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Olimpíada

Barcelona completa 20 anos como padrão inatingível

Disputados em 1992, os Jogos espanhóis ficaram marcados pelo planejamento e pelo legado, se transformando no ideal a ser alcançado

Time masculino de vôlei, medalha de ouro nos Jogos de Barcelona: o início da grande revolução pela qual passou o esporte no país | Fabio Salles/ Agência Estado
Time masculino de vôlei, medalha de ouro nos Jogos de Barcelona: o início da grande revolução pela qual passou o esporte no país (Foto: Fabio Salles/ Agência Estado)

Dez de agosto de 1992. Era apenas o dia seguinte à cerimônia de encerramento da Olimpíada de Barcelona. Ape­­sar disso, ninguém se acanhava em garantir: o evento realizado na capital da Catalunha fora especial, talvez o melhor de todos os tempos. Passados 20 anos – ou quatro edições dos Jogos – a impressão se mantém.

Desde então, nenhuma ou­­tra sede atingiu o mesmo patamar em organização e, o que mais interessa, soube beneficiar-se dos Jogos. Nem Atlanta, Sydney, Atenas e, aparentemente, Pequim. O Rio fala em superar o mito, mas ainda engatinha na organização visando a 2016.

Expressão sempre na pon­­ta da língua do Comitê Olím­­pico Internacional (COI), na ânsia de defender os gastos hoje multibilionários para abri­­gar o evento, o "legado" foi e ainda é uma realidade em Barcelona.

A divisão dos custos do evento explica boa parte do sucesso. Foram empregados em torno de 10 bilhões de eu­­ros em dinheiro público – sem contar os investimentos da iniciativa privada. Com um detalhe fundamental: somente 10% desse valor destinou-se às instalações esportivas.

O restante serviu para melhorar e aparelhar a segunda maior cidade da Es­­panha. Injeção de dinheiro que gerou uma revitalização urbana sem precedentes e impulsionou uma onda de prosperidade. O fluxo de turistas, por exemplo, dobrou na década seguinte.

"Foi a primeira que se preo­­cupou com o tal legado. Três anos antes, a cidade era outra. Quando chegamos lá, estava moderna, bonita, bem diferente, com a eco­­nomia reforçada e anunciando a entrada do país no Mercado Comum Europeu", resume o jornalista Álvaro José, da Rede Record, com a autoridade de quem já cobriu oito Olimpíadas.

Medalhista de ouro pelo Brasil na disputa, o judoca Ro­­gério Sampaio concorda. "Estava tudo muito organizado e eficiente, um exemplo que eu acredito não ter sido superado até hoje", relembra.

Não por acaso, o projeto catalão é referência para o Rio de Janeiro, sede da competição em 2016. Foi também a maior inspiração para Londres, com a abertura programada para daqui a 89 dias.

Carlos Arthur Nuzmann, presidente do Comitê Or­­ga­­nizador dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos no Brasil, pensa até em deixar para trás o paradigma espanhol. "Como os recordes existem para serem quebrados, estamos certos de que o Rio superará Barcelona como a sede que mais se transformou por causa dos Jogos", diz.

A recuperação de uma zona portuária degradada – prioridade para os cariocas e promovida em 1992 pelos catalães – é um ponto de comparação. Mas, pelo menos por enquanto, não há indícios de que o efeito positivo se repita.

"No Rio se fala em Bar­­ce­­lona como exemplo, mas é quase imaginário. O que está acontecendo aqui não é uma revitalização de áreas marginalizadas. Estão expulsando pessoas em função da construção de obras. É o contrário. Tudo em nome da especulação imobiliária", afirma Lúcio de Castro, jornalista carioca da ESPN Brasil e formado em História.

MemóriaMito reforçado por conquistas esportivas e definições políticas

A Olimpíada de Barcelona, em 1992, representou mais do que o sucesso do projeto espanhol. Entrou para a história também como um marco esportivo e político. Nas disputas por medalha, o destaque ficou com a participação do Dream Team – como ficou conhecida a seleção norte-americana masculina de basquete, pela primeira vez formada por jogadores profissionais. Juntos em quadra, Michael Jordan, Magic Johnson, Larry Bird, entre outros, conquistaram o ouro com exibições memoráveis. "Jogar contra aquele time foi mágico. Eu tive essa honra", relembra Oscar Schmidt.

Pelo Brasil, o vôlei masculino, pela primeira vez, e o judoca Rogério Sampaio alcançaram o lugar mais alto do pódio. "Foi uma campanha inesquecível. Surpreendente", define Maurício Lima, levantador daquela seleção de vôlei.

Na mistura entre o esporte e a política, a União Soviética já não existia mais, e foi representada pela Comunidade dos Estados Independentes (CEI). A Alemanha também competiu como uma só nação, após a reunificação. Barcelona contou com o retorno da África do Sul, depois de suspensão por 32 anos em virtude do apartheid.

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