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Veja como era para ser e como está a Vila olímpica do Tarumã |
Veja como era para ser e como está a Vila olímpica do Tarumã| Foto:

Entrevista

Jaime Lerner, ex-prefeito de Curitiba e ex-governador do Paraná.

Há 14 anos, o senhor lançou o projeto da Vila Olímpica de Curitiba. Qual era a ideia?

Na Victor Ferreira do Amaral já existia uma concentração de equipamentos esportivos, o Ginásio do Tarumã, o Pinheirão, a Hípica, o Jockey Clube... Pensei: por que não concentrar todos os equipamentos neste eixo? E aproveitar uma continuidade entre a Victor Ferreira e o Parque do Iguaçu – lá seria disputada a parte náutica. Tudo o que surgisse relacionado a esporte seria construído lá. Clubes e empresas que quisessem fazer áreas esportivas, que fizessem no Tarumã. Mas com uma condição: o consórcio da Vila Olímpica. Toda vez que houvesse um grande evento esportivo, eles se comprometeriam a ceder a área.

A Cohab também construiria moradias que, em um determinado momento, serviriam para abrigar os atletas. Com o fim do eventos, seriam colocadas no mercado. Curitiba teria uma Vila Olímpica sem ter gasto nada para isso.

A intenção também era sediar os Jogos Pan-Americanos e parte de uma Olimpíada?

A intenção era estar equipado para sediar qualquer evento esportivo.

Por que o projeto não saiu do papel?

Eu deixei o governo do estado (no fim de 2002) e não sei o que aconteceu. Mas a ideia é clara, viável e continua válida. Só que exigiria que as administrações seguintes dessem continuidade. (CEV)

Política

Governos divergem sobre esporte

Jaime Lerner e Roberto Requião, os dois últimos governadores do Paraná, pensam de maneira diferente em relação ao esporte. Enquanto o primeiro sonhava com a construção da Vila Olímpica, a organização do Pan e até de parte de uma Olimpíada, o segundo preferiu investir na base.

A ideia de Lerner era usar esportistas famosos – as seleções de ginástica, Bernardinho, Hortência e Joaquim Cruz – como referência para os programas de formação de atletas. Assim nasceu o time de vôlei feminino do Rexona, bicampeão da Superliga (97/98 e 99/00) enquanto esteve sediado na cidade, até 2004; a equipe de basquete, de São José dos Pinhais; e o esboço do núcleo de atletismo. "A política era criar vários centros (de excelência) no interior. E, na Universidade do Esporte, formaríamos os técnicos e dirigentes", afirma Lerner.

Já Requião enveredou por outro caminho, cancelando quase todos os projetos do antecessor – apenas os núcleos da ginástica e do vôlei foram mantidos. O atual governador optou por recuperar os desprestigiados (à época) Jogos Colegiais, esquecendo os times profissionais. "O projeto esportivo do Paraná é grandioso, envolve mais de 430 mil atletas. Chama-se Jogos Colegiais do Paraná e foi resgatado pelo governo Roberto Requião", ressalta Marco Aurélio Saldanha Rocha, presidente da Paraná Esporte, autarquia estadual. "É daí que surgem os campeões", emenda.

Sem incentivo, o Rexona se mudou para o Rio de Janeiro. O basquete acabou. E o conjunto capitaneado por Daiane dos Santos arrumou as malas. Vácuo que de certo modo também incomoda Marco Aurélio. "Coisas boas merecem ter continuidade. (Se fosse presidente da Paraná Esporte na ocasião) iria lutar para manter com todas as minhas forças", diz ele, que assumiu a pasta em junho deste ano. (CEV)

  • Fachada do Ginásio do Tarumã, é alvo de vandalismo. Ao lado, o Pinheirão sofre com a ação do tempo

Nos rabiscos e no imaginário do arquiteto Luiz Hayakawa, o líder da maratona no Pan-07 sairia da BR-476, acessaria a Avenida Victor Ferreira do Amaral por uma alameda olímpica construída em parte do terreno do Jockey Club e fe­­charia o longo percurso de 42.195 metros na pista de atletismo do Estádio Pinheirão, ovacionado pelo público.

"Seria uma Champs Elysées curitibana", conta ele, fazendo re­­ferência à reestruturação da acanhada Dino Bertoldi, no bairro Tarumã. "Espalharíamos totens em que contaríamos a história dos Jogos Olímpicos durante toda a extensão da rua, algo fantástico. Um museu a céu aberto", emenda o representante do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), órgão responsável por pensar a cidade.

Foi na mão deste sonhador as­­sumido que o ex-governador Jai­me Lerner jogou a missão de tirar do papel, há 14 anos, um de seus mais ambiciosos projetos: a Vila Olím­­pica de Curitiba, requisito in­dispensável para alavancar o pleito da capital paranaense de se­diar os Jogos Pan-Americanos de 2007 e, quem sabe, parte da Olimpíada de 2016.

Hayakawa, então na presidência da Coordenação da Região Me­­tropolitana de Curitiba (Comec), escolheu a região do Tarumã por já abrigar o Ginásio Almir Nelson de Almeida, conhecido popularmente como Tarumã, o Jockey Club do Paraná, o Pinheirão e, em fase de estudos para implantação, a Uni­versidade do Esporte (atual Centro de Capacitação Esportiva). Fora o Colégio Militar, a Hípica...

O ginásio se transformaria na casa do vôlei, basquete e handebol no Pan paranaense. O estádio da Federação Paranaense de Futebol (FPF) abrigaria, além do futebol, as provas de atletismo – a pista oficial instalada no local custou aproximadamente R$ 1 milhão.

Ao Jockey caberia o papel de destaque. Lá seriam montadas a Vila Olímpica (conjunto de apartamentos que serviria de concentração para os atletas), outra pista de atletismo e ginásios menores para treinamento.

O projeto não parava por aí. O Colégio Militar, desativado à época, viraria parque aquático. A Hípica receberia as provas de hipismo. Os tablados e aparelhos da gi­­nástica seriam montados na Universidade do Esporte. Um pouco mais distante, no Parque Náu­tico do Iguaçu (Boqueirão), os atletas brigariam por medalhas no remo e na canoagem. Na represa do Iraí, a vela. O Autódromo Raul Boesel, o Parque dos Peladeiros e Estádio de Beisebol (os dois últimos no Cajuru) também acabariam agregados.

Mas como a Vila não saiu da prancheta, restou a Curitiba aprender a lidar com os complexos esportivos que já existiam – e seriam revitalizados com a vinda da principal competição esportiva das Amé­ricas.

Apesar de um efêmero sucesso principalmente nos anos 90, as pra­­­ças do Tarumã, localizadas em um raio de três quilômetros, caminharam para o ostracismo. Três delas vivem um período triste.

A situação mais difícil é a do Pinheirão. Palco de Brasil x Uru­­guai pelas Eliminatórias para a Copa de 2006, quando recebeu cerca de R$ 5 milhões em benfeitorias, o estádio está praticamente condenado. O xodó do ex-presidente da FPF, Onaireves Moura, encontra-se interditado e lacrado por determinação da Justiça. Desde maio de 2007 ninguém pode entrar no complexo. Virou alvo da "arte" de vândalos, revelada logo na fachada do imóvel.

Para reabri-lo, a estimativa da FPF é de que sejam necessários no mínimo R$ 500 mil. Dinheiro que a entidade, cuja dívida bate na casa dos R$ 43 milhões, não dispõe. "Como vou deixar de pagar contas para investir no Pinheirão? E quem iria usá-lo, já que os times da capital têm estádio?", resigna-se Hélio Cury, atual presidente da Fede­­ração.

A solução passaria por uma negociação com a prefeitura, credora em R$ 7,6 milhões – o município estaria interessado em parte da área para a construção de um ginásio poliesportivo. Neste caso, com a documentação em dia, o es­­tádio poderia ser transformado em centro comercial.

Dívidas que também atormentam o vizinho Jockey Club. Pen­­dências que até meados de 2006 atingiam R$ 30 milhões. Sem alternativa, a nova diretoria do clube se viu obrigada a vender 12% da área de 30 alqueires por R$ 19 milhões para duas incorporadoras imobiliárias. No local serão construídos dois condomínios residenciais de luxo.

"Agora a situação é muito positiva. Devemos ainda R$ 5,5 mi­­lhões, mas não pretendemos nos desfazer de mais nada", explica Sergio Bucoski, diretor comercial e de planejamento do Jockey, indicando, contudo, a possibilidade de alugar outra parte do terreno para comércio. "O dinheiro serviria para zerar o déficit mensal (de aproximadamente R$ 160 mil)."

As agruras do Gi­­násio do Tarumã e do Centro de Capaci­­ta­­ção Esportiva (CCE) são de outra natureza. A antiga casa do Re­­xo­­na, time de vôlei feminino, não recebe uma partida oficial desde 2004. Há quase um ano passa por obras. Somente a re­­forma da cobertura e a troca do telhado custou ao governo estadual R$ 2,2 mi­­lhões. Ainda faltam o piso, par­­te elétrica, hidráulica... A previsão de que o palco de eventos como o Mundial Mas­culino de Vôlei (em 1990) e apresentações de basquete dos Harlem Glo­betrotters (décadas de 70 e 80) seja reinaugurado dia 19 de novembro – em 2010, o ginásio comemora 45 anos.

"Queremos os grandes acontecimentos de volta ao Tarumã", con­ta Marco Aurélio Saldanha Ro­cha, presidente da Paraná Es­porte, autarquia estadual.

Antes de entregá-lo, porém, o Palácio Iguaçu precisará bancar mais uma mão de tinta na entrada do ginásio. A nova pintura não re­­sistiu duas semanas. Para piorar, os pichadores ainda danificaram as letras com o nome oficial da praça de esportes, usadas como apoio pa­­ra subir aos locais mais altos.

Em situação melhor que a dos vizinhos, o CCE até ano passado era sede da seleção brasileira de ginástica. Descentralizada com mudança de gestão da Confe­­de­­ração Brasileira da modalidade, a equipe nacional fez um período de treinamento nas instalações, se­­mana passada. A principal atividade do centro é preparar cerca de 1.450 crianças, que passam semanalmente pelo local divididas em turmas de vôlei e ginástica.

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