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Carneiro Neto

A boemia

A palavra boemia esta associada à vida dos bares, ressacas matutinas, teorias utópicas destiladas a álcool e fumo, romances que irão abalar o mundo literário, pinturas que eliminarão todas as outras, além de conspirações revolucionárias, mulheres de vida fácil e cancioneiros populares. Ajunta-se ainda: vida desregrada, sem pouso certo e trabalho não fixo. O boêmio tinha a imagem de um cigano.

Pelo menos é o que retratam as obras e os filmes sobre o tema, mostrando artistas que trocavam o dia pela noite.

Modernamente poderiam ser incluídos repórteres e fotógrafos, ainda nos tempos do linotipo, que esperavam nos bares e restaurantes noturnos rodar o jornal para verificar o resultado do trabalho. Ou também estudantes e jogadores de futebol nos primeiros tempos do profissionalismo incipiente.

Mas a palavra boemia nasceu de um erro. Imaginavam na Europa que os ciganos originavam-se da província da Boêmia, na Republica Tcheca, e o modo de vida deles se adaptava ao que estava ocorrendo na França dos artistas nos séculos 19 e 20, quando o vocábulo ganhou força como um fenômeno social definido.

O conceito, contudo, era elástico. Marx chamou a corte de Luís Bonaparte de um bando de boêmios, enquanto os revoltosos da Comuna de Paris, de 1871, não mereciam entrar nesta categoria. Boêmios eram os outros, os freqüentadores dos cabarés de Montmartre e Montparnasse.

Eram os tempos de Van Gogh, Toulouse Lautrec e outros que bebiam absinto, a fada verde.

E a boemia chegou ao Brasil arrastando diversos artistas e jogadores de futebol que começavam a ganhar dinheiro, mas encurtaram as carreiras e as próprias vidas por conta da bebida e das noites mal dormidas. Do genial Noel Rosa ao zagueiro Fausto, a Maravilha Negra, a tuberculose reinou absoluta.

Boêmios, boleiros e baladas rimam desde sempre, mas os superdotados no mundo da bola eram perdoados.

Garrincha teve tempo de fazer um filho sueco em meio aos jogos da Copa na Suécia, enquanto Gérson fumava no vestiário durante o intervalo dos jogos da seleção na Copa do México.

Por aqui, o célebre Zé Roberto, tecnicamente o melhor jogador que atuou em times paranaenses, fugia das concentrações na véspera dos jogos em que marcava gols que encantavam as platéias.

Hoje, os meios de comunicação vigiam os astros e ninguém consegue escapar. Nem mesmo o recordista olímpico Michael Phelps, flagrado com maconha numa festa.

Adriano apareceu embriagado no treino do Inter de Milão, Ronaldinho Gaúcho foi liberado pelo Barcelona pelo excesso de baladas, Ronaldo Fenômeno continua "perdendo peso" nas danceterias e Robinho anda com problemas depois de acusado por uma Maria Chuteira inglesa.

Não se trata apenas de formação familiar deficiente, mas da atração que a noite, as mulheres e as bebidas exercem sobre os jovens com dinheiro no bolso para gastar.

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