
O atletismo brasileiro estreia hoje no Mundial de Berlim maculado pelo maior escândalo de doping do país. Flagrantes em série do uso de substâncias proibidas diminuíram a quantidade (de 45 para 42 inscritos), a qualidade e o ânimo do Brasil na competição. A disputa vai até o dia 23 no Estádio Olímpico de Berlim, com 47 modalidades e 2.500 atletas de 213 nações.
Para ampliar ainda mais o constrangimento, a Iaaf (Associação Internacional das Federações de Atletismo) decidiu obrigar os brasileiros a realizar exames de sangue antes das disputas.
Diante do declínio técnico e dos problemas fora da pista, as chances do país são remotas. "No masculino, não dá para pensar em medalha. Nem com injeção na barriga. A situação é tão séria, que até os atletas recentemente acusados de doping não conseguem bater recordes de 10 anos, como os 200 m, de Claudinei Quirino (19s89). Pior é a situação dos 100 m, que já dura 20 anos, batido em 1988, por Robson Caetano, com 10 segundos cravados", disse em entrevista esta semana ao UOL, o professor de educação física Fernando Franco. Ele desenvolve projeções com base nos recordes mundiais e ranking da IAAF.
O prognóstico sombrio que não inclui o feminino (ler mais nesta página) parte da própria Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt). "Falar em medalhas é complicado. Esperamos uma grande atuação de nossos atletas, mesmo eles tendo enfrentado uma situação extremamente desagradável aqui", disse o superintendente da entidade Martinho Nobre dos Santos.
O golpe de flagrantes por atacado foi duro, mas ele acredita ter sido superado. "O ambiente melhorou, embora alguns, mais ligados aos atletas atingidos ainda sintam isso. Mas temos certeza de que eles vão superar tudo e competir bem no Mundial", espera o dirigente, um dos responsáveis pelas investigações.
Josiane da Silva Tito (4x400 m), Luciana França (400 m com barreiras), Jorge Célio da Rocha Sena (200 m e 4x100 m), Bruno Lins Tenório de Barros (200 m e 4x100 m), Lucimara Silvestre da Silva (Heptatlo) e Evelyn Carolina Oliveira Santos (4x100 m) já estavam na Europa quando a Confederação divulgou o resultado positivo para a substância Eritropoietina (EPO). Lucimar Teodoro (400 m com barreiras) foi suspensa pelo uso do estimulante femproporex.
Todos integravam a equipe Rede Atletismo comandada pelos técnicos Jayme Netto Júnior e Inaldo Sena, que assumiram a culpa pela contaminação.
Foi um desmanche nas pistas. A baixa coletiva comprometeu a participação individual e desmontou os revezamentos, que tiveram de ser remontados às pressas.
No masculino, onde o país conquistou suas maiores glórias (bronze (1999) e prata (2003) em Mundiais e prata na Olimpíada de Sydney-2000, Nilson de Oliveira André e Aílson Feitosa reforçaram a equipe dos 4x100 m masculino e devem ficar na reserva do quarteto Sandro Viana, Vicente Lenílson, José Carlos Moreira e Basílio de Moraes. "Estão todos abatidos. O que aconteceu foi muito grave e estamos tentando esquecer", desabafou Viana.
Bárbara Farias de Oliveira integrou o conjunto feminino do 4x400 m na vaga de Josiane. Já Ana Cláudia Lemos substituirá Evelyn nos 4x100 m. Ela disputou o revezamento em Pequim e no último fim de semana foi campeã brasileira sub-23 dos 100m e do revezamento 4x100 m em São Paulo. "Estou bem este ano e vou lutar para tentar um lugar na equipe titular", afirmou a velocista com esperança de ajudar o atletismo brasileiro superar o maior trauma da sua história.
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