
A Corrida de São Silvestre, a mais tradicional do Brasil, tem algumas novidades neste ano. Na largada, que ocorre amanhã às 17h10 para as mulheres do pelotão de elite e 17h30 para o restante, serão 25 mil participantes se amontoando na Avenida Paulista, em São Paulo. Além do número recorde de corredores, o percurso foi remodelado, com a chegada no Parque do Ibirapuera. Porém uma coisa é difícil de mudar: a incômoda presença dos quenianos.
Os corredores do país africano são praticamente sinônimos de São Silvestre. Entra ano sai ano, são sempre os homens a serem batidos, pois normalmente comprovam o favoritismo. A hegemonia é comprovada em números. São 12 vitórias, contra 11 dos brasileiros. Mais do que isso, todos esses triunfos foram conquistados desde 1991, quando o percurso passou a ter 15 quilômetros de extensão.
A explicação para esse domínio não está apenas na questão genética, que privilegia a formação corporal para corridas de média e longa distâncias. Há outro motivo. Onde quer que seja, os quenianos não encaram as corridas como um esporte individual. Para eles, as provas são coletivas.
Em resumo, usam uma espécie de jogo de equipe, muito similar ao que ocorre no ciclismo, com atletas ditando ritmo, revezando-se na ponta e puxando as arrancadas. Mas, ao contrário da modalidade com rodas, essa tática não é algo formal ou combinado. É natural.
"Isso é deles. Não precisam combinar, é algo automático. Saem para a corrida e o importante é vencerem. Eles se ajudam até certa hora e depois é cada um por si. No final não tem essa de deixar o outro ganhar", explica o treinador Moacir Marconi, o Coquinho, que recebe quenianos todos os anos para treinar e competir no Brasil. Aliás, ele é um dos responsáveis pelo sucesso da nação africana nas provas de rua por aqui.
Segundo Marconi, a estratégia melhora muito a qualidade da corrida e mantém o ritmo bastante forte. Algo que nem sempre os brasileiros fazem entre si. "Falta muito [essa cooperação entre os brasileiros]. Nós nos matamos desde o começo da prova. Muitas vezes nem usufruímos dos quenianos", aponta.
Ex-maratonista e várias vezes participante da São Silvestre, o paranaense Vanderlei Cordeiro de Lima explica o motivo de os atletas nacionais não atuam em equipe. E a razão é puramente comercial. "Os brasileiros correm individualmente porque cada um tem compromissos com patrocinadores e não tem como fazer jogo de equipe", diz.
Experiente em provas de fundo foi medalhista olímpico em Atenas-2004 , ele lembra que a estratégia coletiva pode ser eficiente, mas o que vale mesmo é a preparação do atleta. Ou seja, não adianta fazer jogo de equipe se não está bem preparado para correr no mesmo ritmo dos outros.
"Nunca me incomodei com o jogo de equipe dos quenianos. É válido. Mas o que prevalece é a condição física do atleta no dia. Se estiver bem treinado, vai brigar. E quem é atleta e está na busca da melhor performance sabe disso", fecha Lima.
Para desafiar a força queniana na São Silvestre, a principal esperança é Marílson Gomes dos Santos. Atual campeão da prova, ele corre em busca da quarta vitória nas ruas de São Paulo ganhou também em 2003 e 2005.
Para alcançar o tetra, porém, vai precisar bater o já favorito Martin Lel, queniano que faturou três vezes a Maratona de Londres e duas Maratonas de Nova York. Além dele, outros compatriotas chegam lutando pelo título da São Silvestre, como Duncan Kibet, Jonah Kiplagat Kemboi, Kisorio Matthew e Mark Korir.



