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Ciclismo

Escândalo de doping expõe “ditadura” da CBC

Temendo retaliações, atletas não admitem publicamente, mas a insatisfação com a forma de a Confederação ser gerida é clara

Há duas semanas a ESPN Brasil fez a denúncia: divulgou uma lista de cinco ciclistas que caiu nos exames antidoping em provas internacionais realizadas em solo brasileiro, repassada à emissora pela União Internacional de Ciclismo (UCI). Alguns atletas afirmaram que a Confederação Brasileira de Ciclis­­mo (CBC) estaria acobertando o fato para não manchar sua imagem perante o patrocinador, Ban­­co do Brasil, com quem negocia a renovação do apoio financeiro.

A acusação é séria e de difícil comprovação. Trata-se da palavra dos ciclistas – que tecem poucas críticas publicamente, preocupados com retaliações – contra a da CBC, que pouco está disposta a prestar esclarecimentos. O fato, porém, escancara a dificuldade de relacionamento da entidade com quem teria de apoiar.

O vice-presidente da CBC e procurador-geral do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD,) Paulo Schmitt, rechaça qualquer possibilidade de a entidade omitir casos de doping. "A Confederação não omite, não se omite, não tolera e não deixa de divulgar. É uma infração como qualquer outra e merece apuração", defende.

O discurso dele é oposto ao do presidente, José Luís Vasconcellos. Via e-mail, o dirigente afirmou à Fo­­lha de S. Paulo que nem a UCI informa os resultados dos testes, como justificativa para também não mostrar as condenações nacionais. A Gazeta do Povo tentou entrevistar Vasconcellos nas duas últimas semanas. Porém não teve retorno até o fechamento desta edição.

"Tudo começou com a Clemilda [Fernandes, atleta da seleção olímpica em Pequim]. Há dois anos está 'positiva' e sempre falam que está afastada por problema no joelho...", diz um ciclista, que pediu para não ser identificado. Vasconcellos declarou ao jornalista José Cruz, em fevereiro, que a suspensão era por comportamento antidesportivo. Mas esta semana Schmitt confirmou: "Ela tem uma condenação de doping no Giro da Itália, foi declarada suspensa por dois anos".

Mesmo entre os que condenam a forma como a atual diretoria conduz a CBC, há quem ache pouco provável os ciclistas serem induzidos a esconder os casos. "O problema é quando falam que foi 'al­­guém' que mandou. Os atletas estão fazendo como o [Floyd] Lan­­dis fez com o Lance [Armstrong, sete vezes campeão da Volta da Fran­­ça, que enfrenta acusações do ex-colega de equipe, de que competiria dopado]. Ninguém é obrigado a nada", diz Edson Ferreira, o Nescau, técnico da GF Ciclismo/Unilance/São José dos Pinhais, equipe líder do raking nacional na pista.

Finanças

A acusação de acobertamento do doping levantou outras insatisfações com a CBC, como a falta de transparência na aplicação das verbas e de trabalho conjunto com as federações. O relatório do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) aponta que 72,9% do R$ 1,2 milhão repassado à Confe­­de­­ração em 2009 foram gastos em competições, e apenas 0,8% in­­vestido nos atletas.

"Já falei para ele [Vasconcellos] que instituiu uma ditatura", diz o presidente da Federação Para­­naense de Ciclismo (FPC), Sidney Marlon de Paula. Segundo ele, as provas da CBC não contam com a participação das federações. "A Volta do Paraná, por exemplo, que é no estado-sede da Confederação [em Londrina], leva o símbolo da FPC, mas nem sei quando é. Che­­gou a um ponto que prefiro não me meter, porque a CBC decide quando e como. E não quer conversa."

Um ex-dirigente da CBC afirma que grandes nomes do ciclismo brasileiro não se interessaram em manter contato com a entidade após encerrar a carreira, deixando de fomentar o esporte. "O Mauro Ribeiro e o Luciano Pagliarini são alguns deles", diz.

Seleções

O gerente da DataRo/Foz do Iguaçu, Rogério Fagundes, não tem críticas à CBC. Mas a equipe só foi filiada à entidade até o ano passado. Como optou por competir internacionalmente, agora é vinculada diretamente à UCI. Ele faz apenas uma sugestão: "Poderia investir em uma seleção permanente para fomentar a alta performance".

Nescau vai além. Para ele é preciso saber, com antecedência, quais os critérios para participação em competições internacionais e formação das seleções, tanto na estrada quanto na pista. "Ainda não criaram o ran­king de velocistas e fun­­distas.O ranking de 2011 ia ser divulgado no final do mês passado, e ,até agora, nada. Fica difícil até para eu informar meus patrocinadores, a mídia e programar as metas", diz.

Antidoping

Embora a CBC informe ter realizado 181 exames em provas chanceladas pela UCI nos últimos três anos – média de cinco por mês –, não é o suficiente. "No último Brasileiro de pista, em Maringá, não teve antidoping. A prova formou a seleção para o Pan-Americano da Colômbia", diz Nescau. "Nunca vi isso: ciclistas preocupados em procurar comissários antidoping na véspera das largadas. Em qualquer outro lugar, tem-se certeza de que estarão lá", afirma outro ciclista.

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