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Memória

Há 30 anos, cai-cai manchava futebol paranaense

Histórica decisão entre Colorado, hoje Paraná, e Cascavel ocorreu há três décadas – mas não sai da cabeça dos protagonistas do vexatório episódio

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(Foto: Arquivo/ Gazeta do Povo)
Lances da partida entre Colorado e Cascavel, disputada há 30 anos, que terminou de forma insólita, com os dois times se julgando o campeão estadual |

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Lances da partida entre Colorado e Cascavel, disputada há 30 anos, que terminou de forma insólita, com os dois times se julgando o campeão estadual

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Corria a tarde do dia 30 de novembro de 1980, um domingo. Na Vila Capanema, com apenas 9.340 pa­­gan­tes, Colorado e Cas­cavel fizeram uma inédita e exótica final de Campeonato Para­naense que nunca acabou. O árbitro Tito Rodrigues encerrou a partida porque a Cobra ficou sem o número mínimo de sete jogadores. Fato que completa 30 anos hoje e ainda suscita polêmica – além de macular a história do futebol local.

O Boca-Negra – apelido do time da casa – precisava vencer por cinco gols de diferença para reverter o saldo do adversário, que liderava o quadrangular final, mas o jogo foi interrompido com o placar de 2 a 0 – o suficiente para o time do interior dar a volta olímpica. Os donos da casa, diante do fato insólito, também vestiram a faixa e festejaram.

Apenas no dia 12 de dezembro a Federação Paranaense de Futebol (FPF) decidiu dividir o título entre as duas equipes, fato inédito e único até hoje no cenário local. O que perdura também é a controvérsia sobre a intenção do "cai-cai".

O roteiro do duelo não deixa dúvida – apesar da falta de unanimidade sobre o caso.

Precisando da vitória, o Colo­rado partiu para cima e abriu o placar aos 5 minutos com Jorge Nobre, após cruzamento do ponteiro Buião. No lance (mostrado na foto ao lado), os cascavelenses reclamam até hoje de choque irregular de Nobre sobre o goleiro Zico. "O clima estava tenso quando percebemos aquela pressão do juiz para cima da gente. O primeiro gol foi irregular. Reclamamos todos e o juiz expulsou o Marcos", conta o ex-ponta-esquerda cascavelense Sérgio Ramos, que hoje trabalha como corretor de imóveis.

Era apenas o primeiro ato de uma revolta interiorana.

Com 23 minutos, o Colorado am­­pliou a vantagem para 2 a 0 – novamente com Jorge Nobre. Aos 38 minutos, atrás no marcador, o técnico do Cascavel, Borba Filho, fez a primeira das então duas substituições regulamentares, ao tirar Paulinho e colocar Maurinho.

Poucos minutos depois, começou uma confusão em campo e Maurinho e Borba Filho foram expulsos. "O Colorado fez um gol impedido. Era complicado. Teve uma altura naquele campeonato que comecei a treinar com dois a menos, pois sempre davam jeito de expulsar dois nossos. Naquele jogo, a gente não conseguia chegar que o auxiliar levantava a bandeira. Fui expulso e depois fiquei dando instrução no meio do povo", reclama Borba, tido como mentor da farsa, algo que nega com veemência.

Sérgio Ramos foi sacado ainda no primeiro tempo para a entrada de Dudu. O substituto não voltou para a segunda etapa, assim como Nelo, ambos vetados pelo médico Antônio Komatsu. Com sete do Cascavel em campo, no primeiro lance após o intervalo o goleiro Zico chutou a bola e caiu no chão sentindo uma duvidosa contusão.

"A gente realizou um campeonato bom, mas não tinha saldo. Tínhamos de golear, mas quando estava 2 a 0, veio o cai-cai", recorda Caxias, zagueiro reserva do Colorado na ocasião.

O árbitro encerrou a partida e o campo foi invadido por torcedores do Colorado, comemorando o título totalmente sub judice.

"Fui eu quem fiz as faixas. En­­trei junto com o Enzo Scaletti, o presidente, e erguemos a taça. Te­­ve festa na Vila com direito a charanga nas quatro pontas do estádio", lembra Renato Trombini, que era o presidente do Conselho Deli­be­rativo e vice-presidente de futebol do tricolor curitibano (um dos embriões do Paraná, ao lado do Pinheiros).

"Teve volta olímpica, faixa e tudo mais... Não lembro se me pagaram os prêmios, mas a faixa eu tenho até hoje e está pendurada na parede da minha casa em Curi­tiba", diz Ary Marques, lateral-direito do Colorado, que atualmen­te é técnico do Cuiabá.

"Depois da final a gente ficou chateado por causa das trapalhadas da arbitragem. Tivemos jogador expulso e prefiro não ficar julgando esses grandes erros", afirma Paulinho Cascavel, hoje empresário do comércio e da construção. A saída dos cascavelenses da Vila foi cercada de tensão. "Saí­mos enfrentando um corredor humano, com direito a ‘pé do ouvido’, mas a gente comemorou como campeão", conta Ramos.

O impasse seguiu por 12 dias. Pelo regulamento, a partida teria como resultado 1 a 0 para o Colo­rado, ou 2 a 0 caso o Tribunal de Justiça Desportiva mantivesse o placar. Ambas as hipóteses dariam o título ao Cascavel.

Na semana seguinte, o presidente da FPF, Luiz Gonzaga de Motta Ribeiro, afirmou que o título deveria ir para o Colorado, mas que lavava as mãos quanto ao regulamento. No dia 12 de dezembro, a Federação decidiu considerar as duas equipes campeãs e, como havia passado o prazo de indicar os participantes do Bra­sileiro de 1981, o Cascavel ficou sem a vaga na Taça de Ouro, sendo o Paraná representado por Colo­rado e Pinheiros.

A decisão não foi bem recebida em nenhum dos dois lados. "Isso foi para fazer uma média com a capital", contesta Ramos. "Desa­gradou, pois o Colorado foi o mais prejudicado. Nós faríamos os gols necessários", rebate Trombini.

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