
Impunidade, reformas vazias e escândalos abafados. Foi assim que a Fifa "resolveu" a sua pior crise nos últimos anos. Ontem, depois de fechar acordos políticos com dezenas de federações, o suíço Joseph Blatter conseguiu o seu quarto mandato à frente da organização e ficará no cargo até 2015. Prometeu mudanças, mas garantiu que não haverá intervenção externa e muito menos a investigação do passado. A ordem dentro da organização era uma só: dar uma imagem de reforma, enquanto o poder ficava nas mãos do mesmo grupo.
Blatter foi o único candidato a se apresentar à eleição, depois que conseguiu que o Comitê de Ética da Fifa escolhido por ele mesmo suspendesse Mohamed Bin Hammam, do Catar, sob a alegação de pagamento de propinas. "Eu iria ganhar e Blatter sabia disso", declarou o dirigente asiático ontem.
O suíço, que está na Fifa desde a década de 70 e foi por anos o braço direito de João Havelange, conseguiu neutralizar o pedido de adiamento da eleição, apresentado pela Inglaterra, que passou a ser tratada como traidora. No final, obteve 186 dos 206 votos possíveis.
Para acalmar o que Blatter chamou de "ira popular", ele anunciou reformas. A primeira se refere à escolha das sedes dos Mundiais. Os 24 cartolas do Comitê Executivo são acusados de terem vendido seus votos para dar ao Catar a Copa do Mundo de 2022. Os escândalos fizeram os maiores patrocinadores e políticos de peso exigirem reformas.
A solução, para Blatter, foi voltar ao modelo de 1966, dando o poder de escolher as sedes para todas as 208 federações nacionais. A meta é a de diluir a influência de cada um dos cartolas e, assim, reduzir a tentação de pagar por votos. Blatter jamais admitiu o pagamento de propinas. Mas sua reforma desta quarta é uma demonstração de que de fato ocorreram.
A segunda medida é a criação de um Comitê de Ética independente. Mas sem agentes externos. Os juízes serão eleitos pelas 208 federações e, portanto, nada será feito com intervenção externa. "Temos de resolver nossos problemas dentro de nossa casa mesmo", disse Blatter. "Esqueça tolerância zero. O importante é unidade e respeito", declarou.
A terceira medida é ainda mais iníqua: a criação de um Comitê de Soluções, com o norte-americano Henry Kissinger, acusado por ONGs de crimes de guerra no Vietnã e de ter apoiado ditaduras na América Latina. Blatter nem sequer soube responder o que faria esse grupo. Há um mês, anunciou que seu plano era criar um comitê com pessoas externas à Fifa. Ontem, mudou de opinião.



