
Dez de agosto de 1992. Era apenas o dia seguinte à cerimônia de encerramento da Olimpíada de Barcelona. Apesar disso, ninguém se acanhava em garantir: o evento realizado na capital da Catalunha fora especial, talvez o melhor de todos os tempos. Passados 20 anos ou quatro edições dos Jogos a impressão se mantém.
Desde então, nenhuma outra sede atingiu o mesmo patamar em organização e, o que mais interessa, soube beneficiar-se dos Jogos. Nem Atlanta, Sydney, Atenas e, aparentemente, Pequim. O Rio fala em superar o mito, mas ainda engatinha na organização visando a 2016.
Expressão sempre na ponta da língua do Comitê Olímpico Internacional (COI), na ânsia de defender os gastos hoje multibilionários para abrigar o evento, o "legado" foi e ainda é uma realidade em Barcelona.
A divisão dos custos do evento explica boa parte do sucesso. Foram empregados em torno de 10 bilhões de euros em dinheiro público sem contar os investimentos da iniciativa privada. Com um detalhe fundamental: somente 10% desse valor destinou-se às instalações esportivas.
O restante serviu para melhorar e aparelhar a segunda maior cidade da Espanha. Injeção de dinheiro que gerou uma revitalização urbana sem precedentes e impulsionou uma onda de prosperidade. O fluxo de turistas, por exemplo, dobrou na década seguinte.
"Foi a primeira que se preocupou com o tal legado. Três anos antes, a cidade era outra. Quando chegamos lá, estava moderna, bonita, bem diferente, com a economia reforçada e anunciando a entrada do país no Mercado Comum Europeu", resume o jornalista Álvaro José, da Rede Record, com a autoridade de quem já cobriu oito Olimpíadas.
Medalhista de ouro pelo Brasil na disputa, o judoca Rogério Sampaio concorda. "Estava tudo muito organizado e eficiente, um exemplo que eu acredito não ter sido superado até hoje", relembra.
Não por acaso, o projeto catalão é referência para o Rio de Janeiro, sede da competição em 2016. Foi também a maior inspiração para Londres, com a abertura programada para daqui a 89 dias.
Carlos Arthur Nuzmann, presidente do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos no Brasil, pensa até em deixar para trás o paradigma espanhol. "Como os recordes existem para serem quebrados, estamos certos de que o Rio superará Barcelona como a sede que mais se transformou por causa dos Jogos", diz.
A recuperação de uma zona portuária degradada prioridade para os cariocas e promovida em 1992 pelos catalães é um ponto de comparação. Mas, pelo menos por enquanto, não há indícios de que o efeito positivo se repita.
"No Rio se fala em Barcelona como exemplo, mas é quase imaginário. O que está acontecendo aqui não é uma revitalização de áreas marginalizadas. Estão expulsando pessoas em função da construção de obras. É o contrário. Tudo em nome da especulação imobiliária", afirma Lúcio de Castro, jornalista carioca da ESPN Brasil e formado em História.
MemóriaMito reforçado por conquistas esportivas e definições políticas
A Olimpíada de Barcelona, em 1992, representou mais do que o sucesso do projeto espanhol. Entrou para a história também como um marco esportivo e político. Nas disputas por medalha, o destaque ficou com a participação do Dream Team como ficou conhecida a seleção norte-americana masculina de basquete, pela primeira vez formada por jogadores profissionais. Juntos em quadra, Michael Jordan, Magic Johnson, Larry Bird, entre outros, conquistaram o ouro com exibições memoráveis. "Jogar contra aquele time foi mágico. Eu tive essa honra", relembra Oscar Schmidt.
Pelo Brasil, o vôlei masculino, pela primeira vez, e o judoca Rogério Sampaio alcançaram o lugar mais alto do pódio. "Foi uma campanha inesquecível. Surpreendente", define Maurício Lima, levantador daquela seleção de vôlei.
Na mistura entre o esporte e a política, a União Soviética já não existia mais, e foi representada pela Comunidade dos Estados Independentes (CEI). A Alemanha também competiu como uma só nação, após a reunificação. Barcelona contou com o retorno da África do Sul, depois de suspensão por 32 anos em virtude do apartheid.



