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Futebol de rua

Drible vira lição de vida para meninos carentes

Projeto social usa um dos recursos mais empolgantes do futebol para ensinar valores e mudar a vida de garotos da periferia

A alegria toma conta da piazada na hora de brincar de “futebol de rua” no campinho de areia da As­­sociação de Moradores do Bairro Cajuru, região carente da cidade | Marcelo Elias/Gazeta do Povo
A alegria toma conta da piazada na hora de brincar de “futebol de rua” no campinho de areia da As­­sociação de Moradores do Bairro Cajuru, região carente da cidade (Foto: Marcelo Elias/Gazeta do Povo)
Dribles são a principal fonte de pontos na modalidade. Mais até do que os gols |

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Dribles são a principal fonte de pontos na modalidade. Mais até do que os gols

Moisés, de 12 anos, deixou de ser agressivo e viu as notas melhorarem |

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Moisés, de 12 anos, deixou de ser agressivo e viu as notas melhorarem

Aos 15 anos, Dênis é a principal aposta para disputar campeonatos internacionais |

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Aos 15 anos, Dênis é a principal aposta para disputar campeonatos internacionais

O ponto alto do futebol não é necessariamente bola na rede. É o que demonstra o projeto social Futebol de Rua, que ensina a aproximadamente 600 meninos carentes de Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro valores como respeito, cidadania e autoestima a partir de um dos fundamentos que pode ser tão ou mais bonito do que o próprio gol: o drible.

A regra é simples. São dois times com três jogadores de cada lado. Não há goleiros e as traves são pequenas, como nas peladas de rua na periferia. O gol vale um ponto. Já o drible (caneta, chapéu ou meia-lua) vale três. Quem faz falta fica dois minutos fora da partida. Se o jogador comete outra, é ex­­cluído automaticamente. "O objetivo é estimular o fair play (jo­­go limpo) para que esses me­­ninos levem isso para suas vi­­das, virem eles jogadores de futebol ou não", explica o coordenador do projeto, o curitibano Alceu de Campos Natal Neto.

Natal criou as regras e o projeto quando fazia pós-graduação em marketing esportivo, em São Paulo. Com a ajuda de um professor, apresentou a ideia ao presidente da Associa­­ção de Moradores de Heliópolis – uma das maiores comunidades carentes do país, com aproximadamente 120 mil moradores – e não precisou de muito trabalho para implantar o projeto. "Falei para o presidente que iria espalhar uns cartazes pelo bairro e ele disse que não precisava. No outro dia tinha umas 150 crianças no campinho da associação. Não é só notícia ruim que corre rápido na favela", atesta Natal, que desde então passou a dividir seu dia a dia profissional entre a coordenação do Futebol de Rua e o escritório de advocacia do qual é sócio.

Em Curitiba, o projeto chegou em 2007, a convite da Secretaria Municipal de Esportes. Ano passado foi a vez de o Rio de Janeiro ser contemplado – são 45 meninos inscritos na comunidade de Pilares. Na capital paranaense, o projeto está em seis escolas municipais (dentro do programa Comunidade Escola) e na As­­sociação de Moradores do Bairro Cajuru. No próximo sábado, as 370 crianças e adolescentes, entre 7 e 17 anos, poderão mostrar toda sua habilidade na 5.ª Copa de Futebol de Rua e Frees­­tyle, na quadra da Praça Oswa­­ldo Cruz, no Centro.

Comportamento

Mas os resultados importantes mesmo estão no dia a dia dos meninos, fora das canchas. Nesses três anos, afirma o coordenador, o comportamento deles mudou muito. Além de boas notas na escola (exigência para participar do projeto), estão menos agressivos, mais respeitosos com a família, amigos e professores. "Isso é o que importa. Até porque não iludimos ninguém. Alguns desses meninos até podem virar jogadores profissionais, mas esse não é o nosso foco. Queremos formar homens, cidadãos", enfatiza Natal, ressaltando que o índice de evasão é baixíssimo. "Mantemos 90% dos meninos que começaram em 2007. Os que saíram foi porque chegaram aos 18 anos e tiveram de trabalhar. O que também nos enche de orgulho, porque não foram para a criminalidade", afirma.

Moisés Fontes Ferreira, 12 anos, é um dos garotos cujo comportamento é outro desde que entrou no projeto. Antes de participar do Futebol de Rua, Moisés era agressivo, falava muitos palavrões e tinha dificuldade em se relacionar com o irmão mais velho e colegas. Numa briga, chegou a bater a cabeça de outro menino contra a parede. Hoje os dois são companheiros de treino no campinho de areia da Associação de Moradores do Cajuru. "Eu era muito brabo, brigava demais. Agora até nota boa eu tiro", diz o menino, referindo-se ao salto na média do boletim escolar.

De notas como 1,5, Moisés agora fala todo orgulhoso do 9 que tirou no último bimestre em Educação Artística. Dos sonhos para o futuro, diz querer ser goleiro, posição não só do ídolo Édson Bastos, do Coritiba, mas também do pai e de um dos irmãos nas peladas do bairro. "Mas se não for jogador de futebol, quero ser engenheiro", planeja, sabendo da necessidade dos estudos para chegar lá.

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