
Sem tradição com a bola nos pés, a China trabalha na surdina para fortalecer seu mercado interno. Com investimento pesado, o país asiático vai se transformando em promessa de Eldorado para os jogadores de regiões mais prósperas no futebol. A peregrinação inclui muito "pé de obra" brasileiro.
De 2002 a 2010, período fornecido pela CBF, o Brasil enviou 153 jogadores para o incipiente campeonato chinês. No ano passado, 23 atletas nascidos por aqui jogavam do outro lado do planeta mesmo sem tradição alguma no esporte, já é o 15.º campeonato estrangeiro com mais presença verde-amarela.
A intenção é clara, pegar carona no aguardado boom do futebol nesta superpotência econômica e esportiva. E a explicação está na estratégia adotada pelo mercado comunista: oferecer altos salários e atrair atletas de maior qualidade para melhorar, por tabela, o nível técnico da Liga. Um círculo vicioso, mas para o bem.
No ano passado, o meia argentino Conca, por exemplo, foi para lá, contratado por cerca de R$ 15,5 milhões com ganhos mensais de quase R$ 2 milhões. O francês Nicolas Anelka é outro que, em 2012, desfilará no campeonato vermelho.
Os clubes estrangeiros também estão de olho no crescimento do interesse pelo futebol na nação mais populosa do mundo. O pensamento está no grande potencial consumidor, tanto que gigantes como Real Madrid e Manchester United costumam ir até a China em suas pré-temporadas. No Brasil, em uma estratégia de marketing, o Corinthians trouxe um chinês para compor o elenco.
José Carlos de Oliveira, de 64 anos, o Zequinha, foi um dos primeiros brasileiros a se aventurar nos estádios chineses. Recebeu um convite por, nos tempos de Atlético, ter trabalhado com a comissão técnica da seleção sub-20 do país, que passou um período no Rubro-Negro. Logo na primeira temporada, em 2000, o time conquistou um inédito título da Segunda Divisão.
Pronto. Foi o suficiente para se tornar ídolo. Emendou trabalhos na região até 2006. Após quase cinco anos parado, aceitou uma nova missão e assumiu o Wuhan Zhongbo, equipe modesta na terra de Mao Tse Tung. "Eu não estava mais a fim de ir, mas agora estou com a saúde boa [já sofreu dois enfartes] e a China é um lugar gostoso, tenho pessoas conhecida no clube. Quero ajudá-los", conta ele, que encara 30 horas de viagem para participar de sua 8.ª temporada na competição.
O guarapuavano Cléo, ex-jogador do Atlético, é outro paranaense na terra da Grande Muralha. Ele aceitou o convite para atuar no Guanghzou Evergrande, o time de Conca, no ano passado. Mesmo fora de boa parte da temporada por causa de uma lesão, o atacante conseguiu marcar dez gols na última temporada. "O clube montou uma base para ser campeão e conseguimos", vibra.
Os bons salários têm como contraponto o processo de adaptação a uma cultura bem diferente da brasileira. "Fui bem tratado quando estive lá, mas a gente sente muito a questão do idioma e da alimentação", relembra o ex-jogador Marlon Lopes que, em 1999, deixou o Paraná para passar cerca de três meses na China.
"Não é comum no dia a dia, mas oferecem as comidas exóticas como escorpiões e cobras. E a comunicação funciona só por meio do intérprete. É difícil usar metáforas do futebol e os chineses são ruins de mímica", diz o experiente Zequinha, entre risos.
Apesar disso, os brasileiros afirmam que há espaço para o futebol avançar em larga escala na região como tudo que diz respeito ao gigante oriental. Um passo importante foi dado há cerca de três anos ao se investir contra a corrupção nos jogos.
Acusados de envolvimento em esquemas de compra e venda de partidas começaram a ser julgados em dezembro do ano passado. O próprio Zequinha admite que chegou a receber uma proposta para entregar jogos na temporada de 2003. "Larguei o clube e denunciei. Esse tipo de coisa atrapalhou muito o futebol por lá, contaminou os jogadores e tirou o interesse de muitos torcedores", opina.
"O pessoal gosta de futebol, enche os estádios. Os clubes estão se estruturando e vão investir cada vez mais, então a liga vai crescer. Só tem que dar tempo para isso", reforça Cléo, que começa a criar raiz em uma China ainda figurante com a bola nos pés. Henrique, filho de cinco anos do atleta, é prova disso. Ao cumprimentar outro garoto em uma praça de Guarapuava, solta um simbólico Ni hao oi, em mandarim.
Talvez para essa geração, a distância entre a qualidade do futebol praticado por lá e a concretização do sonho de superpotência da bola chinês já seja bem menor.



