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Ciclismo

Negócio em família

Tribunal de Contas da União investiga as relações comerciais da Confederação Brasileira, com sede em Londrina. Negócios envolvem parentes do presidente da entidade

Atletas em ação no Campeonato Brasileiro de Pista, no Velódromo de Maringá. A competição termina hoje e ninguém usou as bicicletas compradas em dezembro pela CBC | Fábio Dias/ Gazeta do Povo
Atletas em ação no Campeonato Brasileiro de Pista, no Velódromo de Maringá. A competição termina hoje e ninguém usou as bicicletas compradas em dezembro pela CBC (Foto: Fábio Dias/ Gazeta do Povo)
Veja como funciona a rede familiar de negócios na Confederação Brasileira de Ciclismo |

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Veja como funciona a rede familiar de negócios na Confederação Brasileira de Ciclismo

A noção de família no esporte sem­­pre esteve relacionada a grupo unido, mas a Confede­­ração Bra­­si­­leira de Ciclismo (CBC), com sede em Londrina, subverteu essa relação lúdica e fraterna.

Com parentes de seu presiden­te, José Luiz Vasconcellos, atuantes nas transações financeiras da entidade, a Confederação está sen­­do colocada em xeque pelo Tri­­­­bunal de Contas da União (TCU).

O estopim ocorreu no dia 12 de março, quando a ministra do ór­­gão fiscalizador, Ana Arraes, de­­terminou a suspensão de um contrato da CBC com a empresa londrinense Selleto para compra de 220 bicicletas para a mo­­dalidade estrada.

A companhia ganhou a licitação – com verba oriunda de uma parceria com o Ministério do Es­­por­­te – para vender os produtos à entidade esportiva com a oferta de R$ 492,5 mil. Mas, segundo o TCU, não houve concorrência de fato no certame. Pior: suspeita ter ocorrido jogo de influência e uma en­­genho­­sa estratégia de favorecimento.

Apenas três empresas participaram da disputa. Uma pertence ao irmão do cartola da CBC; outra, teve como sócio outro irmão; e a ter­­ceira, a vencedora, pertence a Jef­­ferson Schavion Marconatto, que foi sócio de Mercês Vascon­cellos, irmã do dirigente, em um empreendimento do ramo ciclístico. A situação instigou a fiscalização do TCU.

A Gazeta do Povo apurou que a relação de Marconatto com o clã Vas­­con­­cellos é ainda mais estreita. A Selleto serve de depósito para ou­­tra participante no edital, a Vzan, propriedade de José Carlos Vas­­concellos, irmão do homem-for­­te do ciclismo nacional.

"Isso é fraude. Toda vez que se gere recursos públicos, a entidade gerenciadora está submetida a re­­gras: ao princípio da moralidade, em que não se pode contratar um parente; e tem de abrir a licitação a todos, para atender ao princípio da publicidade. Nem se exige que cumpram integralmente a Lei das Licitações, a Lei 8.666/1993, mas têm de cumprir esses princípios maiores", ataca o secretário do TCU no Paraná, Luiz Gustavo Go­­mes Andriolli.

O proprietário da Selleto admite a relação comercial com a Vzan, de quem "adquire e para quem vende produtos", além da troca de informações entre as participantes da licitação – uma prática in­­comum no mercado de concorrência pelo menor valor.

Em resposta ao relatório do TCU, o presidente da CBC, José Luiz, nega que o pa­­­­rentesco in­­fluencie na avaliação das propostas. Porém, ele e Marconatto – no mesmo do­­cumento – ad­­mitiram a hipótese de devolver R$ 246,25 mil (50% do total), ci­­fra paga como adiantamento pela compra das bi­­­cicletas.

Mais parentes

Diante desses indícios, o TCU promete iniciar amanhã uma auditoria em todos os contratos envolven­do a CBC e o Ministério do Esporte em busca de outras irregularidades. Deve achar pelo me­­nos mais uma: em pesquisa da re­­portagem sobre outra licitação de compra, mais um parente de José Luiz aparece: o sobrinho Dalberto Ribeiro Arruda Junior.

O representante comercial lançou as três ofertas no processo de aquisição de 15 bicicletas para ci­­clismo de pista, importadas da In­­glaterra. Uma proposta foi por sua empresa, a Draj Represen­­tações. Outra, pela Aroforte, fabricante de aros e quadros para bicicletas e que – curiosamente – não faz importações. Por fim, a vencedora, Dias Comércio, de Maringá, com quem ele mantém relações de compra e venda.

"Quem sabe como foi a nego­­cia­­ção é o Junior. Ele fez a venda e ganhou a comissão dele, entendeu? Ele arrumou o fornecedor para mim, e aí vendemos para a Confederação", diz Salatiel Farias Dias, dono da ganhadora. "São bi­­cicletas da China, não é?", segue, equivocando-se sobre o produto britânico que negociou.

O presidente da CBC diz que a entidade não precisaria licitar essa compra. "Esse dinheiro [R$ 62,4 mil] é da Confederação, é a contrapartida que daremos ao convênio com o Ministério [R$1,3 milhão]. E não tem empresa ligada ao meu sobrinho. Ele não ganhou licitação nenhuma", afirma.

O TCU rebate, afirmando que "qualquer verba ligada a convênios com a União, seja de sessão fe­­deral à entidades ou a verba de contrapartida, precisam ser ge­­ridas de forma transparente e ética".

No total, o Ministério do Es­­por­­te repassou à CBC, em 2011, R$ 2,7 milhões para investir no desenvolvimento do ciclismo de pista, BMX e estrada. A entidade esportiva, co­mo contrapartida, ofereceu R$ 86 mil na compra de equipamentos.

"Fizemos contatos [no mercado] e as pessoas não participam. A licitação é aberta a todos. Se não participam, fazemos o quê? Abor­­tamos o projeto? Fizemos isso para formatar o ciclismo brasileiro", fe­­cha José Luiz Vascon­­cellos, mandatário da CBC.

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