
Anderson Silva é o Aranha, Wanderlei Silva é o Cachorro Louco, Lyoto Machida, o Dragão, Thiago Silva, Pitbull. Incorporar um codinome durão é uma marca dos lutadores de MMA (artes marciais mistas, na sigla em inglês). O apelido do paranaense Maykon Costa, porém, não bota medo em ninguém. O parnanguara, escalado para lutar neste sábado, na 35.ª edição do Jungle Fight, em São Paulo, é o Mudinho.
E dificilmente seria diferente. Sequela de uma meningite contraída quando tinha apenas seis meses, a perda da audição e da fala acabou sendo a alavanca para levá-lo aos ringues. A dificuldade de comunicação atrapalhava o relacionamento com as pessoas. Então ele resolveu procurar uma academia atrás de socialização e novas amizades.
O MMA virou hobbie e o talento o transformou em lutador, que encara hoje seu maior desafio. Após nove lutas no Paraná (com cinco vitórias e quatro derrotas), o atleta de 26 anos ultrapassa pela primeira vez as divisas do estado para disputar o principal evento nacional de lutas.
Depois de passar, nas duas últimas edições, pela Cidade de Deus e pelo tradicional Morro da Mangueira, no Rio de Janeiro, o Jungle Fight desembarca no Ginásio do Pacaembu, na capital paulista. Pelo menos no apelido, o oponente do paranaense também não assusta: é Ricardo "Mirrado" Maciel, da filial em Bauru da academia curitibana Chute Boxe.
Maykon é pupilo do lutador John Lineker, campeão do peso galo do Jungle Fight 32 e mais novo contratado do Ultimate Fighting Championship (UFC) (leia mais nesta página). O conterrâneo de Mudinho no litoral paranaense começou no boxe e é responsável pelos treinamentos das lutas em pé. O técnico Marcelo Ribeiro completa o trabalho com os treinos de chão. Tudo sem que nenhum dos treinadores domine a linguagem dos sinais.
"O certo seria falar libras [linguagem brasileira dos sinais]. Apesar de tudo, a gente se entende. A convivência ajuda bastante", conta Ribeiro. A hora do combate é a mais complicada e os treinadores recorrem à tecnologia para compensar o silêncio no corner.
"Ele acaba lutando sozinho. Porque não adianta falar e ele também não pode desviar o foco do oponente. Quando consegue dar uma olhadinha, faço sinais para ele ter calma, avançar, recuar. No intervalo, mostramos as orientações em mensagens de texto no celular", revela.
Se a surdez pode ser um ponto desfavorável, a concentração de Maykon durante a luta é imbatível. Nada lhe tira a atenção, assegura Marcelo Ribeiro.
"A luta é a minha paixão. Quando estou no tatame encontro o equilíbrio do meu corpo e da minha mente. Me sinto livre, leve. Em uma luta, não escuto nada ao meu redor, mas sinto a vibração da torcida e entro no meu mundo. O mundo da luta", explicou Mudinho, através da linguagem dos sinais e com ajuda do tradudor Wilson Leandro, que acompanhou a entrevista.
"Apesar de ter esse problema auditivo e na fala, eu acho que ele terá um futuro brilhante, pois batalha muito e se transforma quando sobe no ringue", reforça John Lineker.
Funcionário de uma fábrica de margarina, casado e com uma filha de três anos, Maykon garante estar bem preparado para o combate e espera que a luta de hoje abra mais espaço para ele no cenário do MMA.
Mas Mudinho já tem o que comemorar. Considerado bastante tímido quando começou a treinar, há dois anos, hoje é muito querido pelos colegas por causa das brincadeiras e até pelas piadas que "conta" com gestos. O resto ele espera conquistar com seus golpes.
"Lutar me faz feliz. Tenho prazer em treinar. Quando mais novo tinha dificuldade de me relacionar por ser surdo. Mas no tatame tudo muda. Sou igual a todos que estão ali. Posso lutar de igual para igual com qualquer um."



