Sou de Irati, cidade pequena, porém decente, como o Recife da canção. E em Irati, na infância-e-adolescência, ouvi à náusea a expressão: "É o olho do dono que engorda o gado".
É sobre isto que escreverei. E, acredite, escreverei também sobre tradução. Com licença.
Matthäus assumiu o comando, tomou posse, deu o pontapé inicial discretamente, pelas beiradas, como convém: pegou um ita no norte, subiu até um dos belos camarotes da Arena e de lá viu o surpreendente jogo de quarta-feira, contra o Cianorte. Quando o Atlético empolgou a galera, levou a massa à loucura com uma virada sensacional.
Moral da história: a máxima que cansei de ouvir lá em Irati provou mais uma vez estar absolutamente certa. É o olho do dono (Matthäus) que engorda o gado (isto é, faz a equipe jogar, suar a camisa, não desistir). Ele não precisa fazer nada, o dono (nem o treinador), basta a augusta presença ou a pura e simples sensação de que está ali, de olho vivo, pregado no lance, nas peripécias para fazer o mundo se mover.
Sabe qual o nome desse poder, cara pálida? Nas boas casas do ramo atende pelo nome de comando. É tudo o que um treinador precisa ter. Passemos ao tópico tradução.
Perigo à vista
Leio nas trepidantes páginas esportivas: Atlético importará tradutor* para rapaziada que ouvirá urros&orras do Matthäus em alemão. O cavalheiro é também alemão, de nome Jost Vieth**. Segundo o senhor fontes fidedignas, ele é igualmente fluente em inglês e português. Que praticou no Rio Grande do Sul; anos atrás estagiou no Internacional. Vejamos de perto.
Claro, o tradutor deve conhecer a língua original, a língua do original. Até aí a Inês é morta. O problema começa agora e é o seguinte: ele domina o idioma para o qual traduzirá? Além do domínio da língua tem talento para transformar o original em algo potável em português? Veja bem! Português, não alemão em português! Português, não tradução literal do alemão! Sacou, cara pálida?
Preciso acrescentar que Jost não fará o meio-de-campo entre Matthäus e a Academia Brasileira de Letras? Que a rapaziada poderá desatar a rir diante de sotaque involuntariamente hilário? (Testemunharemos a contratação do tradutor do tradutor ou do intérprete do intérprete?)
Notas
* Tradutor é mais apropriado que intérprete, a ponto de não me dar ao trabalho de sustentá-lo: está na cara, não? O intérprete pode não ser tradutor, mas o tradutor é intérprete.
** O j alemão pronuncia-se como i, logo se diz Iost; o v soa como f, logo se diz Fit, pois ie = i. Total? Iost Fit, ok?



