
Muricy Ramalho e a seleção brasileira chegaram a um acordo que durou poucas horas. O técnico comandaria a equipe até 2014. Não havia nada de oficial, pois faltava a conversa com dirigentes do Fluminense para formalizar sua saída. Ninguém da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) admitia que o clube criasse alguma dificuldade. Mas foi o que ocorreu. O Fluminense não o liberou e Muricy, convidado pela manhã para ser o substituto de Dunga, terminou o período da tarde com o uniforme de treino do time tricolor nas Laranjeiras. Ele decidiu permanecer no clube.
A estratégia para contratar Muricy começou a ser articulada na quinta. Logo após a vitória do Fluminense sobre o Cruzeiro por 1 a 0, resultado que levou o clube carioca à liderança do Campeonato Brasileiro, Muricy foi abordado na garagem do Maracanã por um funcionário da CBF, Victor Rios. De uma rápida conversa, surgiu o convite para que o treinador estivesse nesta sexta, às 10 horas, no Itanhangá Golf Club, na zona oeste da cidade, a fim de manter um encontro reservado com o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, e o diretor de comunicação da entidade, Rodrigo Paiva.
Muricy nem hesitou. Acordou cedo e chegou ao local antes mesmo do horário marcado. Ricardo Teixeira faz do clube de golfe uma extensão de seu gabinete da sede da CBF. Lá, já fechou vários contratos para a confederação e recebeu visitas ilustres. Em 2002, o dirigente, às vésperas da convocação para a Copa do Japão e Coreia do Sul, chamou Romário para um bate-papo no restaurante do Golf Club. Intencionalmente, o encontro com o então craque logo chegou ao conhecimento da imprensa. Na época, Luiz Felipe Scolari não se sentiu intimidado e manteve Romário fora da lista.
Teixeira e Paiva queriam sigilo e pediram discrição a Muricy. Tanto que o treinador chegou ao Itanhangá num carro dirigido por Victor Rios. A entidade pretendia anunciar o nome do novo treinador no fim da tarde, por meio de uma mensagem em seu site oficial. O objetivo da CBF era dar tempo para que Muricy comunicasse a decisão à diretoria do Fluminense. Isso evitaria constrangimentos. Mas houve um contratempo. O clube, localizado numa das áreas mais nobres do Rio, abriga uma etapa do Campeonato Brasileiro de Golfe, competição que ontem atraiu uma equipe de reportagem da ESPN Brasil.
Não havia como impedir a entrada da imprensa ao Golf Club e logo a informação começou a ser veiculada. Os dirigentes e Muricy ficaram reunidos por uma hora e meia. O técnico deixou o Itanhangá pouco antes do meio-dia e disse apenas que estava muito feliz e que gostaria sim de comandar a seleção. "Quero [ser o técnico da seleção], lógico". Dali, ele seguiu para reunião com o presidente do Fluminense, Roberto Horcades. Tentaria sua liberação de forma amigável, uma vez que a CBF exige exclusividade.
Minutos depois, Teixeira, em entrevista à TV Globo, disse que Muricy teria todas as condições para tocar o projeto de renovação da seleção, no entanto, fez uma ressalva. "Espero que ele possa confirmar a aceitação, em seguida a gente escolhe o restante da comissão".
No início da tarde, em entrevista ao site Terra, Muricy foi incisivo. Disse que se o Fluminense não o liberasse, ele não assumiria a seleção. "Se o Flu não me liberar, o papo vai ser encerrado. Eu tenho que dar exemplo para os meus filhos. O Fluminense me buscou em São Paulo e eu não posso deixá-lo na mão Se o Flu não liberar, eu não vou", afirmou.
Pouco antes, o presidente do clube tricolor, Roberto Horcades, atendeu ao telefonema da reportagem bastante exaltado. Aos gritos, ele nem esperou a primeira pergunta. "Se for para falar de Muricy, ele tem contrato em vigor. Manda a CBF chamar o Mano Menezes".




