O quadro do O Torto Bar virou capa de livro sobre Garrincha | Henry Milléo/Gazeta do Povo
O quadro do O Torto Bar virou capa de livro sobre Garrincha| Foto: Henry Milléo/Gazeta do Povo

Dois motivos me levaram a escrever este artigo sobre a morte de Mané Garrincha, que completou 32 anos na última terça-feira. O primeiro que, por mais que Garrincha não esteja mais entre nós em corpo, sua memória viverá para sempre conosco. É em parte por isso que escrever um livro sobre esse ídolo da minha infância sempre foi um sonho.

Em segundo lugar, esse foi o meu jeito de estabelecer minha própria identidade: "aqui estou eu – um fã dessa lenda do futebol –, será que mais alguém por aí sabe e compreende o que ainda sinto hoje, sabendo que faz 32 anos que Garrincha nos deixou?"

Depois que meu livro foi lançado, muitas pessoas me escreveram em resposta, e, pelo visto, o que eu disse entrou em ressonância com o que elas pensam. Ao longo das últimas quatro décadas, minha admiração por Garrincha e minha própria vida se aprofundaram de inúmeras maneiras. Garrincha e eu passamos por muitas mudanças e tribulações, e, a partir dessa perspectiva, pude observar a ação divina em ambas as nossas vidas, moldando-nos e nos fazendo amadurecer a cada obstáculo. Posso também, enfim, aceitar, compreender e admirar o homem que foi Mané Garrincha por quem ele realmente era: um ser humano maravilhoso e extraordinário, além de o melhor jogador de futebol que já existiu. Melhor mesmo que Pelé.

A grande paixão de Garrincha ao longo de toda a vida foi jogar futebol, nada menos do que puro talento, coisa que não se aprende nas escolinhas. Ele jogava só pela diversão, para entreter o público, em nome de um espetáculo que começou a ser chamado de "Futebol Arte", nascido de sua proeza incrível no campo ao lado de Pelé. Se estivesse vivo hoje – e pudéssemos vê-lo jogando – todo mundo ficaria boquiaberto, visto que não há ninguém cujos talentos sequer possam ser comparados aos dons mágicos que Garrincha possuía. Os tais "astros" de hoje não chegam nem perto daquilo que Garrincha podia fazer no gramado, e o que se vê no presente é nada mais do que jogadas remanescentes do que Garrincha fazia décadas atrás. Diz-se que às vezes o aprendiz supera o Mestre. Porém, nesse caso, o Mestre dos dribles que Garrincha foi jamais encontrará quem o alcance – nem em um milhão de anos!

Por mais que Garrincha nunca tenha treinado para se tornar o melhor, desde o começo é evidente que o futebol era a ambição que o motivava e ele demonstrou ao mundo que nada o impediria de ser o melhor. Tudo era um dom natural. É um fato já bem conhecido que, na Copa do Mundo de 1962, no Chile, começaram a aparecer uns cartazes imensos nos estádios dizendo: "GARRINCHA, O REI DOS REIS", muito para o azar de Pelé, que havia já antes recebido esse título injustamente da imprensa. Garrincha foi abençoado desde o começo com um talento sem igual para o jogo.

No final da sua vida, passando por muitas dificuldades, Garrincha acreditava ainda que, de algum modo, Deus não o tinha feito ir tão longe para levá-lo "para casa" já, mas sua saúde piorou e ele acabou hospitalizado em diversas ocasiões. Garrincha ficou debilitado, parecia que nada iria ajudá-lo. Seria possível que Mané estivesse dizendo às pessoas que estava pronto para "ir para casa", pedindo desculpas aos poucos que realmente o amavam, por não ter conseguido viver mais tempo?

Ele deu tudo de si, mas, no final, acredito que não lhe restavam mais nem forças, nem desejo. Onde estavam aqueles que se diziam seus amigos e família nessas horas difíceis? O povo brasileiro o havia abandonado quando ele mais precisava, exceto por um punhado de amigos leais e verdadeiros que ficaram ao seu lado até o fim. Garrincha era conhecido como a "alegria do povo", mas, ao mesmo tempo, esse povo se esqueceu de que ele sequer existia, e o desfecho trágico de sua história é algo que sempre me entristeceu.

Em 20 de janeiro de 1983, Garrincha deu seu último suspiro sem ninguém ao seu lado na clínica. Seus dias chegavam ao fim com uma última dádiva, um legado além do que ele sonhava. Hoje o nome Mané Garrincha é aclamado e venerado em todo o mundo.

Garrincha escolheu se agarrar com firmeza aos seus sonhos. Poderia ter desistido já no começo, quando foi rejeitado pelos times de futebol de maior prestígio do Brasil (alguns chegaram até a chamá-lo de "aleijado"). Seguiu em frente e se transformou no melhor dos melhores. Algum dia, quando os sinos do céu dobrarem para mim, saberei que um dos seus sons será o de Mané Garrincha, a driblar mais um adversário.

Dominique Beaucant é escritor nascido na França, é cidadão norte-americano e mora em Nova York. Fã de Mané Garrincha desde a infância, é autor de O Rei dos Reis – O Divino Anjo Voa Novamente, lançado ano passado. A capa do livro é ilustrada por um quadro do artista visual paranaense Rodrigo Lobão, que enfeita uma das paredes do O Torto Bar, em Curitiba.

Tradução: Adriano Scandolara

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