
A noção de família no esporte sempre esteve relacionada a grupo unido, mas a Confederação Brasileira de Ciclismo (CBC), com sede em Londrina, subverteu essa relação lúdica e fraterna.
Com parentes de seu presidente, José Luiz Vasconcellos, atuantes nas transações financeiras da entidade, a Confederação está sendo colocada em xeque pelo Tribunal de Contas da União (TCU).
O estopim ocorreu no dia 12 de março, quando a ministra do órgão fiscalizador, Ana Arraes, determinou a suspensão de um contrato da CBC com a empresa londrinense Selleto para compra de 220 bicicletas para a modalidade estrada.
A companhia ganhou a licitação com verba oriunda de uma parceria com o Ministério do Esporte para vender os produtos à entidade esportiva com a oferta de R$ 492,5 mil. Mas, segundo o TCU, não houve concorrência de fato no certame. Pior: suspeita ter ocorrido jogo de influência e uma engenhosa estratégia de favorecimento.
Apenas três empresas participaram da disputa. Uma pertence ao irmão do cartola da CBC; outra, teve como sócio outro irmão; e a terceira, a vencedora, pertence a Jefferson Schavion Marconatto, que foi sócio de Mercês Vasconcellos, irmã do dirigente, em um empreendimento do ramo ciclístico. A situação instigou a fiscalização do TCU.
A Gazeta do Povo apurou que a relação de Marconatto com o clã Vasconcellos é ainda mais estreita. A Selleto serve de depósito para outra participante no edital, a Vzan, propriedade de José Carlos Vasconcellos, irmão do homem-forte do ciclismo nacional.
"Isso é fraude. Toda vez que se gere recursos públicos, a entidade gerenciadora está submetida a regras: ao princípio da moralidade, em que não se pode contratar um parente; e tem de abrir a licitação a todos, para atender ao princípio da publicidade. Nem se exige que cumpram integralmente a Lei das Licitações, a Lei 8.666/1993, mas têm de cumprir esses princípios maiores", ataca o secretário do TCU no Paraná, Luiz Gustavo Gomes Andriolli.
O proprietário da Selleto admite a relação comercial com a Vzan, de quem "adquire e para quem vende produtos", além da troca de informações entre as participantes da licitação uma prática incomum no mercado de concorrência pelo menor valor.
Em resposta ao relatório do TCU, o presidente da CBC, José Luiz, nega que o parentesco influencie na avaliação das propostas. Porém, ele e Marconatto no mesmo documento admitiram a hipótese de devolver R$ 246,25 mil (50% do total), cifra paga como adiantamento pela compra das bicicletas.
Mais parentes
Diante desses indícios, o TCU promete iniciar amanhã uma auditoria em todos os contratos envolvendo a CBC e o Ministério do Esporte em busca de outras irregularidades. Deve achar pelo menos mais uma: em pesquisa da reportagem sobre outra licitação de compra, mais um parente de José Luiz aparece: o sobrinho Dalberto Ribeiro Arruda Junior.
O representante comercial lançou as três ofertas no processo de aquisição de 15 bicicletas para ciclismo de pista, importadas da Inglaterra. Uma proposta foi por sua empresa, a Draj Representações. Outra, pela Aroforte, fabricante de aros e quadros para bicicletas e que curiosamente não faz importações. Por fim, a vencedora, Dias Comércio, de Maringá, com quem ele mantém relações de compra e venda.
"Quem sabe como foi a negociação é o Junior. Ele fez a venda e ganhou a comissão dele, entendeu? Ele arrumou o fornecedor para mim, e aí vendemos para a Confederação", diz Salatiel Farias Dias, dono da ganhadora. "São bicicletas da China, não é?", segue, equivocando-se sobre o produto britânico que negociou.
O presidente da CBC diz que a entidade não precisaria licitar essa compra. "Esse dinheiro [R$ 62,4 mil] é da Confederação, é a contrapartida que daremos ao convênio com o Ministério [R$1,3 milhão]. E não tem empresa ligada ao meu sobrinho. Ele não ganhou licitação nenhuma", afirma.
O TCU rebate, afirmando que "qualquer verba ligada a convênios com a União, seja de sessão federal à entidades ou a verba de contrapartida, precisam ser geridas de forma transparente e ética".
No total, o Ministério do Esporte repassou à CBC, em 2011, R$ 2,7 milhões para investir no desenvolvimento do ciclismo de pista, BMX e estrada. A entidade esportiva, como contrapartida, ofereceu R$ 86 mil na compra de equipamentos.
"Fizemos contatos [no mercado] e as pessoas não participam. A licitação é aberta a todos. Se não participam, fazemos o quê? Abortamos o projeto? Fizemos isso para formatar o ciclismo brasileiro", fecha José Luiz Vasconcellos, mandatário da CBC.




