
César Cielo Filho. Um paulista de 21 anos, nascido Santa Bárbara do Oeste, que mora nos Estados Unidos e nada como ninguém. É dele o primeiro ouro brasileiro em Pequim. É dele o primeiro ouro da história da natação brasileira. Foi dele também a primeira medalha da modalidade desde 2000, um bronze. Só podia ser dele.Nenhum brasileiro teve, em uma Olimpíada, um desempenho tão surpreendente em um único estilo do esporte. O nadador conseguiu o feito de, nas três provas dos 50 metros que disputou (preliminar, semifinal e final), sempre bater o recorde olímpico 21s30, que agora só poderá ser superado daqui a quatro anos. Na última delas, por pouco não pegou para si também o mundial, 21s28, do australiano Eamon Sullivan.
"Foi a melhor prova da minha vida. Vi meus pais na arquibancada... É o melhor dia da minha vida. Foi sensacional", afirmou, logo depois de sair da piscina, sem conter as lágrimas, que começaram já na piscina, quando ele viu no placar que havia ganho, e seguiram no pódio, ao som do Hino Nacional.
Cielo vive a expectativa de seu grande momento na natação desde o Pan-Americano do Rio, no ano passado. Lá, numa disputa que tinha o campeão olímpico Gary Hall Jr., ficou com a medalha de ouro nos 50 m livre cravando 21s84, o novo recorde pan-americano na época, apenas 20 milésimos de segundo abaixo do recorde mundial, tempo que lhe daria o ouro olímpico na distância em qualquer edição anterior dos Jogos.
O sonho da maior marca do mundo, contudo, chegou a virar pesadelo, quando seu técnico o acordou no meio de uma madrugada fria em fevereiro para lhe dizer que, após oito anos, havia caído a tão temida marca do russo Alexandr Popov, que sempre pareceu imbatível para a nova geração de nadadores.
Curiosamente, o responsável pelo pesadelo do brasileiro no começo do ano era aquele mesmo nadador que, no fim da prova de ontem, agarrado a uma espécie de corda que separa as raias na piscina, olhava para o placar, para Cielo e não deveria saber o que fazer com apenas a sexta colocação.
Mas, os incríveis 21s28 segundos do australiano Eamon Sullivan, por apenas dois décimos de segundo, estão intactos. Cielo fez 21s30. Ainda não é a marca que tem na cabeça. Que está grudada na parede do quarto, em um quadro, para ser vista de manhã, à tarde e a noite. O que, nesse momento, não tem a mínima importância.
"Não mudaria nada no que fiz até aqui para sentir essa sensação maravilhosa. É muito bom olhar para o placar e ver o número 1 do lado do seu nome", disse.
Desde a Olimpíada de Sydney-2000 a natação brasileira não ganhava uma medalha a última foi um bronze do revezamento. Desde Atlanta-1996 não subia ao pódio no individual Gustavo Borges uma prata. Mas não esqueça principalmente disso: antes de Cielo a natação nunca havia conquistado um ouro olímpico.
"Antes da final dos 100 m livre, falei para o meu técnico que talvez desse medalha. Mas logo disse: Tô viajando, sem chance. Agora sou um campeão olímpico. É um sonho de criança. Não posso acreditar", afirmou. "Estou há três anos nos Estados Unidos. Agora só quero aproveitar, passar um tempo com a família, rever meus pais."
Merece.








