Estávamos eu, Fernando Rudnick, Jonathan Campos e Marcelo Andrade almoçando em Copacabana, no dia da final da Copa do Brasil, quando o Seedorf passou na calçada com a mulher. Não lembro se foi porque eu falei "olha lá o Seedorf", porque todos viramos ao mesmo tempo ou as duas coisas, mas o holandês abriu um sorriso enorme e mandou um aceno simpático para a nossa mesa. Deve ter achado que éramos torcedores, certamente não notou os quatro notebooks e as lentes dividindo espaço com pratos e copos. Sei lá. Só sei que fiquei impressionado com a simpatia do Seedorf. Meses antes, havia me impressionado com sua movimentação dentro de campo. Era um Botafogo x Vitória, no Maracanã, e vi o Seedão pela primeira vez no estádio. Um craque.

Essa semana Seedorf foi embora. Deixou o Botafogo, vai treinar o Milan. Não me impressionei com a saída nem mesmo com as lágrimas na despedida. Fiquei impressionado de verdade ao perceber que, em um ano e pouco de Brasil, Seedorf deixou muitos exemplos que deveriam se multiplicar pelo futebol nacional.

Seedorf deu dura em companheiro dentro de campo porque viu que o moleque estava errado, sem medo de parecer traíra. Apontou o dedo para atrasos de salário, gramados ruins, calendário criminoso. Nem por isso deixou de lutar pelo seu time, jogar no campo que fosse, enquanto seu corpo aguentasse. Enfrentou Resende e Flamengo com o mesmo tesão. Serviu de guru para a primavera boleira do Bom Senso FC. Não teve receio de, em rede nacional, dizer que o amado Paulo Henrique Ganso é lento demais para jogar na Europa.

O futebol brasileiro de hoje lembra um pouco o futebol do Leste Europeu antes de a cortina de ferro se abrir. Do lado de cá do mundo, acreditávamos que os jogadores eram amadores, mesmo sabendo que os caras tinham empregos de fachada no governo e viviam para jogar bola. Do lado de lá, eles acreditavam que a vida de boleiro e "funcionário fantasma" era boa, mesmo sabendo que o Ocidente oferecia uma vida melhor também com dedicação exclusiva ao futebol.

Então vieram a glasnost, a perestroika e os primeiros do lado de lá pularam o muro para o lado de cá. Zavarov foi o primeiro. Trocou o Dínamo de Kiev pela Juventus. Não jogou nada, mas viu que era bom, e depois dele vieram muitos outros. O muro caiu, a cortina se abriu e o pessoal daqui decidiu tomar o caminho inverso.

Seedorf também atravessou uma cortina. Foi o primeiro europeu de altíssimo nível a vir jogar no Brasil, não importa se porque a mulher é botafoguense ou para ficar perto dos parentes do Suriname. Ele veio. E cansou de mostrar o quanto estamos atrasados sem nunca perder o sorriso simpático do cara na calçada que cumprimenta um quarteto de desconhecidos na mesa do restaurante. Deixou um legado para ajudar a transformar o futebol brasileiro. Para que mais gente venha de lá para cá. E para que quem está aqui tenha vontade de ficar o maior de tempo possível.

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