
Há uma lembrança da infância que Leonor Demário jamais esquece. Ela jogando pingue-pongue com os 12 irmãos na sala de casa, em Guarapuava, na região central do estado. O campeonato era animado. Tudo na base do improviso. Os meninos se encarregavam de procurar pedaços de madeira que pudessem imitar a rede e as raquetes. A mesa do jantar servia de campo. E a diversão corria solta, para alegria dos pais, que viam os filhos sempre por perto.
Aos poucos, contudo, Leonor começou a gostar e a exercer outra função no Torneio dos Demário. Era ela a encarregada por dar um mínimo de organização à disputa. Do regulamento às compras da bolinha na papelaria, tudo passava por suas mãos.
A brincadeira de criança virou coisa de gente grande a partir de 1986. Leonor, já professora de Educação Física formada, resolveu fazer o curso de arbitragem da Federação Paranaense de Tênis de Mesa, em Curitiba havia mudado para a capital três anos antes. Acabou por se tornar juíza. E das boas, garante. "Era o caminho natural de quem gostava muito do esporte", conta.
Da pequena sala no interior do Paraná, para o mundo. Leonor está em Pequim representando a arbitragem brasileira nos Jogos Olímpicos. "Sou a única do país", alardeia a moradora do bairro Bacacheri, em Curitiba. "Para o árbitro funciona do mesmo jeito que para o atleta. A Olimpíada é o ponto mais alto da carreira. Já havia apitado Mundiais, Pan, mas nunca pensei que poderia chegar a uma Olimpíada. É mais um sonho que realizo", afirma.
A paranaense comandou ontem o jogo entre China Taipei (o nome com que Taiwan vem competindo em Pequim) e Coréia do Sul. Clássico oriental. Esbanjou categoria e em nenhum momento foi contestada pelos mesa-tenistas. "Não é um esporte tão difícil assim de arbitrar. Procuro prestar muita atenção, ficar concentrada, especialmente nos saques. É neste momento que o atleta pode se aproveitar de uma distração sua", comenta, citando em seguida os vários modos com que alguém menos honesto consegue burlar as regras do jogo. "Tem de ficar ligado no jeito de bater na bola, na posição e na raquete."
Esporte de pouca tradição no Brasil, o tênis de mesa não vai conseguir brigar por medalhas nesta Olimpíada, que ficará marcada apenas como os Jogos de despedida de Hugo Hoyama, titular da seleção desde Barcelona-92 e dono de nove medalhas de ouro em Jogos Pan-Americanos recorde absoluto no país.
Sem concorrentes, o brilho da categoria em Pequim sobrará todo para a paranaense Leonor. "Em alguns momentos eu custei a acreditar que estava mesmo aqui", revela. Pode acreditar.



