
A eleição para a presidência da Federação Paranaense de Futebol (FPF), na segunda quinzena de março, envolve mais que a parte esportiva. Alianças políticas veladas, relações dos candidatos com várias instâncias dos governos e interesses partidários mesclam-se em meio à disputa.
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O atual presidente da Federação e candidato à reeleição, Hélio Cury, por exemplo, terá dois vices vindos de correntes políticas opostas no plano estadual. O ex-árbitro e deputado estadual eleito Evandro Roman é filiado ao Solidariedade, partido aliado ao governador Beto Richa ele herdou a base de votos de Eduardo Sciarra, deputado federal que desistiu da reeleição para coordenar a campanha de Richa e hoje chefe da Casa Civil do governo estadual. O outro vice definido, Reginaldo Cordeiro, é secretário municipal de urbanismo de Curitiba, filiado ao PDT, e intimamente ligado à gestão Gustavo Fruet, rival de Richa.
Ao mesmo tempo, o vereador Jairo Marcelino, que também é do PDT, está com o candidato Ricardo Gomyde, que desafia Cury nestas eleições. O nome de Gomyde foi sugerido por integrantes do governo federal, que apóia a administração Fruet.
"É uma confusão", define Emerson Cervi, cientista político e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), ao analisar o emaranhado formado no desenho das chapas concorrentes ao comando do futebol local. "Essas coligações não formam um bloco coeso de apoio", comenta.
"A eleição da Federação tem a sua própria lógica. O apoio pode vir do governo federal, estadual, municipal, mas na hora segue seus próprios padrões. É uma relação mais genérica, abstrata, direta e sujeita a traições", analisa Ricardo Costa de Oliveira, cientista político e professor da UFPR.
Ele cita o fracasso de Rafael Iatauro, chefe Casa Civil do governo Roberto Requião, derrotado na eleição de 2008, pelo próprio Cury, por 64 votos a 15.
"Nos anos 70, o Anibal Khury, grande articulador político na Assembleia Legislativa, dizia que o futebol era a pós-graduação da política, onde aprendeu muito", conta Oliveira.
Khury foi presidente do Atlético no biênio 1976/77.
Cervi ressalta que o vínculo entre futebol e política é muito antigo, mas nem sempre se transforma em capital eleitoral, sendo o caminho do esporte para a política mais fácil que o inverso.
O embate da FPF envolve perfis opostos. "A chapa do Hélio Cury se desenha mais conservadora. Esse continuísmo é interessante especialmente para os clubes do interior, que cresceram consideravelmente nos últimos anos. O próprio apoio declarado do Alvaro Dias reforça esse conservadorismo, como político tradicional que é", diz Luiz Demetrio Janz Laibida, que desenvolve tese de doutorado sobre a relação entre futebol e política no Paraná.
"Já a chapa do Gomyde tem essa relação com o governo federal, indica uma visão mais global, desvinculando de certas tradições locais", completa. "Pode-se analisar o apoio do [Mario Celso] Petraglia e do [Rogério] Bacellar como exemplo dessa característica, pois ambos têm esse conceito empresarial do futebol. São quase contemporâneos, têm a mesma formação em Direito, são empresários e têm visões parecidas do futebol", afirma Laibida.
A presença na Federação também pode ter seus reflexos em eleições futuras, como o fortalecimento dos envolvidos e garantindo contato com clubes e ligas esportivas vistas como bases eleitorais em potencial. O vereador Jairo Marcelino (PDT), por exemplo, tem participado da articulação na oposição e tem como grande trunfo sua ligação com os times da suburbana e sua penetração nos bairros.
Isso não passou despercebido ao governo estadual. "Podemos ter divergências no campo político, mas o Gomyde está à frente de um processo para melhorar o futebol paranaense e terá nosso apoio", afirma o secretário estadual de Infraestrutura, Pepe Richa, irmão do governador Beto Richa.



