
Após anos de penúria, o técnico Ademir Nicola Francisco, 56 anos, comemora o que pode ser o início da era moderna do atletismo em Paranavaí. Até junho, devem começar as obras para a instalação da primeira pista sintética, para substituir a de terra que serviu para treinos nas últimas quase quatro décadas.
Desde 1976, então recém-formado no Curso de Educação Física, ele transformou a pista inaugurada um ano antes, em garimpo para encontrar novos talentos. Busca que dura até hoje.
Dezenas de crianças e jovens começaram com ele a dar as primeiras passadas, saltos e lançamentos. E foram lapidados com a criatividade obrigatória de quem tenta fazer o melhor sem ter recursos para isso.
A inventividade para promover a mais clássica das modalidades incluía de sacas de palha de arroz a bambu. Os sacos, cobertos com um fino colchão, servia para amortecer as quedas dos alunos nos treinos de salto. "Os bambus a gente procurava no meio do mato para usar nos treinos de salto com vara. Era precário, mas era o que tinha", conta Ademir, carinhosamente conhecido no meio do atletismo como Mimi.
Outros equipamentos como os martelos, dardos, discos e peso ganharam uma versão caseira. Ademir estudou os materiais, calculou suas especificações técnicas e começou a produzi-los na sua própria casa. A churrasqueira ganhou torno, balança, ferramentas e virou oficina.
O bom resultado ultrapassou divisas e os produtos passaram a ser vendido até para outros estados. "Esse trabalho veio da dificuldade e fomos adaptando. O dardo oficial, por exemplo, custa de R$ 600 a até pouco mais de R$ 1 mil, e não é produzido no Brasil e nem se encontra para vender nas lojas de esporte", explica o treinador. O jeito foi de novo improvisar e criar um semelhante de bambu, que sai por apenas R$ 35 e é usado por iniciantes.
Cada dardo tem de ter um peso certo e ficar equilibrado quando apoiado horizontalmente no dedo. Assim, Ademir precisa furar cada gomo, preencher com areia e ir testando. "É uma terapia", garante. E uma necessidade. "O atletismo é um esporte de rico, praticado por pessoas de baixa renda", comenta. Para ajudar os atletas, ele também compra sapatilhas no exterior, onde são bem mais baratas.
Na hora do treino, mais adaptações. Os saltos são feitos na grama, pois a pista não oferece muita segurança e ninguém fica por perto na hora do lançamento, pois não há proteção na área de giro.
Mesmo com todo esse esforço, contabiliza cerca de 40 atletas que treinaram com ele e que já representam o Brasil em torneios no exterior. Entre os destaques, cita Alessandro Bonfim, hoje com 30 anos, foi campeão mundial juvenil no salto triplo em Moscou, em 1998.
Nos Jogos Abertos de 2011, Paranavaí obteve o maior número de medalhas no atletismo, com sete ouros, uma prata e oito bronzes, com 16 no total. "Quando vejo um lançamento, um salto correto, vibro como se fosse um gol e me sinto como se tivesse dado a assistência no lance", comparou.
O prazer de ensinar o atletismo é reforçado pelo poder do esporte em influenciar na formação longe das pistas. "Por ser uma modalidade individual, a pessoa aprende a superar barreiras e desafios e leva isso para a vida pessoal", diz, convicto.




