
Falta de transparência, planejamento e informação. Mais visibilidade para a cidade e experiência para organizar outros eventos. Passada a onda de sotaques com a movimentação de 214,5 mil turistas, do futebol transpirando pela cidade, dos quatro jogos com 157 mil pessoas na Arena da Baixada em junho, a Copa do Mundo foi sentida de maneiras distintas pelos paranaenses.
A percepção local em relação ao evento Fifa foi tema de um trabalho realizado pelo Grupo Paranaense de Comunicação (GRPCOM) e o Instituto Superior de Administração e Economia (Isae). "Muita coisa já havia sido dita e fomos bombardeados com milhares de dados estatísticos. Mas e quanto à percepção das pessoas? Quando se fala de percepção não se está julgando o certo ou o errado, apenas o que foi percebido", explicou o Coordenador Acadêmico do Centro de Pesquisa Isae, Carlos Alberto Ercolin.
Para identificar o que a população sentiu da realização do Mundial, um questionário foi enviado nas últimas semanas a mais de 120 mil pessoas residentes na Grande Curitiba e na região de Foz do Iguaçu, cidade base da seleção sul-coreana e que recebeu uma grande leva de turistas.
Em vez de chamar de pesquisa, e consequente necessidade de uma estratificação da população, o Instituto preferiu usar todos os questionários respondidos, sem precisão metodológica, e definindo o trabalho como sondagem.
Foram 2.458 respostas, além de questionários detalhados com oito entrevistados, entre eles pessoas envolvidas na organização do Mundial, como o coordenador geral para assuntos da Copa do Mundo 2014, Mario Celso Cunha, e do presidente do Instituto Municipal de Turismo, Paulo Colnaghi (ver respostas nesta página).
O levantamento foi dividido em dois grandes temas, a Governança (que leva em conta transparência, prestação de contas, responsabilidade, equidade na administração) e a Sustentabilidade (consciência em relação aos impactos sociais, ambientais e econômicos).
Um dos principais pontos identificados foi falta de informação à população de princípios que nortearam a organização da Copa. "Várias situações aconteceram e as pessoas nem sequer ficaram sabendo. Para a população, é como se não tivesse existido", explica a colaboradora do Centro de Pesquisa do Isae, Maíra Ruggi.
Ela usa como exemplo a proposta da Fan Fest, em Curitiba, que recebeu 110 mil pessoas durante o Mundial. "Existia a preparação dos resíduos, o tratamento e o encaminhamento às pessoas responsáveis, para que houvesse não só a reciclagem, mas também uma alternativa econômica para as pessoas que trabalham com isso. Dentro do que é correto em níveis mundiais, nós certamente atingimos a meta", opinou Igor Cardoso, responsável pelo espaço de transmissão dos jogos na pedreira Paulo Leminski.
"Era o momento de alavancar esses conceitos e houve uma falha na divulgação, tanto por parte de mídia, mas dos próprios organizadores que não informaram corretamente, talvez pelo ineditismo do evento. Era a oportunidade de capitalizar, explorar os benefícios do que deu certo", reforçou o professor.
O custo empregado no Mundial foi um ponto bastante mencionado. Apenas 13% consideram que houve transparência. Teria havido falha em se explicar as diferenças entre o orçamento original e o gasto real (muito superior), além dos motivos que levaram a cidade, no início apontada como uma das mais avançadas para receber a Copa, depois ser inclusive ameaçada de ficar de fora do evento.
Com relação ao legado, muitos consideram provável o aumento no fluxo de turistas, por causa da alta taxa de aprovação obtida pela cidade por parte dos visitantes. Para 60% dos entrevistados, as lições aprendidas com a Copa podem servir de experiência para a realização de outros eventos de grande porte.
"A partir da coleta da pesquisa percebe-se que a Copa do Mundo de 2014 foi um processo árduo, com resultados positivos. O que se viu foi um grande evento, porém com um gap entre o realizado e o percebido pela população. Assim, fica o aprendizado para aprimorar o mecanismo de comunicação", comentou o presidente do Isae, Norman Arruda Filho.



