
Na sede do Arapongas Esporte Clube, o presidente Adir Leme assina um cheque atrás do outro, separa dinheiro vivo para o acerto de pequenas contas e sai às pressas para pegar o horário de banco ainda aberto. Na tarde de sexta-feira, a movimentação do dirigente era para deixar tudo em ordem antes da rodada decisiva da Segunda Divisão, hoje.Sem atrasos de salários ou nenhum outro pagamento, o Arapongas depende apenas de si, frente ao eliminado São José, às 15h15, no Estádio dos Pássaros, para voltar à elite estadual após 19 anos. Também com estrutura considerada boa para a Segundona, o vice-líder Roma e o ponteiro Foz do Iguaçu fazem confronto direto no mesmo horário, em Apucarana.
Só uma das três equipes vai terminar o domingo lamentando seguir fora da Primeira Divisão paranaense. Pelo que se viu durante a competição, são só as três mesmo que possuem condição para subir à elite.
Nos demais dez clubes que participaram do torneio, as notícias nunca foram boas. O São José, da região metropolitana de Curitiba, teve média de público de 22 pagantes. Chegou a ter jogo frente ao Campo Mourão sem ninguém comprar bilhetes.
A equipe mourãoense, por outro lado, ameaçou desistir da disputa após se ver eliminada na fase decisiva. Apesar de ter continuado, não se sabe o que irá acontecer hoje, quando viaja para pegar a também desclassificada Portuguesa Londrinense.
Sina da administração de Hélio Cury na Federação Paranaense de Futebol, passar uma competição ser ter nenhum WO parece um desafio inatingível.
"É a Federação que varzeia o campeonato. Os caras podem perder uma de WO que não são eliminados", lamenta o meia Safira, destaque do Roma na briga pelo acesso.
Sem o incômodo da falta de condições, em Apucarana o time local vive em uma realidade simples, mas bem aceitável. Os jogadores chegam a pé para o treino, enquanto camisas, calções e meias estão estendidos pelas grades nos fundos do Bom Jesus da Lapa. Mas obviamente há diferenças para as grandes equipes do estado.
"É só você ver o campo que a gente joga e treina que verá a diferença. Mas aqui a estrutura é boa, salário em dia...", diz Safira, que pertence ao Corinthians Paranaense, está emprestado ao Roma, e aos 27 anos ainda sonha em chegar às equipes grandes.
Desejo parecido tem o técnico Lio Evaristo, do Arapongas. Conhecido pelo trabalho especialmente nas categorias de base do Atlético, o treinador está há três meses no Norte do estado e não se arrepende pela opção na Segundona do Estadual.
"Quando vim de Curitiba não poderia imaginar que encontraria essa estrutura e essa torcida. A visão na capital é que esses times do interior estão todos acabados", diz Lio.
No Arapongas, a concentração do time fica na sede campestre do clube. Com piscina, refeitório, salão de jogos e alojamento para 35 jogadores, nem parece que uma equipe de Segunda Divisão vive no local.
"O investidor tem de colocar o dinheiro na frente para ter algum retorno depois", explica Adir Leme, empresário do ramo imobiliário, que já dirigiu o Londrina, mas atualmente comanda o Arapongas e o Barueri. "O custo mensal do Arapongas é de R$ 130 mil. Mas nem 50% da receita é recuperada [são três patrocinadores na camisa]", revela o dirigente, querendo o acesso para faturar e investir muito mais.
Na vizinha Apucarana (a apenas 15 quilômetros de distância), a realidade é a mesma. A intenção é dobrar o faturamento com a subida de divisão. "Não falo em valores, mas queremos no mínimo dobrar a receita com a cota de tevê", diz o presidente Sérgio Kovalski.
Os dois rivais do Norte, que pretendem representar a região na Primeirona em 2011, também brigam pelo recorde de público na rodada decisiva. Não por acaso, a maior marca do campeonato até agora ocorreu no confronto entre Roma e Arapongas há dez dias: 4.269 pagantes.
Perto da elite, Arapongas conquista a torcida local
Na loja de artigos esportivos mais tradicional da cidade, a Sacramentana, a camisa do Arapongas virou um artigo de luxo. José Tanoure, o proprietário há 38 anos, jamais atendeu tantos telefonemas com a mesma pergunta. "Chegaram as camisas do Arapongão?".
"Nunca vi uma mobilização tão grande pelo futebol aqui", reconhece o comerciante, logo após receber uma remessa de 20 novos modelos do uniforme branco. "E não vão durar muito tempo. Já tem umas quatro ou cinco que estão encomendadas", avisa.
Sem ver o representante local na elite estadual desde 1991, os torcedores tiveram uma semana angustiante antes do jogo decisivo de hoje contra o São José.
"Quem precisou do funcionário concentrado nos últimos dias teve problemas", afirma o técnico Lio Evaristo, ex-treinador de Atlético e Corinthians-PR. Ele virou um ídolo por ter tirado o Alviverde do Norte das últimas colocações na primeira fase para chegar à rodada final da competição em condição privilegiada.
Uma rápida volta no centro de Arapongas e já percebe-se o que os fãs estão vivendo. No bar mais movimentado, o Alvorada, o assunto é apenas a chance de ouro que o município tem de retornar ao convívio dos grandes do Paraná.
"Peguei mil ingressos [para vender] na quinta-feira e já não tem nem duzentos", comentava Olair Francisco, na tarde de sexta. Dono do bar há 41 anos, ele está eufórico pelos encontros da torcida local antes e depois de cada jogo. "Pena que preciso cuidar do bar e não posso ir ao estádio", lamenta.





