
Cinco anos. No máximo até o fim desse período o mundo da luta estima conhecer um campeão diferente. Graças ao crescimento e à popularização do MMA (artes marciais mistas, na sigla em inglês) começa a surgir uma nova geração de lutadores, os especialistas em vale-tudo.
Se antes a regra era o atleta migrar de uma modalidade específica para colocá-la à prova no MMA à medida em que buscava novos recursos técnicos , agora a tendência é ampliar conhecimentos logo de cara. Nas academias, é cada vez mais frequente o treino generalista. Esses lutadores já "nascem" experts nas artes marciais mistas.
Pode ainda não ser um estilo próprio, mas já é um esporte. E bilionário, especialmente nos Estados Unidos. Lá se digladiam os maiores lutadores do mundo e o UFC (Ultimate Figthing Championship) começa a exigir uma formação cada vez mais versátil a quem quer subir no octógono e vencer.
"Com certeza houve uma evolução. Antigamente o lutador vinha de uma luta de origem e depois se aprofundava em outros fundamentos. Basicamente, englobava técnicas de jiu-jítsu, muay thai, boxe, wrestling e judô. Hoje o atleta moderno já faz um pouco de tudo", reconhece Rudimar Fedrigo, fundador da academia Chute Boxe, onde começaram a ser forjados vários campeões mundiais, como Wanderlei Silva, Maurício Shogun e Anderson Silva.
"Vimos que era um caminho de retorno financeiro mais rápido do que outras lutas e cada vez mais atletas se interessavam em fazer o MMA. Uma exigência do lutador moderno. Mesclamos essas artes nos treinamentos. É um treino picado. Um supletivo da luta", explica Fedrigo.
A rotina do novo competidor inclui uma agenda variada. Nada de luta em pé em um horário e trabalho de chão no outro, por exemplo. E muita atividade física. "É treino de MMA mesmo. Tenta o estrangulamento do jiu-jítsu e golpeia com socos. Dá o chute do muay thai e prepara a queda. Tudo combinado", explica o técnico Ericson Cardoso. Ele treina, no Guarujá, uma das promessa do país nesse novo molde de lutador produto do MMA. Charles "du Bronxs" tem 21 anos e é chamado por alguns fãs de "Neymar do UFC".
O jovem construiu sua base no jiu-jítsu, chegou a viajar para Curitiba para aprimorar o muay thai e teve uma experiência importante entre os lutadores de ponta: a presença em torneios amadores de MMA. Nesses eventos as regras são mais rígidas e usa-se capacete, caneleiras e luvas mais macias. "É um novo estilo que tem se popularizado muito. Cresceu demais. Hoje recebo crianças a partir de 12 e 13 anos que querem o MMA", acrescenta Cardoso.
Entre os lutadores mais consagrados, dois nomes despontam como símbolos da versatilidade, mesmo seguindo a antiga escola. A nova estrela do octógono é o norte-americano Jon Jones. Em sua última luta no UFC, ficou com o cinturão do curitibano Maurício Shogun, nos meio-pesados. Apesar da base forte no wrestling, ele migrou rápido para os treinos em várias modalidades. O canadense Georges St. Pierre, carateca de origem para fugir do bullying na infância , se especializou também em boxe, wrestling e jiu-jítsu e é considerado um dos mais completos na galeria dos campeões do UFC.
Toda essa evolução é quase um golpe à origem do vale-tudo. A família Gracie desafiava lutadores de várias modalidades para provar que o jiu-jítsu criada para a defesa por monges budistas era mais eficiente do que qualquer outra arte marcial. Ainda mais naqueles anos 30, quando não havia nem regras e nem tempo para as lutas.
O combate no solo propagado pelos Gracie criou fortes raízes no Rio. Curitiba foi a porta de entrada do tailandês muay thai no Brasil, há mais de 20 anos, e o talento nos golpes e chutes trouxe fama internacional à cidade.
O apego a cada uma das artes mesmo que outras fossem incorporadas ao vale-tudo acirrava a rivalidade. A vitória era como um nocaute no estilo adversário. Hoje a febre do MMA desafia todos os estilos.



