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Judô

Desconhecido, prodígio paranaense arrebata resultados no tatame

Apelidado de Baby pelo jeito pacato, Rafael Silva, de 2,03 m, se prepara para as lutas com rock pesado e vídeos do UFC

No tatame, o pacato Baby, apelido de Rafael Silva, se transforma em um gigante: paranaense é candidato a Londres-2012 | Caio Buni
No tatame, o pacato Baby, apelido de Rafael Silva, se transforma em um gigante: paranaense é candidato a Londres-2012 (Foto: Caio Buni)

A principal revelação do judô masculino do Brasil segue o estilo japonês na luta, é formado pela tradição paulista na modalidade e é paranaense. Ainda pou­­co conhecido em sua terra na­­tal, quer ser reconhecido co­­mo atleta do Paraná. Aos 23 anos, Rafael Silva é a principal novidade brasileira nos tatames pelo mundo: neste ano, o peso pesado conquistou três medalhas nas principais competições internacionais. É o 15.º melhor do mundo em sua categoria e candidato a estreante na Olim­­píada, em Londres.

Rafael chama a atenção pela rápida ascensão no esporte. Co­­meçou a treinar tardiamente, aos 15 anos, algo pouco comum entre judocas do primeiro escalão. Amanhã, o atleta parte para mais um desafio rumo aos Jogos de 2012, seu principal objetivo. Vai à Guadalajara (México) para a disputa do Pan-Americano de Judô com a seleção brasileira. Além de tentar o bicampeonato na categoria acima de 100 quilos, quer somar pontos para o ranking mun­­dial, classificatório para Lon­­dres. Precisa estar entre os 22 melhores do mundo.

Hoje, estaria classificado se não fosse um senão: outro brasileiro, o veterano Daniel Hernan­­des, que tenta sua passagem para a terceira participação olímpica e é o 13.º melhor do mundo na ca­­tegoria super pesado. Os dois treinam juntos no Esporte Clube Pinheiros e são adversários constantes nas competições nas Amé­­ricas, Europa, Ásia... "É uma luta sempre decidida no detalhe. Já nos conhecemos muito no tatame. Fora dele, o Daniel me ajudou muito na minha adaptação em São Paulo", conta Silva.

O judoca é de Rolândia, Norte do Paraná, onde começou a fazer judô. "Nasci no Mato Grosso, mas minha família está há muitos anos em Rolândia. Meu avô foi para a cidade para trabalhar no mercado cafeicultor", conta, para explicar que não é descendente de alemães, como a maioria dos habitantes da cidade.

Treinou e competiu no Pa­­raná por dois anos. Em 2004, aos 17 anos, foi vice-campeão dos Jogos Brasileiros da Juventude. Perdeu o ouro para um paulista. Mas seu desempenho na final e o tamanho avantajado (2,03 metros de altura) chamaram a atenção de um dos técnicos de São Paulo, que o convidou para treinar no Projeto Futuro. O mesmo programa revelou Tiago Camilo, prata na Olimpíada de Sidney e bronze em Atenas, entre outros judocas. Rafael aceitou o convite.

Seus resultados nacionais são todos por São Paulo. "Talvez por isso não me conheçam muito no Paraná. Mas quero ser reconhecido como paranaense. É o lugar para onde vou quando quero descansar, ficar com a família", fala.

"No Paraná, o judô é bem fe­­chado, não vai muita gente de fora para elevar o nível técnico. Em São Paulo, melhorei muito, tanto pela qualidade dos atletas quanto pelas seleções que vêm treinar aqui", diz. "No Paraná também tinha muita burocracia", fala, referindo-se à uma re­­gra que vigorava nos campeonatos estaduais: judocas iniciantes disputavam uma categoria à parte, a estímulo, que não os colocava em combate com os principais atletas do estado.

Não foi só qualidade em competições que ele conquistou em São Paulo Também ganhou um apelido: Baby. Diz que é por seu jeito calmo e quieto a maior parte do tempo. Mas a graça da alcunha está em chamar um marmanjo de 2,03 m e 150 quilos de "bebê".

No ano passado, colecionou medalhas de ouro: foi campeão dos Jogos Pan-Americanos e das etapas de Madri e de São Paulo da Copa do Mundo. Ficou em quinto lugar no Mundial. Este ano, fez pódio nas três competições que disputou: ouro na etapa de Budapeste da Copa do Mundo e dois bronzes: um no Grand Prix da Alemanha e da Copa do Mun­­do em Varsóvia.

Atribui seus resultados à in­­tensa movimentação que submete seus adversários durante as lutas, fato pouco comum en­­tre pesos pesados. "Isso é resultado da minha escola. Tive e tenho técnicos descendentes de japoneses [que têm um judô baseado no uso da força do oponente, enquanto a escola europeia faz maior uso da própria força]", fala.

Mas não é só isso: ele também tem um ritual pré-competição em que desliga o pacato Baby e acende o guerreiro em busca de pódios: assiste a uma seleção dos melhores momentos de lutas do UFC (evento de MMA, lutas marciais mistas, sigla em inglês) ao som de um playlist de rock pesado. Ouve de AC/DC a Iron Maden. "Todo atleta tem seu ritual. Uso esses meios para atingir um nível psicológico ideal para lutar", explica. Tem funcionado.

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