Alecsandro, de 26 anos, lidera o Cruzeiro na ingrata missão de tentar tirar do São Paulo o pentacampeonato nacional. O atacante, desde que voltou de Portugal, em julho, atuou em seis partidas, marcou nove gols e levou a Raposa, com uma série invicta – cinco vitórias e um empate –, rapidamente à segunda colocação na tabela.

Richarlyson, de 24 anos, é o contrário do irmão. Marcou apenas um gol na competição, quando ainda atuava como meia. Mas depois que virou volante, é dele a função de parar os adversários. Desde então o São Paulo passou a ter um desempenho impressionante na defesa. Até o início da rodada, não tomava gols havia seis jogos, um recorde na história do Brasileirão por pontos corridos, criado em 2003.

Lela, o pai da moçada, até brinca: se o Coritiba tivesse segurado os garotos, não estaria na Segunda Divisão. Foi no gramado do Couto Pereira que os craques deram seus primeiros chutes. Richarlyson e Alecsandro passaram a infância em Curitiba, chegaram com um e dois anos e saíram daqui quase com dez. Nesse período, Lela ia treinar e muitas vezes levava as crianças para o campo até contra a vontade da mãe.

"Sempre que a gente podia, ia junto. Era melhor na véspera dos jogos, que era mais recreativo e dava para brincar mais", lembra Alecsandro, que não tira da memória o Passeio Público e o Jardim Botânico. "Eram os lugares que mais gostávamos de ir."

Mas foi só alguns anos depois que o futebol começou a seduzir os garotos, já em Bauru, interior de São Paulo. O mais velho foi jogar futebol de salão na linha. O mais novo não queria ficar atrás, mas como era menor, só arranjou lugar no time atuando como goleiro. Resultado: logo no primeiro campeonato Alecsandro foi o artilheiro, Richarlyson fechou o gol e os dois ergueram a primeira e última taça juntos.

Depois disso, cada um foi viver a sua vida. O cruzeirense, que sempre quis ser jogador de futebol, passou na peneira do Vitória e foi morar em Salvador. O são-paulino só foi pensar seriamente em ganhar a vida jogando bola com o sucesso do irmão nas categorias de base. Foi quando resolveu participar da peneira do Ituano e foi aprovado.

Curiosamente, o sucesso chegou primeiro para o caçula. Richarlyson já foi campeão mundial e brasileiro pelo clube do Morumbi. Alecsandro é mais experiente, já atuou no Sporting, de Portugal, mas ainda persegue o título nacional.

O pai, ao mesmo tempo que está orgulhoso, também se diz surpreso pela boa fase dos filhos. "É uma sensação muito boa vê-los atuando em duas grandes equipes. Mas se eu falar que já esperava por isso estarei mentindo", admite Lela que, quando o assunto é a sua preferência, fica em cima do muro. "Só o que espero é que São Paulo e Cruzeiro fiquem brigando até a última rodada pelo título."

Quando acabar o campeonato, aliás, é que a família Felisbino se reunirá de novo, nas férias de fim de ano. Por enquanto, as conversas ocorrem por telefone. Richarlyson é quem mais liga para casa. Solteiro, fala mais com a mãe, Maria de Lourdes. Foi para ela a homenagem de seu único gol até agora no Nacional. Alecsandro se aconselha com o pai. E os últimos gols têm comemorado com as caretas que marcaram a carreira do ex-jogador do Coritiba.

Lela, hoje técnico do juvenil do Noroeste e um dos heróis da conquista alviverde no Brasileiro de 1985, usa aquele título de 22 anos atrás como parte dos conselhos que dá aos filhos. É o exemplo predileto do ex-jogador.

"Aquele nosso time era azarão. Mas fomos degrau por degrau, com humildade, e chegamos lá. Para se ter sucesso na vida, tem de ser assim", afirma.

Os irmãos são amigos, conversam toda a semana e também se aconselham até o limite do possível. "Fico feliz pelo momento dele, com muitos gols. Espero que ele continue se dando bem, menos contra nós, é claro", brinca Richarlyson, em entrevista ao site GloboEsporte.com. O meia, contudo, se nega a voltar à pôlemica criada em torno dele, sobre homossexualismo.

Até como uma forma de mudar o foco do assunto, os dois irmãos chegaram a fazer uma aposta pelo título do Brasileiro. Quem perder, doará 30 cestas básicas a uma instituição de caridade.

Até lá, no entanto, é possível que outra aposta ocorra, talvez para o confronto direto entre São Paulo e Cruzeiro, no dia 31 de outubro.

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