
Nos rabiscos e no imaginário do arquiteto Luiz Hayakawa, o líder da maratona no Pan-07 sairia da BR-476, acessaria a Avenida Victor Ferreira do Amaral por uma alameda olímpica construída em parte do terreno do Jockey Club e fecharia o longo percurso de 42.195 metros na pista de atletismo do Estádio Pinheirão, ovacionado pelo público.
"Seria uma Champs Elysées curitibana", conta ele, fazendo referência à reestruturação da acanhada Dino Bertoldi, no bairro Tarumã. "Espalharíamos totens em que contaríamos a história dos Jogos Olímpicos durante toda a extensão da rua, algo fantástico. Um museu a céu aberto", emenda o representante do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), órgão responsável por pensar a cidade.
Foi na mão deste sonhador assumido que o ex-governador Jaime Lerner jogou a missão de tirar do papel, há 14 anos, um de seus mais ambiciosos projetos: a Vila Olímpica de Curitiba, requisito indispensável para alavancar o pleito da capital paranaense de sediar os Jogos Pan-Americanos de 2007 e, quem sabe, parte da Olimpíada de 2016.
Hayakawa, então na presidência da Coordenação da Região Metropolitana de Curitiba (Comec), escolheu a região do Tarumã por já abrigar o Ginásio Almir Nelson de Almeida, conhecido popularmente como Tarumã, o Jockey Club do Paraná, o Pinheirão e, em fase de estudos para implantação, a Universidade do Esporte (atual Centro de Capacitação Esportiva). Fora o Colégio Militar, a Hípica...
O ginásio se transformaria na casa do vôlei, basquete e handebol no Pan paranaense. O estádio da Federação Paranaense de Futebol (FPF) abrigaria, além do futebol, as provas de atletismo a pista oficial instalada no local custou aproximadamente R$ 1 milhão.
Ao Jockey caberia o papel de destaque. Lá seriam montadas a Vila Olímpica (conjunto de apartamentos que serviria de concentração para os atletas), outra pista de atletismo e ginásios menores para treinamento.
O projeto não parava por aí. O Colégio Militar, desativado à época, viraria parque aquático. A Hípica receberia as provas de hipismo. Os tablados e aparelhos da ginástica seriam montados na Universidade do Esporte. Um pouco mais distante, no Parque Náutico do Iguaçu (Boqueirão), os atletas brigariam por medalhas no remo e na canoagem. Na represa do Iraí, a vela. O Autódromo Raul Boesel, o Parque dos Peladeiros e Estádio de Beisebol (os dois últimos no Cajuru) também acabariam agregados.
Mas como a Vila não saiu da prancheta, restou a Curitiba aprender a lidar com os complexos esportivos que já existiam e seriam revitalizados com a vinda da principal competição esportiva das Américas.
Apesar de um efêmero sucesso principalmente nos anos 90, as praças do Tarumã, localizadas em um raio de três quilômetros, caminharam para o ostracismo. Três delas vivem um período triste.
A situação mais difícil é a do Pinheirão. Palco de Brasil x Uruguai pelas Eliminatórias para a Copa de 2006, quando recebeu cerca de R$ 5 milhões em benfeitorias, o estádio está praticamente condenado. O xodó do ex-presidente da FPF, Onaireves Moura, encontra-se interditado e lacrado por determinação da Justiça. Desde maio de 2007 ninguém pode entrar no complexo. Virou alvo da "arte" de vândalos, revelada logo na fachada do imóvel.
Para reabri-lo, a estimativa da FPF é de que sejam necessários no mínimo R$ 500 mil. Dinheiro que a entidade, cuja dívida bate na casa dos R$ 43 milhões, não dispõe. "Como vou deixar de pagar contas para investir no Pinheirão? E quem iria usá-lo, já que os times da capital têm estádio?", resigna-se Hélio Cury, atual presidente da Federação.
A solução passaria por uma negociação com a prefeitura, credora em R$ 7,6 milhões o município estaria interessado em parte da área para a construção de um ginásio poliesportivo. Neste caso, com a documentação em dia, o estádio poderia ser transformado em centro comercial.
Dívidas que também atormentam o vizinho Jockey Club. Pendências que até meados de 2006 atingiam R$ 30 milhões. Sem alternativa, a nova diretoria do clube se viu obrigada a vender 12% da área de 30 alqueires por R$ 19 milhões para duas incorporadoras imobiliárias. No local serão construídos dois condomínios residenciais de luxo.
"Agora a situação é muito positiva. Devemos ainda R$ 5,5 milhões, mas não pretendemos nos desfazer de mais nada", explica Sergio Bucoski, diretor comercial e de planejamento do Jockey, indicando, contudo, a possibilidade de alugar outra parte do terreno para comércio. "O dinheiro serviria para zerar o déficit mensal (de aproximadamente R$ 160 mil)."
As agruras do Ginásio do Tarumã e do Centro de Capacitação Esportiva (CCE) são de outra natureza. A antiga casa do Rexona, time de vôlei feminino, não recebe uma partida oficial desde 2004. Há quase um ano passa por obras. Somente a reforma da cobertura e a troca do telhado custou ao governo estadual R$ 2,2 milhões. Ainda faltam o piso, parte elétrica, hidráulica... A previsão de que o palco de eventos como o Mundial Masculino de Vôlei (em 1990) e apresentações de basquete dos Harlem Globetrotters (décadas de 70 e 80) seja reinaugurado dia 19 de novembro em 2010, o ginásio comemora 45 anos.
"Queremos os grandes acontecimentos de volta ao Tarumã", conta Marco Aurélio Saldanha Rocha, presidente da Paraná Esporte, autarquia estadual.
Antes de entregá-lo, porém, o Palácio Iguaçu precisará bancar mais uma mão de tinta na entrada do ginásio. A nova pintura não resistiu duas semanas. Para piorar, os pichadores ainda danificaram as letras com o nome oficial da praça de esportes, usadas como apoio para subir aos locais mais altos.
Em situação melhor que a dos vizinhos, o CCE até ano passado era sede da seleção brasileira de ginástica. Descentralizada com mudança de gestão da Confederação Brasileira da modalidade, a equipe nacional fez um período de treinamento nas instalações, semana passada. A principal atividade do centro é preparar cerca de 1.450 crianças, que passam semanalmente pelo local divididas em turmas de vôlei e ginástica.





