
Nunca o orçamento do esporte brasileiro foi tão robusto. Quadriplicou nos últimos dez anos. Motivos para comemorar? Nem tanto. O esporte ganha, mas não leva.
Levantamento realizado pela ONG Contas Abertas revela a discrepância entre os valores previstos e os efetivamente destinados ao setor no país reduto dos principais eventos esportivos mundiais nesta década, com a Copa do Mundo-2014 e Olimpíada-2016.
O estudo trata da evolução dos recursos federais para o esporte brasileiro ao longo dos anos 2000. Um montante de crescimento significativo: passou de R$ 578,2 milhões autorizados no orçamento de 2000 para R$ 2,3 bilhões em 2010.
Contudo, dessas cifras, entre as duas pontas da década, apenas cerca de 30% ajudaram a promover o esporte R$ 184,8 milhões em 2000 e R$ 778,9 milhões em 2010.
"Há uma diferença muito grande entre o que está previsto e o que realmente é pago", ressalta o secretário-geral da ONG Contas Abertas, Gil Castelo Branco. Ele mesmo aponta alguns dos motivos para a acentuada defasagem entre o total anual autorizado no orçamento da União e os valores repassados.
"Muitas vezes esses valores crescem graças às emendas parlamentares, voltadas para o esporte. Entra como um valor autorizado, mas nem sempre é liberado ou realizado naquele exercício [fiscal]", justifica.
"Parece uma boa iniciativa. Mas, muitas vezes, é um desperdício. O deputado escolhe a sua emenda, uma quadra esportiva, por exemplo, por conveniências políticas e não para atender realmente as demandas do esporte", explica o jornalista José Cruz, especializado em políticas públicas esportivas.
Ex-secretário nacional do esporte em 1998 (o Ministério próprio só foi criado em 2003), o velejador Lars Grael chegou a fazer palestras aos parlamentares para que as sugestões de emendas ao orçamento atendessem necessidades detectadas pela pasta. Em vão.
"Eles achavam lindo o discurso. Mas era uma questão de sobrevivência política para eles", comentou. "Essa possibilidade de apresentação de emendas parlamentares individuais é um absurdo. É uma relação incestuosa entre o Poder Legislativo e o Executivo, é uma moeda de troca", crticou.
À época, Lars chegou a condicionar a sua permanência no cargo a um acompanhamento da Caixa Econômica Federal sobre esses recursos liberados nessas situações. "Hoje eu nem critico esse ou aquele ministro, porque muitas vezes esse orçamento e onde o dinheiro será gasto é empurrado goela abaixo", reforçou.
Cruz ressalta que no primeiro quadrimestre desde ano, o Ministério do Esporte aplicou apenas R$ 177,9 milhões dos R$ 2,5 bilhões para este exercício. O valor é inferior ao registrado entre janeiro e abril de 2010, que foi de R$ 188,4 milhões .
"A diferença é pequena, em torno de R$ 10 milhões a menos, mas deve-se considerar que a pasta do ministro Orlando Silva conta, agora, com um orçamento mais robusto que o anterior, quase R$ 1 bilhão a mais para seus diferentes programas", aponta.
"Na ponta do lápis, e para que melhor se entenda a comparação, nos primeiros quatro meses de 2010 o Ministério já havia aplicado 11,64% de seu orçamento; este ano, apenas 6,97% no mesmo período", acrescenta.
O Ministério do Esporte foi procurado para comentar os números, mas não deu retorno à reportagem.



