
Quase vinte anos depois de Rorion Gracie criar o Ultimate Fighting Championship (UFC), em 1993, e de seu irmão, Royce Gracie, vencer onze lutas consecutivas no torneio para provar a superioridade do esporte criado por seus antepassados, o jiu-jítsu brasileiro (BJJ) segue como unanimidade nos ringues de artes marciais mistas (MMA).
Embora a "arte suave" perca do muay thai e do boxe, por exemplo, na comparação da quantidade de nocautes em relação às finalizações, é impensável ter sucesso no octógono sem uma base no esporte.
Em média, de cada dez lutas dentro do octógono, três acabam em desistência o grande objetivo do BJJ. Chaves, imobilizações, estrangulamentos, raspagens e passagens de guarda são técnicas conhecidas de todos os sete campeões do torneio, desde os faixas-preta Anderson Silva, José Aldo e Georges St.Pierre até o americano Jon Jones, que ainda é considerado um faixa branca, mas até já defendeu seu cinturão aplicando uma guilhotina no paraense Lyoto Machida.
Por isso, o esporte-origem do vale-tudo continua essencial. "O jiu-jítsu é uma arma muito importante no ringue. Quem não a tem, não consegue durar muito lá dentro", explica o curitibano Maurício Shogun Rua, ex-campeão dos meio-pesados do UFC.
"Por causa da constante evolução do MMA, é importante saber de tudo um pouco. Mas, principalmente contra wrestlers (praticantes de luta olímpica), o BJJ é uma carta na manga para sair de uma posição desfavorável", acrescenta.
Especialista em muay thai, Shogun recebeu a terceira maior graduação do jiu-jítsu das mãos do lutador carioca Cristiano Marcello, 34 anos, também responsável pelas faixas-pretas de outros grandes lutadores como Wanderlei Silva e Murilo Ninja. Radicado em Curitiba há dez anos, Marcello é um ferrenho defensor do esporte e um dos primeiros a fazer a transição para o jiu-jítsu aplicado especificamente para os octógonos de MMA.
"Meu estilo é diferente. Se você perguntar para um atleta meu sobre as pontuações do BJJ, ele não vai saber falar porque sempre viso passar a finalização. Como um striker [lutador em pé] tem de buscar nocaute, essa é a essência do jiu-jítsu", explica Marcello, faixa-preta formado por Royler e Rickson Gracie.
Quando chegou a Curitiba considerada a cidade-berço do muay thai no Brasil para ensinar na academia Chute Boxe, o carioca sentiu resistência de ambos os lados. Dos Gracie, que não aceitavam o treinamento de outra técnica, e também de quem praticava o esporte nascido na Tailândia, que torciam o pescoço para a possibilidade de um lutador pequeno derrotar um oponente muito maior sem muito esforço.
"Socar e chutar qualquer um pode. Mas existe uma grande diferença no chão. Você pode ter um cara de 60 kg pegando um de 100 kg. Essa é a grande diferença. Se você não souber o BJJ não pode pensar em praticar MMA", banca o lutador, que desde 2009 comanda a própria academia, a premiada CM System.
O mestre Fábio Assolari, da academia Combate Absoluto, compartilha da mesma opinião. Para ele, que trabalha com o esporte desde 1992, a eficiência é o grande trunfo do BJJ.
"Se um lutador não conhece o jiu-jítsu, vai ter grande dificuldade. Toda luta começa em pé, mas acaba no solo. E se um kickboxer ou praticante de muay thai não souber se virar no chão, vai ter dificuldade para voltar a ficar de pé", avalia Assolari. "E é com as costas no chão que se descobre quem realmente é bom", fecha Marcello.
Confira no slideshow alguns golpes do jiu-jitsu:




