
Ao derrotar as fortes candidatas Los Angeles-EUA e Moscou-URSS, a cidade canadense de Montreal aparecia como a melhor em organização e competição quando o assunto foram os Jogos Olímpicos de 1976. Entretanto, ao final do evento, no dia 1º de agosto, o saldo foi bastante negativo, em um fracasso nunca visto desde St. Louis 1904. Em partes, a culpa foi do Comitê Olímpico Internacional (COI). Como proibiu a Nova Zelândia de participar dos Jogos uma vez que o país da Oceania enviou a seleção de rugby para uma excursão pela África do Sul, nação banida por conta do Apartheid , a entidade viu 26 nações africanas, o Iraque e a Guiana recusarem-se a participar das Olimpíadas. O boicote seria o primeiro de grandes proporções na história do evento.
Sem tantos países, o nível de algumas competições, como as provas longas do atletismo, teve uma queda de nível considerável. Comercialmente, os Jogos geraram uma dívida de US$ 2 bilhões, sobretudo pelos altos investimentos no moderno Estádio Olímpico de Montreal, além de outros custos mal geridos pela organização.
Outro fiasco foi que, pela primeira vez, a tocha olímpica foi acesa "eletronicamente" entre Atenas e Ottawa, capital canadense, e de lá seguiu em revezamento até Montreal. O problema é que durante os Jogos uma forte chuva apagou a pira olímpica, e um funcionário a acendeu com um isqueiro. Para fechar negativamente, o Canadá tornou-se o primeiro país-sede a passar em branco no quadro geral de medalhas, sem uma única conquista. De positivo, apenas o esquema de segurança (visto o atentado terrorista ocorrido em Munique quatro anos antes) muito eficiente, e o aparecimento de um mito na ginástica feminina.
A romena Nadia Comaneci, de 14 anos, tornou-se a sensação dos Jogos de 1976. É dela a primeira nota 10, obtida nas barras assimétricas. A marca era considerada impossível. Este foi apenas o primeiro 10 de uma série de sete que ela receberia durante todo o evento. No total, Nadia conquistou três medalhas de ouro. A União Soviética também teve o que comemorar. Também na ginástica, Nellie Kim faturou outros três ouros para o país. No atletismo, Viktor Saneyev sagrou-se tricampeão olímpico, batendo o brasileiro João Carlos de Oliveira, o João do Pulo, então recordista mundial e que ficaria com a medalha de bronze. A delegação de 93 atletas (86 homens e sete mulheres) do Brasil veria ainda a dupla formada por Reinaldo Conrad e Peter Ficker trazer outro bronze, mas na vela.
Para os Estados Unidos, os Jogos de 1976 são daqueles que é melhor esquecer. O país ficou apenas na terceira colocação no quadro geral de medalhas (com 34 ouros, 35 pratas e 25 bronzes), bem atrás da URSS (49 ouros, 41 pratas e 35 bronzes) e da Alemanha Ocidental (40 ouros, 25 pratas e 25 bronzes). Como alento, apenas o envio da melhor equipe de boxe para uma edição das Olimpíadas: de Sugar Ray Leonard, Leon Spinks, Michael Spinks, Leo Randolph e Howard Davies Jr. Todos eles ganharam a medalha de ouro em Montreal e apenas Davies não conquistou o título mundial em suas categorias nos anos seguintes.
Ao todo, 92 países participaram dos Jogos com 6084 atletas (1260 mulheres e 4824 homens). Vinte e três modalidades (atletismo, basquete, boxe, canoagem, ciclismo, esgrima, futebol, ginástica, halterofilismo, handebol, hipismo, hóquei sobre a grama, judô, luta, natação, pentatlo moderno, pólo aquático, remo, saltos ornamentais, tiro, tiro com arco, vela e vôlei) foram disputadas.
Emoções não faltaram. Em um fato inédito até então, o húngaro Imre Nemeth, medalha de ouro em Londres 1948 no lançamento do martelo, viu seu filho, Miklos Nemeth, vencer o lançamento do dardo. Já o finlandês Lasse Viren voltou a ganhar os 5 mil e os 10 mil metros no atletismo, enquanto o cubano Alberto Juantorena foi o primeiro a ganhar os 400 metros e os 800 metros em uma mesma Olimpíada. Mas a maior prova de dedicação veio na competição por equipes da ginástica masculina. O japonês Shun Fujimoto levou o seu país ao ouro com uma ótima nota nas argolas. Mais tarde, descobriu-se que o atleta estava com o joelho deslocado.






