
Nove meses depois de árbitros e assistentes cruzarem os braços em protesto contra a violência, a insegurança persiste nos gramados das equipes amadoras de Curitiba. No dia 7 de novembro de 2009, na partida entre Caxias e União Ahú, no Boqueirão, pela Série B da Suburbana, 30 pessoas agrediram o árbitro Anderson Scátola e os assistentes Júlio Cezar de Lima Santos e Jefférson Piva. Scátola e Piva ficaram com escoriações pelo corpo e Santos chegou a ser hospitalizado. Após a agressão, 50 integrantes do quadro da Federação Paranaense de Futebol (FPF) praticamente todos os membros da capital assinaram um protesto e cruzaram os braços por uma rodada.
"A partir do protesto, a situação ficou boa até o fim do ano passado. Esta temporada, a coisa voltou a ser como antes. Somos só nós três [juiz e dois bandeiras] e Deus para garantir nossa própria segurança", relata um árbitro que prefere não ter a identidade revelada.
Não declarar o nome é um sintoma do medo. Na mesma situação, outros dois árbitros pediram anonimato. Temem represália política e claro nos campos.
O presidente da Comissão de Arbitragem da FPF, Afonso Vítor de Oliveira, reconhece o problema no futebol amador, mas não vê uma solução. "Já era assim quando eu comecei a apitar em 1969 e deve continuar. Infelizmente, todo árbitro passa por isso", resigna-se.
No objetivo de chegar ao quadro da Fifa, no qual o árbitro recebe R$ 2,8 mil de taxa por partida e cada assistente R$ 1,4 mil, membros do quadro da FPF são obrigados a atuar nas partidas amadoras em Curitiba. Caso se neguem a atuar em algum jogo, correm o risco de ficar fora das próximas escalas, vendo o sonho terminar.
"Os árbitros são reféns dessa situação. Não tem quem goste de apitar Suburbana pelo risco, mas eles são obrigados. O cara só apita porque tem o sonho de chegar ao profissional", afirma o ex-árbitro Renato Vieira Júnior, 41 anos, que se aposentou por causa de uma tendinite no calcanhar esquerdo.
Nos nove anos em que atuou como mediador, de 1998 a 2007, Vieira teve de sair escoltado pela Polícia Militar em seis partidas do futebol amador. "Tem horas que você pensa não vale a pena. O risco é muito grande e você ganha muito pouco. O cara só fica pela paixão mesmo", explica.
Na Série A da Suburbana, os árbitros recebem R$ 140 por partida da categoria adulta e R$ 80 da júnior. Já os assistentes recebem R$ 100 para atuar no mesmo dia em uma partida dos juniores e outra da adulta. Isso sem policiamento no local.
"O assistente sempre torce para que o primeiro jogo não dê confusão. Porque se der, o segundo vai ser um inferno", relata o árbitro anônimo do início da reportagem. "Sabemos que o efetivo policial é pequeno, que não tem como deixar uma viatura em um único lugar por quase duas horas", argumenta. O principal estopim, aponta, são os cartolas das equipes. "Os dirigentes do futebol amador na verdade são torcedores. Muitas vezes, eles ficam se alcoolizando e inflamando a torcida contra a arbitragem", aponta.
Se der briga, resta ao trio de arbitragem apenas correr para o vestiário e se trancar até a chegada da PM. "Por isso sempre que saio para apitar uma partida peço para minha mãe ficar rezando por mim, porque eu vou, mas não sei se volto para casa", fecha outro, com garantia que sua identidade não será revelada.






