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Medicina

Descuido e vaidade fazem doping avançar no futebol

Após dois anos sem nenhum caso, esporte tem 15 julgamentos em 2007

Da cocaína à aparentemente inofensiva Neosaldina. Do popular atacante botafoguense Dodô ao desconhecido Nílson Sergipano, do CRB. Da vaidade à possível incompetência de laboratórios. Personagens e motivos distintos desviaram o foco dos gramados para os tribunais esportivos em 2007. Após dois anos sem nenhuma pauta sobre doping, 15 casos movimentaram a Justiça Desportiva.

O excesso transformou em atípica a temporada. Mas, para especialistas tanto da área médica como jurídica, não é o resultado de maior rigor no controle antidoping e nem uma fraude em massa para turbinar ilegalmente os jogadores brasileiros. A dopagem nos gramados tem outro perfil. "Não existe doping para melhorar a habilidade", afirma o médico do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e coordenador do controle de dopagem da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV), Bruno Borges da Fonseca.

A característica das drogas usadas pelos jogadores também é distinta das vilãs presentes em escândalos mundiais. Substâncias como hormônios do crescimento, anabolizantes e eritropoietina (EPO) – comuns na natação, ciclismo e atletismo – passam longe das quatro linhas.

"A maioria dos atletas tomou alguma substância proibida por descuido ou com outras finalidades que não a de melhorar o desempenho", detecta Fonseca.

O primeiro exemplo citado pelo especialista vem do Rio Grande do Sul, com a descoberta do uso em atacado de sibutramina pelos atletas do Juventude. Alex Alves e Júlio César tiveram prova e contraprovas positivas para a substância desenvolvida como antidepressivo e usada no auxílio ao emagrecimento. Walker, também do time gaúcho, caiu no exame quando foi transferido para o Náutico.

O suplemento alimentar foi recomendado pelo próprio clube. A nutricionista Fernanda Pezzi, demitida após o incidente, alegou que a substância não era indicada na fórmula e processa a empresa Integralmédica. Mesmo com essa explicação, o trio acabou condenado no STJD.

Outros três casos confirmam as estatísticas da própria Fifa. De acordo com a Comissão Médica da entidade, a maconha e a cocaína são as responsáveis por quase todos os casos positivos de doping no futebol. Em 2006, cerca de 20 mil testes foram feitos, sendo 0,4% positivos para maconha e cocaína e 0,7% por esteróides.

Renato Silva (Botafogo), Vaguinho (Portuguesa) e Nílson Sergipano (CRB, detectado em 2006 mas julgado este ano) apresentaram traços de maconha na urina, enquanto Fabrício (Brasil de Pelotas) teve o exame positivo para benzoilecgonina, um metabólico da cocaína.

"O atleta pode ficar mais ligado ou até mais relaxado e tranqüilo para enfrentar o jogo tenso, com casa cheia. Podem até falar que não é para melhorar o rendimento, mas pode ajudar", comentou o médico da CBF.

A vaidade também derrubou atletas este ano. Marcão, ex-Atlético e hoje no Inter, chegou a ser suspenso preventivamente pelo uso da terapia mais famosa do mundo no tratamento da calvície, a Finasterida.

Graves consequências também atingiram quem quis apenas curar uma simples dor de cabeça. Adãozinho, do América-RN, foi suspenso por 120 dias nesta semana por uso de Neosaldina, sob orientação do médico do clube, também punido. Pelo mesmo motivo, o médico do Paulista de Jundiaí, Carlos Eduardo Damasceno, foi banido. Ele ministrou a neosaldina ao jogador Ricardo Lopes, que ainda aguarda julgamento.

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