
Primeiro as estrelas. Agora as promessas. O fim da seleção permanente apagou parte do brilho da ginástica em Curitiba, por oito anos a casa da modalidade no país. As despedidas iniciadas há dois anos tiveram duas novas baixas há duas semanas. As últimas a sair foram a potiguar Ana Cláudia Araújo e a paranaense Khiuani Dias, ambas com 17 anos. Contratadas pelo Flamengo, treinam desde a semana passada com a dupla de ex-companheiras do Tarumã Jade Barbosa e Daniele Hypólito.
Com a mudança na cúpula da Confederação Brasileira de Ginástica (CBG), em 2008, o funcionamento da seleção brasileira foi extinto nos antigos moldes. As meninas que moraram e treinaram na capital paranaense durante os dois últimos ciclos olímpicos Grécia e China tiveram de voltar para os seus clubes e se reunirem às vésperas dos torneios. Diante da nova estrutura, as primeiras a deixarem a cidade foram Daiane dos Santos e Laís Souza, contratadas pelo Pinheiros-SP ainda em 2008.
Na última seletiva para formar a equipe nacional em 2009, das 11 meninas escolhidas, 9 pertenciam ao antigo grupo que treinava na capital e permaneceram aqui na mesma estrutura usada pela seleção. Ficaram sob o comando da antiga assistente de Oleg Ostapenko (que regressou para a Ucrânia), Irina Ilyashenko, e competindo pela Associação do Pessoal da Caixa Econômica Federal (Apecef-PR), que empresta o nome à equipe.
Ana Cláudia e Khiuani estavam entre as remanescentes. Até este mês. "No final do ano já estava pensando em mudar mesmo, treinar em outro lugar, outra cidade. Precisava de uma mudança porque estava um pouco sem ânimo. Resolvi vir para cá e me aceitaram", justificou, por telefone do Rio de Janeiro, a ginasta de São José dos Pinhais.
Uma saída amigável, mas que chateou a antiga coordenadora da CBG e hoje na Federação Paranaense de Ginástica, Eliane Martins.
"Usamos todos os argumentos para ela não ir embora. Mas não há nada que a prenda e foi sem briga, tudo bem. Claro que é ruim. Sempre que um atleta formado sai para outro clube é péssimo. Perde-se o investimento feito", lamentou e disparou: "Temos os melhores resultados. Somos o clube a ser batido e a única maneira de nos vencerem é levando as nossas ginastas. É mais fácil do que formar as próprias atletas."
Técnico de Khiuani e Ana Cláudia no Flamengo, Ricardo Pereira, disse que ninguém procurou as meninas. "Elas vieram e nós aceitamos, só isso", diz.
Para Eliane, elas devem ter recebido uma proposta salarial mais vantajosa. "Nem quis saber sobre isso pois não poderíamos competir com qualquer valor. Não temos dinheiro. Para 2010 ainda não temos nada, nem a ajuda mensal das atletas", explicou. As 30 ginastas recebem entre R$ 300 e R$ 600, do contrato com a Caixa Econômica Federal, encerrado em dezembro.
As conversas para a renovação com a Caixa já começaram e a Federação aguarda ainda a resposta nos próximos dias de uma empresa local interessada em investir na ginástica por meio da Lei de Incentivo ao Esporte. O projeto, de R$ 1 milhão por ano, foi aprovado no Ministério do Esporte.
Khiuani alegou que o desejo pela independência e os novos ares pesaram mais na escolha do que a oferta financeira feita pelo clube da Gávea. "Vou receber um salário não muito maior do que eu recebia em Curitiba. Aqui tem o projeto de um centro de treinamento, estou junto com as meninas que eu já conhecia", justificou.



