
Facilidade para se relacionar, ter curso superior completo, dominar mais de um idioma. Importante: saber administrar vaidades. E, é claro, ter amplo conhecimento do mercado, com acesso a cartolas, empresários e boleiros. Os referenciais que poderiam muito bem estar no caderno de classificados de qualquer grande jornal do país são alguns dos requisitos básicos para quem quer se aventurar na profissão do momento: gerente de futebol.
O cargo, que até o início da década passada se resumia a resolver questões burocráticas, como agendamento de passagens e a reserva de hotel, cresceu dentro do mundo da bola. Passou a ser o diferencial no organograma dos clubes, com atribuições bem mais importantes, como a contratação de técnicos, montagem do elenco e a criação da tal "filosofia de trabalho", objeto de desejo de nove em dez clubes.
A difícil especialização e o raro espírito de liderança fazem desses managers figuras cada vez mais valorizadas. Em regra, cobram valores altos, perto dos R$ 100 mil. Alguns também se sentem à vontade para ter porcentuais nas cotas de patrocinadores que negociam.
No Brasil, instituições de ensino passaram a promover cursos de administração no futebol, devido à grande procura. Uma febre anterior surgiu na Europa. A Uefa a Federação Europeia começou no ano passado a capacitar pessoas para atuar nesta área. O certificado tem a chancela da Escola Suíça de Administração Pública. A Federação Paulista também promove o chamado Master em Gestão do Futebol, com aulas de planejamento estratégico, marketing e direito esportivo e até economia aplicada.
"É mais do que preciso ter alguém capacitado no comando do futebol, com todas as informações necessárias. As equipes que acharam esse profissional saíram na frente", afirmou o técnico Ney Franco, campeão brasileiro da Série B pelo Coritiba em 2010 e coordenador das divisões de base da seleção brasileira.
O Alviverde pode se considerar um expoente nesta área. Tudo por causa do trabalho de Felipe Ximenes, 44 anos, um professor de educação física que andou por diversos ramos da profissão para ganhar experiência até se encontrar na carreira. Um caminho difícil de ser percorrido, repleto de palestras, curso de especialização e muito, mas muito, contato com profissionais da bola.
Há pouco mais de dois anos no Alto da Glória, Ximenes enfrentou algumas turbulências até ganhar autonomia total, a popular carta branca. A mais pesada quase custou o emprego do executivo.
Logo nos primeiros dias de Coxa, Ximenes viu seu espaço ser reduzido pela diretoria da época. Em meio à falta de resultados, o grupo decidiu na ocasião convocar o médico João Carlos Vialle, ligado à ala do ex-presidente Giovani Gionédis (perdeu para Cirino por apenas um voto no pleito alviverde) e responsável pela vitoriosa campanha na Segunda Divisão de 2007. Racha que terminou de forma traumática, com um novo rebaixamento, desta vez justamente no ano do centenário coritibano (2009).
"Cheguei com um clube e um grupo [de jogadores] divididos. Por isso sempre ressalto a importância de se extrapolar a questão do campo. É preciso autonomia para se tomar decisões. As funções estão acima das pessoas", revelou ele, durante o Footecon, principal fórum de futebol do país, no início do mês o dirigente coxa foi uma das estrelas do evento, no Rio de Janeiro. "Essa capacitação é extremamente importante", reforçou.
Com a ascensão de Vilson Ribeiro de Andrade, Ximenes ganhou o tempo necessário. E, com liberdade, criou as condições para o Alviverde ganhar corpo, voltar à Série A, ser bicampeão paranaense, vice da Copa do Brasil e flertar com a Libertadores. "Sou um catalisador dentro do clube", ressaltou.
"No futebol está tudo muito centralizado no técnico. É preciso mudar", emendou Rodrigo Caetano, um ex-jogador obscuro que cursou Administração de Empresas, retornou ao futebol, e ganhou moral por coordenar o trabalho que levou o Grêmio à final da Libertadores (2007) e reerguer o Vasco na sequência acaba de deixar São Januário por divergências em relação ao planejamento para 2012. O segredo do sucesso é o mesmo de Ximenes: autonomia. "É preciso saber com exatidão aonde se quer chegar", ressaltou, numa frase que serve tanto para o profissional como para os clubes.
Liberdade e autonomia que abreviaram a passagem do ex-volante Beto Amorim pela profissão. Os dois anos na gerência paranista (entre 2008 e 2010), logo após pendurar as chuteiras no próprio Tricolor, serviram apenas como aprendizado.
"Não tinha as condições ideais para ser gerente, apenas intitularam o cargo com esse nome. Com limitações é muito difícil", explicou ele, que terminou recentemente o curso de Educação Física. Entre os problemas que teve de administrar, está a impontualidade no pagamento dos salários dos jogadores, algo recorrente na Vila Capanema.
Beto gostou da experiência, mas quer se aproximar da bola. Talvez ser auxiliar-técnico. Enquanto isso não acontece, usa os ensinamentos garimpados no futebol para organizar o salão de beleza da esposa. Ali, com autonomia total.
Personagem
Paulo Miranda, 37 anos, está em vias de completar a trilogia boleira. Foi jogador de futebol, com passagem por Atlético, Coritiba e Paraná, atua no momento como empresário de atletas em parceria com um amigo francês , mas já projeta sua nova profissão: gerente de futebol.
Ele espera, quem sabe em até um ano, estar comandando o departamento de futebol de algum grande clube recebeu sondagens que não prosperaram do Paraná Clube. "Não era o momento. Preciso viver algumas coisas. Estou aí para aprender", disse ele, apostando em cursos rápidos e no fato de dominar o francês (além de se virar no espanhol), além, é claro, na experiência de ex-volante, para fazer sucesso na nova empreitada.




