
Passava de 2 horas da manhã de sábado (horário de Brasília) quando Tiago Fernandes fez o ace que selou sua conquista do Aberto da Austrália juvenil, o primeiro Grand Slam da categoria vencido por um tenista brasileiro. Desde então, o garoto de 17 anos não teve mais sossego.
Precisou atender telefonemas de toda parte, convites para entrevistas, incorporar câmeras de televisão à sua rotina. Mal dormiu. Aprende na marra que, com os títulos importantes, vem o compromisso, a pressão por mais resultados.
Enquanto voltava da Oceania demorou quase 40 horas para chegar a Balneário Camboriú, onde mora e treina na academia de Larri Passos , sua assessora marcava compromissos atrás de compromissos. Chegou em São Paulo às 20 horas de segunda-feira e participou de um programa de televisão com Galvão Bueno direto do aeroporto. Perdeu o voo para Santa Catarina e só às 5 horas da manhã, depois de pegar um táxi de Curitiba, pisou em casa. Incrivelmente, três horas depois já estava em pé para treinamentos e, claro, gravar especiais de tevê e rádio e atender jornalistas da imprensa escrita. Sempre com um indisfarçável sorriso no rosto.
"É melhor atender todo mundo agora e ficar tranquilo para poder treinar depois e me preparar para o próximo torneio", entendeu o jovem tenista com uma tranquilidade de assustar muito profissional habituado a dar entrevista. "A partir de amanhã (quarta), ninguém entra mais aqui na academia. A gente perde um dia, mas consegue se concentrar para seguir adiante", brincou Larri.
Após o título, Tiago ainda não conseguiu ver a família que mora em Maceió, sua cidade natal. Faz mais de dois meses que não dá um abraço no pai Luiz Henrique e na mãe Edna. Faz mais de três dias que convive com jornalistas no seu encalço. "A gente tem de se acostumar. É o tipo de sacrifício que todo jogador de tênis precisa fazer. Não tem jeito", conformou-se Torozinho, como é chamado por Larri Passos.
O garoto mal pode ver a hora de chegar em Maceió. Seus pais estarão na Costa do Sauipe para o Brasil Open, na próxima semana, e depois de lá levam Tiago embora. Merecido descanso depois dos flashes, dos gravadores e das inúmeras horas em quadra ouvindo Larri pedir mais empenho. "Família é essencial para se formar um campeão", garantiu o próprio detentor do título australiano. "Aqui (na academia) eu dou duro, sofro. Lá, com eles, que eu busco tranquilidade, equilíbrio emocional".
Tiago está sendo preparado para conquistar títulos e lidar com a pressão desde que tinha 15 anos e decidiu deixar Alagoas. Em 2008, fez dupla com Gustavo Kuerten no torneio de despedida, em Florianópolis, do maior tenista que o Brasil já teve. Ideia de Larri. Muitos ficaram com um pé atrás. "A família dele achou que eu estava completamente louco", divertiu-se Larri. "Mas foi um risco calculado. Foi o primeiro friozinho na barriga da carreira dele".
Alguns meses depois, Tiago estava com Larri em Londres durante o Torneio de Wimbledon. Encontrou "apenas" Roger Federer, que o viu jogar. "O Federer até brincou comigo: Ensina esse garoto a bater na esquerda com uma mão igual a mim e o Guga", lembrou o treinador.



