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 | Pedro Serápio/Gazeta do Povo
| Foto: Pedro Serápio/Gazeta do Povo

Entrevista com Aurival Correia, presidente do Paraná.

A última entrevista de Aurival Correia como presidente do Paraná para a Gazeta do Povo foi o que se pode chamar de uma verdadeira "saga". Começou na terça-feira à tarde, com a ideia de se fazer um balanço da gestão prestes a terminar comunicada à assessoria de imprensa do clube. Foi terminar apenas na sexta-feira à noite, com uma surpreendente volta às origens.

Durante esse tempo, o futuro vice-financeiro de Aquilino Romani (eleito na semana passada e que tomará posse na metade de dezembro) concordou com a proposta, marcou um dia, mudou para outro, confirmou, cancelou e, de repente, "sumiu".

Sumiço (leia-se telefone celular inacessível) que obrigou o repórter a apelar para uma alternativa derradeira: espreitar o presidente no estacionamento da Vila Capanema, antes da partida com a Campinense.

O que a reportagem não contava era ver sua aposta final falhar miseravelmente. Correia costuma chegar cedo aos jogos do Tricolor. Porém, meia-hora para o jogo começar e nada. Momentos de aflição a cada carro que apontava na entrada da Rua Engenheiro Rebouças.

Quando o relógio digital no topo do Edifício Itália marcou 21 horas então, bateu o desespero. Será possível que ele não vem? "Vem sim, deve estar chegando", respondeu a filha do mandatário, naquela noite mais pontual que o pai.

Não só veio como, ao contrário do que se podia esperar, encaminhou ele mesmo uma conversa em cenário bem diferente ao que os presidentes estão habituados. Antes de subir para o camarote de Romani, sentou com este repórter no concreto frio da arquibancada do Durival Britto.

Em meio aos torcedores "co­­muns", sem seguranças (eles até apareceram depois, em uma precaução desnecessária), dividiu as atenções entre as perguntas e o time do coração. À vontade, lembrou dos bons e maus momentos, revelou frustração por não ter dado um título ao Paraná, e só não vibrou porque o chute de Marcelo Toscano explodiu na trave.

Qual o balanço que o sr. faz dos dois anos na presidência?

Eu acreito que foi um trabalho árduo, difícil, em função das verbas serem muito pequenas, de patrocínio, da televisão, passamos esse tempo dependendo, praticamente, da venda de atletas. Até ano pasado, tivemos uma condição um pouquinho melhor, pois fizemos uma venda grande do Josiel, mas também acabamos pagando débitos trabalhistas muito grandes, dinheiro que a gente esperava utilizar este ano. Em 2009 foi realmente muito complicado, vivemos momentos difíceis, estamos passando ainda, acredito que daqui para frente, esse grupo, que já vem de outras gestões, possa nos ajudar a sair desse sufoco, que possamos ter condições financeiras de montar alguma equipe.

Qual foi o principal acerto de sua administração?

O grupo que eu reuni na diretoria executiva do clube e no futebol. Nós tivemos pessoas que se doaram muito conosco. O Paulo Welter no futebol, o Márcio (Vilela) quando pode. Essas pessoas que com certeza vão continuar trabalhando, pois mostraram competência, liderança e muito empenho pelo clube.

O que se arrepende de ter feito?

Eu me arrependo, e naquele momento eu tinha esta convicção, de ter renovado com o (técnico) Paulo Comelli. Ele fez um excelente trabalho (na Série B de 2008) e até poderia voltar no clube mais para a frente. Mas por imposição da mídia, dos torcedores de um modo geral, acabamos renovando com o Comelli e demos muita liberdade para ele montar um time no Paranaense que se mostrou totalmente ineficaz. Foi meu principal erro.

E dentro de campo, qual foi o momento de maior satisfação?

Eu acho que o momento de satisfação do dirigente é quando o time é campeão. Ou, no nosso caso mais específico, o time ter ascendido à Primeira Divisão. Como não aconteceu essas duas coisas eu fiquei frustrado.

E o pior?

Foi quando terminamos o primeiro turno da Série B do ano passado, que nós só tínhamos conquistado 17 pontos e tivemos que remontar a equipe no meio do campeonato. E vitórias que conquistamos a partir daquele momento foi uma grande alegria e acredito que essas vitórias foram uma das minhas maiores alegrias. E este ano, quando tranquilizamos nossa situação, me deu muito prazer.

O sr. concorda que a administração Aurival Correia foi muito bem financeiramente e mal no futebol?

Não concordo de nenhuma maneira. As pessoas não conhecem os problemas do clube, julgam pelo que acontece no campo. Não sabem das dificuldades. Acho que fiz um bom trabalho no futebol com os recursos que eu dispunha. Então, quem tem recursos parcos como nós, é muito mais complicado contratar. Você erra muito mais, buscando jogadores de um nível salarial mais baixo, não atletas de qualidade já reconhecida no mercado. Since­­ramente, acho que dentro das possibilidades que eu tinha fiz um excelente trabalho e o tempo dirá que eu tenho razão.

O sr. deve continuar no departamento financeiro...

Foi uma imposição do presidente eleito Aquilino Romani que eu ficasse junto com ele na administração, por eu conhecer profundamente a estrutura do clube, dos problemas que o clube passa e tem para resolver. Eu aceitei, e mesmo se o Aramis (Tissot, eleito primeiro-vice) fosse o candidato a presidente eu aceitaria.

Ainda tem fôlego para encarar esse trabalho pesado?

Tenho sim. É evidente que o trabalho será cansativo, mas terei um pouco mais de tempo. Poderei me dedicar à minha empresa, à família, que nesses últimos anos deixei um pouco de lado. Como presidente você tem de acompanhar em todas as viagens, reuniões, federação, CBF, mais outras organizações, reunião com empresários, acaba tendo de gastar muito tempo. Cuidando apenas do financeiro, é complicado, trabalhoso, mas tenho condições.

Por conta da sua personalidade, sempre discreto, tranquilo, é bom sair um pouco do centro das atenções?

Não é o caso. Eu sou realmente uma pessoa discreta, não gosto de aparecer, mas não é o caso. É que a presidência realmente toma um tempo muito gran­­de. Por exemplo, no jogo com o Ipatinga (1 a 1, 17/10) nós saímos na quinta-feira meio-dia e chegamos em casa, em Curitiba, domingo às cinco horas da tarde. Toma um tempo muito grande. Mas eu também gosto da parte do financeiro, ver o clube com crédito, ativo, com o nome limpo. É algo que me satisfaz por ser uma marca pessoal. Minha vida inteira foi assim, é a marca da minha empresa e que eu coloquei no Paraná.

Em relação às parcerias, como deverá ficar o Paraná?

Acredito que só depende do Aramis e do Aquilino terem uma boa conversa com o Luiz Alberto (de Oliveira, dono da L.A. Sports) que a parceria vai continuar. E não só da L.A., que hoje tem no time só dois jogadores. Acredito que outras parcerias possam surgir para o bem do Paraná, pois para montar um time forte, por não termos recursos para comprar direitos federativos, precisamos disso. Foi muito profícua a parceria com a L.A., mesmo com a Base (parceira nas categorias de base), sou muito agradecido pois eles nunca interferiram no futebol.

Daqui a 10, 20 anos, o que o sr. espera que esteja escrito na história sobre a sua passagem como presidente do Paraná?

Eu acredito que o reconhecimento que eu já tenho, com as pessoas que acompanham mais profundamente as dificuldades do clube já me basta.

Já quanto ao futuro próximo, qual a sua expectativa?

Espero que este grupo que está assumindo o futebol escute o que nós aprendemos nesses dois anos . Na verdade, nos últimos seis anos, pois acompanhei muito o futebol na gestão do (José Carlos de) Miranda. Esse aprendizado não tem preço. Es­cutando o que temos para dizer, principalmente na parte administrativa da contratação de jogadores, no dia a dia com os atletas, os funcionários do clube, todo o pessoal que nos ajuda, poderemos unir as forças. E a experiência que eles já têm, que possam ser bem-sucedidos. Como torcedor ferrenho que sou eu possa ter muitas alegrias com o futebol. Não já no Paranaense, que eu sei que será complicado montar um time, mas principalmente no Brasileiro da Série B, já com uma base, que a gente possa ascender à Série A.

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