
Nellie Kim protagonizou duas revoluções na ginástica. Nos Jogos de Montreal, em 1976, tirou, no solo e no salto, o primeiro 10 da história desses aparelhos. Três décadas depois, a ex-ginasta, detentora de três ouros e uma prata entre Montreal-1976 e Moscou-1980, coordenou a troca no código de pontuação da ginástica, que tirou do 10 o status de graduação máxima. O limite passou a ser determinado pela capacidade do atleta de elevar o grau de dificuldade das suas séries.
Agora, aos 55 anos, a bielorrussa é personagem de mais uma transformação. Será a conselheira internacional da Escola de Talentos, projeto da Federação Paranaense de Ginástica em parceria com o Movimento LiveWright. Sua chegada atende a um convite da presidente da Federação, Vicélia Florenzano, e dos técnicos Oleg e Nadja Ostapenko.
A adesão oficial ocorreu ontem, no Centro de Excelência em Ginástica (Cegin), em Curitiba, com uma remissão especial à sua maior façanha no tablado. Vestindo um collant igual ao de Kim, as ginastas do Cegin, Harumi de Freitas, presente nos Jogos de Londres, e Bruna Lapa, de 11 anos, repetiram a série que deu à ex-ginasta o ouro em Montreal a apresentação original foi exibida simultaneamente em um telão.
Entre a homenagem e o início dos trabalhos, que envolve visitas aos oito núcleos, em uma rotina a ser repetida duas vezes por ano, Kim conversou com a Gazeta do Povo. Traçou suas expectativas com o projeto, que ela vê como o impulso para retomar o crescimento da ginástica feminina brasileira.
O que te fez aceitar esse convite?
Trabalho para desenvolver a ginástica em todo o mundo e este é o tipo de projeto do qual eu sinto necessidade de participar. Sou presidente do comitê técnico da Federação Internacional, minhas filhas são ginastas, amo crianças... Temos toda a possibilidade de desenvolver talentos no Brasil e fazer deste um projeto modelo para muitos países. Não é só desenvolver talentos, mas também o convívio social. A ginástica não é um esporte barato e muitas vezes perde talentos porque os pais não podem pagar para que seus filhos treinem.
Será possível ver ginastas formadas pelo projeto já nos Jogos de 2016 ou somente em 2020?
Tenho certeza de que metade do time brasileiro em 2016 será do Paraná, deste clube.
O que significou para você ver duas ginastas repetindo sua série?
É algo sobre símbolos no esporte, sobre garotas que querem ser como Nellie Kim, Olga Korbut, Nadia Comaneci, Larissa Latynina. Mostram que me tornei um grande exemplo, a ponto de duas garotas de diferentes idades quererem ser como eu. Quero manter essa ideia viva na ginástica, ajudá-las a melhorar seu talento.
O que explica o retrocesso da ginástica feminina brasileira?
O projeto era bom porque tinha bons técnicos, boas ginastas e boa estrutura. Parte desse programa se perdeu quando Nadja e Oleg deixaram o Brasil. Isso deixou uma lacuna na preparação das ginastas. O Brasil desceu para o segundo nível porque não havia ninguém para substituir o Oleg.
É mais difícil para o ginasta brasileiro controlar suas emoções?
Ouvi várias vezes essa comparação, em que se considera os europeus mais disciplinados. Isso é verdade, mas eles também são mais frios como pessoas. A emoção acentuada faz com que as brasileiras sejam muito mais artísticas no exercício de solo, por exemplo, o que é um ponto favorável. Não é algo que dependa de nacionalidade, mas sim da educação familiar, do treinador e formação. A mesma disciplina pode ser desenvolvida em Curitiba ou Moscou.
É possível formar um ginasta de alto nível sem dor?
Como em qualquer outra atividade esportiva, convivemos com a dor. Um jogador de futebol pode cair e machucar o joelho. Um jogador de basquete ou vôlei pode cair e quebrar o braço. A dor da ginástica nos ensina a enfrentar os problemas na vida e no esporte.



