
Enquanto o circuito mundial de surfe começou a realizar o exame antidoping nesta temporada, desde o ano passado os testes deixaram de ser feitos nas competições ocorridas no Brasil.
Um dos precursores do controle ao uso de substâncias proibidas nas praias brasileiras os testes entraram na lei em 2004 , o país pegou a contramão da história por falta de estrutura. E dinheiro.
De acordo com a Associação Brasileira de Surfe Profissional (Abrasp ), a decisão foi tomada pela inexistência de um tribunal de justiça específico. Dessa forma, se o atleta fosse punido, não tinha como garantir a ampla defesa preceito básico do direito.
"A gente pediu que a Confederação Brasileira de Surfe [CBS] fizesse um tribunal, pois ela é a única que pode instalar isso. Como ainda não avançou, foi uma maneira de pressão [não realizar o exame em 2011]", diz Marcelo Andrade, executivo da Abrasp.
A única punição por doping aplicada pela associação foi dada a Jihad Kohdr, que em 2007 perdeu o título brasileiro por se negar a participar da coleta para averiguação clínica. A discussão acabou na esfera cível, as partes chegaram a um acordo, mas o troféu não voltou ao atleta de Matinhos.
"O Jihad buscou seus direitos alegando que a questão toda tinha de ser julgada pelo tribunal [desportivo]. Então não adianta fazer o exame no cara, pois não tem quem decidir pela punição ao atleta, ele não tem instância para recorrer... Como funciona isso? Daí o cara entra na justiça e a gente tem um desgaste grande", fala Andrade.
Jihad foi punido tendo como base o livro de regras da entidade. O caso acabou levado ao Superior Tribunal de Justiça Desportiva, que rejeitou a pauta por ser "apenas de futebol". "Essa é a minha maior bronca, não havia um tribunal para decidir isso e mesmo assim ele perdeu o título", afirma Rodrigo Tusca, na época o empresário da promessa das ondas.
A versão da CBS é de que o problema não seria a falta de um colegiado mas sim de dinheiro, já que os testes custam caro, e quando o patrocinador não banca, a prática se torna inviável.
"Nós continuamos fazendo o exame nas competições de base", assegura o presidente da entidade, Adalvo Argolo. Ele aponta esse fator como um dos motivos para que não se tenha tido nenhum caso de doping confirmado entre os profissionais nos anos em que os testes foram realizados. "No Filipe Toledo, campeão mundial mirim, por exemplo, a agência internacional antidoping [Wada] fez um exame surpresa na casa dele."
Uma das razões para a implantação dos testes no surfe mundial seria possibilitar que a modalidade se torne olímpica. No caso do Brasil, isso garantiria uma verba extra do Comitê Olímpico Brasileiro (COB). Mas, mesmo sem a verba, a Abrasp garante que este ano retomará a vigilância nos atletas. "Estão tentando ver isso, pois não é muito barato. O surfe não é olímpico, não tem dinheiro, vive fazendo torneios com apoio de prefeituras ou marcas do próprio surfe. Mas vamos voltar a fazer o exame neste ano", promete Andrade.



