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Racismo

À flor da pele: segregação racial é fantasma permanente

Pesquisas indicam dificuldade na interação entre raças. Futebol foi o segundo esporte a se opor ao apartheid

O futebol foi o segundo esporte a se opor ao apartheid. Enquanto a segregação racial na África do Sul pegava fogo, em 1978 os clubes profissionais das ligas "brancas" e "negras" resolveram se unir e superar a barreira da cor. Antes, apenas o boxe havia tomado medida similar.

O ato simbólico foi o primeiro passo para o retorno do futebol sul-africano ao cenário internacional. Mas isso só ocorreu logo após o fim oficial do regime, em 1990. Aí sim, bastaram mais dois anos para a Fifa perdoar o país e aceitá-lo de novo em seu quadro de filiados.

Se teoricamente a partir desses dois fatos o futebol voltou a ser plural, na prática continua basicamente negro. Tanto dentro de campo como fora dele.

"É difícil ver torcedores de futebol brancos nas arquibancadas. Acho que só os vejo quando vamos enfrentar o Vasco da Gama, que foi fundado por portugueses", afirma o jogador brasileiro Éder Richartz, ex-Coritiba, que desde o ano passado atua no Free State Stars.

Como na seleção sul-africana, que tem o zagueiro Booth como único branco do time, na equipe da cidade de Bethlehem ocorre o mesmo com Éder. O que não chega a ser uma preocupação, como ocorre no rúgbi, por exemplo – considerado esporte de brancos, e por isso com uma regra obrigando cada time da liga a ter, necessariamente, uma certa quantidade de negros inscritos na competição.

"Sou uma exceção. Quase todos os jogadores de futebol são negros por aqui. Mas isto não é visto como um problema, como ocorre no rúgbi, que para o time disputar a competição tem de ter no mínimo cinco negros inscritos", complementa o jogador.

Mesmo quase duas décadas após o fim do apartheid, os dados apontam para um novo afastamento entre brancos e negros no país. No começo do ano, uma pesquisa feita pelo Insti­tuto para a Justiça e Reconciliação mostrou que é cada vez menor o número de pessoas que acreditam em um "futuro feliz para todas as raças". Em 2005, 86% da população tinha essa impressão otimista. Agora, o número caiu para 62%.

Dado que demonstra melhor o problema racial velado no país é o fato de que, em um dia normal, de cada quatro pessoas uma não falará com ninguém de outra cor; duas em cinco por considerar a pessoa de cor diferente como "não confiável".

"O racismo ainda existe, mas não é explícito. É discreto. Se nota até pela condição fi­­nan­ceira", afirma a psicóloga curitibana Josi­ane Aze­­vedo, que no começo do ano esteve na Cidade do Cabo, na África do Sul, onde fi­cou um mês e meio. "Lá, se você entra em u­ma loja de esportes, parece que não existe Copa. A maioria dos artigos à venda é de críquete e rúgbi (esportes da maioria branca). Além disso, uma camisa da seleção de futebol (esporte de maioria negra) é muito mais barata do que a de rúgbi", completa.

Mesmo que o Mundial sirva para melhorar a convivência entre negros e brancos, ainda deverá ser insuficiente para mudar o cenário de discrepância social. A minoria branca constitui ainda a maior parte da população rica e com formação acadêmica; os negros são sobretudo pobres e sem estudo. O desemprego abrange cerca de 25% da população – a maioria de ne­­gros. E, de acordo com estimativa do Banco Mun­­dial, da população de 50 milhões, cerca de 17 milhões de sul-africanos vivem com menos de US$ 2 por dia.

"O enfrentamento com outros países pode ajudar, ao menos momentaneamente, no sentimento de patriotismo. Mas a questão é que não mascara, apenas cobre as feridas deles por enquanto", afirma Sérgio Gil, doutor em Ciências Políticas pela USP e professor da Faculdade Rio Branco, de São Paulo.

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