
O curitibano Rafael Cordeiro, 38 anos, raramente ouve seu nome pronunciado corretamente em Huntington Beach, na Califórnia. Apesar da proximidade com o México a fronteira fica a apenas 160 km de distância , os norte-americanos penam para articular sem erros o sobrenome latino de um dos cinco melhores técnicos de MMA (artes marciais mistas) do mundo.
Parece uma reclamação tola, mas é o único senão que o mentor de lutadores como Wanderley Silva, Fabrício Werdum e Mark Muñoz tem na América do Norte. Pelo segundo ano consecutivo, o "professor" concorre ao prêmio do MMA Awards, o mais importante do esporte, na categoria treinador.
O resultado, que será divulgado no dia 30 de novembro, na verdade não é o mais importante no momento. O reconhecimento do trabalho feito na academia Kings MMA já está de bom tamanho para quem quatro anos atrás trocou o trabalho confortável na academia Chute Boxe da Praça do Japão pelo sonho de viver nos Estados Unidos.
"Estou com 200 alunos. São 180 estudantes e 20 profissionais, entre eles atletas do UFC e do Strikeforce", diz ele, que na semana passada inaugurou a nova sede da escola, no número 7.391 da Avenida Warner, a quatro quarteirões da praia banhada pelo Oceano Pacífico. "A outra começou a ficar pequena", emenda.
Não era pequena quando o faixa preta de jiu-jítsu e de muay thai desembarcou na cidade, em 2007. Eram apenas três alunos, incluindo sua mulher Luciane e a filha Naomi, então com seis anos.
"Tive força, persisti bastante nisso, que sempre foi meu objetivo. E hoje sou o representante brasileiro, entre os técnicos, mais falado por aqui", garante Cordeiro.
A insistência, quase uma obsessão, por morar na terra do UFC tem explicação simples. Segundo o treinador, o mercado norte-americano é aberto e convidativo ao MMA à brasileira. A visibilidade conquistada no exterior é de longe muito superior ao que o Brasil proporciona no esporte. Além disso, a busca por patrocínios é menos desgastante.
Mas a vontade de se estabilizar nos Estados Unidos não tem só a visão econômica como fundamento. No caso do ex-treinador da Chute Boxe, foi algo planejado há uma década.
"Penso nisso desde que vim com o Wanderley Silva e com o mestre Rudimar Fedrigo para o UFC 20, no Alabama [em 1999]. Vim com a mala pronta para ficar, ia dar aula na Califórnia. Mas as coisas não estavam organizadas do jeito que eu pensava. Então, acabei voltando", relembra ele, orgulhoso por levar a técnica do muay thai curitibano para a terra das oportunidades.
"Não sou rico, mas vou ficar. Essa é a boa notícia", termina Cordeiro com o carregado sotaque curitibano.



