveis.

As últimas instruções da linebacker Amanda Ramos, 24 anos, líder da defesa e vice-presidente do time, porém, trouxeram o foco de volta à realidade.

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“A gente tem tudo para interceptar bolas, tudo para colocar a bunda daquela QB [quarterback] no chão, entendido? Vamos jogar esse jogo até o fim”, exigiu.

Em seguida, a faz-tudo do Silverhawks, Ester Biss de Alencar, 20, cobrou a execução certeira de tudo o que foi ensaiado por meses em três treinos semanais no Parque Barigui.

A rápida preleção, é claro, também teve sua dose motivacional. Determinação, luta e companheirismo foram as palavras-chave escolhidas – e ditas com uma naturalidade impressionante – pela presidente, técnica principal e quarterback. No fim das contas, todas sabiam que o maior objetivo já tinha sido alcançado.

“Esse jogo é mais do que um resultado, é mais do que mostrar para elas que somos melhores ou algo assim. Entrar em campo tem de ser emocionante pra vocês. É pra se divertir, não é para ser algo pesado. Façam o que vocês estão prontas para fazer. Se sintam prontas”, disse a garota.

O primeiro ritual de vestiário da história do Silverhawks continuou com uma oração. Mãos nos ombros das colegas, respiração funda. Não houve pedido por vitória, somente por proteção. Amém.

“Vamos gritar agora. Bate no shoulder da companheira. Silveeer”, berrou Ester. “Haaawks”, respondeu, mais alto, a orgulhosa mulherada do futebol americano.

Família Silverhawks

O futebol americano é um esporte heterogêneo. Pessoas de qualquer porte físico podem jogar. Alto, magro, baixo, gordo. Todo biótipo se adapta a uma determinada posição. E o Silverhawks mostra que as mulheres não são exceção à regra.

24 horas

Foi o tempo de viagem que o Brasília Pilots passou dentro de um ônibus para estrear em Curitiba. “O esporte faz você romper qualquer quilometragem”, diz a presidente do time, Kika Carvalho.

“Eu fazia futsal e handebol, mas nunca consegui me encaixar. Talvez pelo porte físico, por que não dão muito espaço para as pessoas mais cheinhas, né?”, conta a estudante de publicidade e propaganda Aline Sapula, 28, recrutada pela equipe em janeiro no tryout, a peneira selecionar novas atletas.

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A bola oval, aliás, ajudou a guard/tackle a superar um momento complicado emocionalmente. “Entrei para o futebol americano e sai da depressão. Vi que era a paixão da minha vida”, atesta.

Depoimentos assim são comuns no meio de tantas mulheres que se encantaram com um esporte que é taxado como masculino e excessivamente violento. A mais experiente do grupo, por exemplo, define a paixão como uma rota de fuga.

“Podia estar numa clínica psiquiátrica, tenho toda propensão”, admite a educadora física Marcia Biss de Alencar, 50, que entrou para o time acompanhando a filha Ester.

Hoje, o significado é bem maior. “Foi onde encontrei equilíbrio. Tenho a rotina diária de mãe, esposa, de cidadã em um mundo conturbado. Aqui encontro um centro. Aprendo muito com todas elas”, comemora a right tackle.

Apesar de lesionada e sem condição de jogar, a wide receiver Luana Marques, 24, estava fardada da cabeça aos pés na sideline, local onde se concentram as jogadoras que não estão em campo. Sua tarefa era incentivar as companheiras, além de oferecer requisitados copinhos de água. Seis meses atrás, ela não conhecia nenhuma delas.

Estudante de 20 anos é exemplo de liderança e persistência no futebol americano

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“Aqui são 40 meninas se ajudando, se levantando sempre. É uma família bem grande. Espero que cresça mais”, sonha a designer.

Realização

A entrada triunfal no gramado, com direito a bandeirão tremulando e trilha sonora do ACDC (Thunderstruck), tinha ficado para trás há pouco menos de uma hora e meia.

Atordoadas pelo placar adverso de 22 a 0 ainda no intervalo, as jogadoras do Curitiba Silverhawks dividiram-se entre ataque e defesa e tomaram os degraus de uma velha escadaria de acesso ao Pinheirão para descansar sob a sombra.

16 de setembro

Data do próximo jogo da equipe curitibana, que busca apoio para arrecadar dinheiro para bancar a viagem para Sinop-MT, onde disputa a classificação para a semifinal contra o Coyotes.

A exaustão era visível. Enquanto tomavam água de coco e comiam barrinhas de cereal, vociferavam contra a arbitragem, que teria deixado de marcar algumas faltas. Pela primeira vez, com exceção de Ester, o time paranaense entendia como era competir de verdade.

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“Preciso de joelhos novos. Estão doendo o antebraço, os punhos, o estômago, as pernas... Mas é futebol americano, né?”, resumiu a raçuda defensive end Roberta Bizinelli, 35, com os joelhos esfolados à mostra.

A principal pressão sobre a equipe, contudo, era claramente mental. Diante cerca de 700 pessoas, a maioria amigos e familiares que pagaram R$ 20 pelo ingresso, elas travaram nos dois primeiros quartos.

“Vocês estão passeando em campo”, disse, enérgico, o técnico de ataque Adan Rodriguez. “O nervosismo já passou, vamos lá. Tem o segundo tempo inteiro”, completou o wide receiver do Coritiba Crocodiles e da seleção brasileira.

Assim como a maioria dos membros da comissão técnica, Rodriguez é um representante da comunidade do futebol americano local que abraçou a causa do Silverhawks. Gustavo Rios, linebacker do Paraná HP, comanda a defesa. Seu companheiro de equipe, o cornerback americano Dominique Cendenning, também auxilia nos treinos.

“O que me impressiona é que as meninas querem aprender o jogo, ter a experiência completa sobre o jogo. Eu adoro isso”, conta Dom, surpreso por ver mulheres jogando futebol americano no Brasil.

Nem na terra da bola oval é comum vê-las em campo com equipamento completo. A modalidade mais praticada é o flag, que funciona com contato limitado.

“É louco [ver isso no Brasil]. O futebol americano avançou muito aqui”, ressalta.

Depois de um primeiro tempo fora do script, o panorama tinha que mudar para o restante do duelo. E mudou.

Falcão Prateado

O nome Silverhawks é inspirado no ônibus da linha Inter 2, chamada carinhosamente de ‘Falcão Prateado’.

Como prometido, elas jogariam até o fim. A defesa se impôs diante das brasilienses e a festa foi grande quando Ester marcou os primeiros seis pontos da equipe em um improvisado touchdown corrido.

Marcelo

Mas assim que a líder se machucou feio, desânimo e apreensão tomaram conta do Complexo Esportivo Brown Spiders. Contra o relógio e sem a principal jogadora, uma virada seria improvável.

“Não posso voltar mesmo? ”, questionava a camisa 12, enquanto era atendida por uma fisioterapeuta. Ela não conseguia mais fechar a mão direita, resultado de uma lesão no ligamento do polegar.

Pouco antes, a estudante Camila Malafaia, 18, também não resistiu à uma trombada. Aos prantos, a linebacker foi carregada para o banco de reservas pela segunda vez sentindo o ombro. Dor mais do que somente física.

“Apesar do placar, todo mundo está dando seu melhor. Isso que motiva a gente. Quando as meninas se machucam todo mundo se preocupa. E é por isso que estou sofrendo tanto”, explicou Camila, que largou o rugby para jogar futebol americano.

Assim que o cronômetro zerou, apesar da derrota (22 a 6), o sentimento não era de tristeza. Era de realização. Nove anos depois da primeira partida da história do esporte no país, realizada em Curitiba, o Silverhawks também quebrava barreiras e inaugurava uma nova era.

“Foi em outubro de 2008. Eu tinha 11 anos e estava lá para ver Crocodiles contra Brown Spiders. Tudo se repetiu agora, só que de outro ângulo. Muito melhor, inclusive”, emociona-se Esterzinha.

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