
Torcedor-turista disposto a ver um dos quatro jogos da Copa-2014 em Curitiba não tem o direito de dormir no ponto. O risco de ficar sem-teto, dependendo das partidas que a capital paranaense abrigar, é enorme.
Considerando apenas o movimento médio de visitantes durante o ano, a cidade-sede do Mundial não precisaria de novos leitos, segundo estudo da consultoria HotelInvest. Mas o cenário para o evento da Fifa é diferente calcula-se que até 100 mil forasteiros circulem em dia de jogos.
A ocupação dos quartos de hotel na capital em condições normais seria de 68% (dados de 2010 da pesquisa), porém a razoável folga na oferta de acomodações tem sido facilmente superada nos períodos de maior movimento como se espera no Mundial.
No fim de semana dos dias 12 e 13 de novembro, por exemplo, Curitiba teve ao mesmo tempo o vestibular da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e o Congresso Brasileiro de Ginecologia e Obstetrícia. Somando os visitantes para as duas atividades, os 7 mil leitos da cidade foram insuficientes.
O time de futebol do Guarani, que jogava na capital dia 12, antecipou sua volta para Campinas justamente por não ter onde ficar depois de enfrentar o Paraná. A informação foi confirmada pela assessoria de imprensa do Bugre. O Flamengo, que jogou com o Coritiba no dia seguinte, viveu drama semelhante.
"Essa lotação só ocorre em alguns dias de outubro e novembro, quando temos vários congressos e eventos na cidade. No restante do ano, a ocupação dos quartos é baixa. Em junho, para se ter uma ideia, só 30% dos quartos são alugados", defende o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Paraná (ABIH-PR), Henrique Lenz César Filho.
Para ele, apesar dos problemas pontuais do setor, é claramente inviável construir e manter novos hotéis, por pura falta de demanda na maior parte do ano.
A opinião é compartilhada pelo presidente da HotelInvest, Diogo Canteras. "Tudo que Curitiba não precisa hoje é voltar a ter uma superoferta de quartos. Acabou de sair desse quadro", afirmou.
O estudo divulgado pela consultoria (3.ª edição do Placar da Hotelaria 2015) indica inclusive que a capital paranaense vive um momento de saudável equilíbrio no setor. Ao lado de São Paulo e Rio, é uma das poucas cidades com baixo risco de excesso de quartos em todas as faixas de preço após o Mundial.
Para 2015, a taxa de ocupação prevista é de 76%. Já Belo Horizonte, uma das subsedes que mais tem investido em novos hotéis, tende a ver uma queda brusca e perigosa para o setor nessa estatística. Da média de 74% dos leitos com hóspedes em 2010, passaria para 52% no ano posterior ao da Copa.
Assim, no entendimento de Canteras, reforçar a estrutura hoteleira em Curitiba causaria mais transtornos desnecessários do que benefícios ao mercado local. "Não haverá problema de hospedagem. Nesse período, tudo para. Não tem salão do automóvel, congressos... Boa parte dos quartos é reservada só para a Copa", complementou.
Um certo pessimismo também contribuiu para a aposta em manter a atual estrutura do setor. Como Curitiba só receberá uma partida de uma seleção cabeça de chave e três de equipes teoricamente menos expressivas, a expectativa de Canteras e César Filho é de movimento apenas regular durante o torneio.
O relativo fracasso do setor no Mundial de 2010 é outro argumento favorável à cautela nos investimentos. "Na África do Sul, o aumento da movimentação na hotelaria foi de apenas 10% em relação ao ano anterior", finaliza Diogo Canteras.



