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Escrever sobre futebol em tempos politicamente corretos é um desafio ao vocabulário e à paciência. Nada pode, tudo ofende. Querem um exemplo? Os times que Atlético e Coritiba estão usando no Campeonato Paranaense.

Time reserva. Não pode. Tecnicamente, não são reservas imediatos, e no futebol de hoje, com lesões, suspensões e escalações moldadas ao adversário, é preciso ter mais do que 11 titulares.

Time B. Ofende. Denota qualidade inferior, segunda mão, deprecia o produto, crime fatal no futebol mercantilizado.

Time sub-23. Está errado. Nem todos têm menos de 23 anos. Se você chama de sub-23, dá a impressão de que um jogador mais velho encaixado ali está voltando para a escolinha. E de qualquer maneira, são as camisas de Atlético e Coritiba que estão ali. Se os garotos vestem essas camisas, têm qualidade.

Time alternativo. Aqui, exerço o direito de me recusar a usar um termo estéril, vazio, que não quer dizer nada. Antigamente, música alternativa era aquela que não tocava na rádio. Com o tempo virou indie. E hoje toca na rádio direto. Hoje em dia alternativo é Metallica, Black Sabbath, Ozzy, Kiss. Não toca em lugar nenhum, exceto as canções mais comportadas.

Há tempos o futebol olha para o meio empresarial como forma de se tornar uma atividade mais apresentável. A intenção é louvável e necessária, embora em regra tudo não passe de verniz. Os cartolas, os desvios e os desmandos seguem vivos até nas empresas mais prósperas da bola, vide o Barcelona de Rosell.

Mas como o que vale é manter a imagem – é ela que vende, não a realidade –, tenho uma sugestão aos executivos da bola. Que tal chamar os times de garotos de times de trainee? Ou tratar todo o processo como um enorme programa de trainee? Chamar olheiro de headhunter, peneira de recrutamento e a transição para a equipe profissional de programa de desenvolvimento, com um plano de cargos e salários. Um volante júnior I de hoje pode ser um volante trombador sênior de amanhã. E aquele meia de 19 anos, que joga pelo lado de campo ajudando na recomposição, certamente chegará mais longe na carreira se for lançado na função de secretário de lateral aprendiz.

Termos pomposos, perfeitos para o futebol atual, em que vale mais o rótulo do que o conteúdo. Para quem quiser resultado de verdade, a fórmula é tragicamente mais simples: talento, inteligência, organização e capacidade de arrecadar e investir corretamente o dinheiro. Essa é a combinação que permite o surgimento de Denner, William, Léo Pereira e Otávio. Podem chamá-los como quiserem. Eu, humildemente, chamo de futuros craques.

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